Reinventando as Favelas

A refavela nossa de cada dia!



No final da década de 1970 eu era um adolescente em turbilhão. Passava o dia inteiro na rua e só queria saber de futebol, dominó e jogar gude.


Minha mãe ficava preocupada. Cada conselho que ela me dava era esquecido; depois eu percebia muito aborrecido como ela tinha razão: era uma aprendizagem de vida.

No início das férias escolares dos meus 15 anos, ela decretou que eu ficaria em casa, que não iria para a rua.
Fiquei atordoado: deixar de jogar bola e dominó era o fim!
Então ela me chamou e disse:  – Você vai passar uns dias na casa do seu tio. Lá eu sei que você vai ficar quietinho, longe deste barulho.

Lá fui eu para a casa do meu tio. Apesar da companhia dos meus primos e da comida gostosa que havia por lá, o que eu queria mesmo era vadiar, ficar nas ruas com os amigos.

Na casa do meu tio, a esposa dele me mostrou uma coleção de discos (LP). Um disco chamou a minha atenção: era Refavela, de Gilberto Gil: um disco diferente, com uma batida inovadora, das coisas que havia na Bahia, mas de algo que para mim ainda não era muito bem curtido: as batidas africanas.

Não sabia eu que aquele era um clássico na carreira de Gil, em que ele trocava figurinhas com o Ilê Ayê, mostrando uma diferenciada forma de fazer música brasileira. Não havia ainda percebido as origens das origens de toda a música baiana que iria transbordar nos anos 1980 e 1990, com base nos ritmos sincopados de sons como o da música Patuscada de Gandhi.

Foi ouvindo diversas vezes aquele disco que eu pude perceber que o melhor lugar do mundo é Aqui e Agora!
Foi naquele disco que eu me despir de conceitos e preconceitos e pude sentir o movimento, a dança e a espiritualidade de um Babá Alapalá
Foi na singeleza de Sandra que pude usufruir da grandiosidade do poeta ao exaltar o feminino, transfigurado em múltiplos nomes de mulheres.
Foi com aquelas músicas que pude repensar a Refavela: dos sem casa, dos sem teto, dos sem nada: à espera de uma Nova Era.

Hoje ouço No Norte da Saudade me emociono com um cancioneiro tão nosso, tão brasileiro.


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Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.