
Dizem os antigos que em tempos longínquos havia o reino do futebol, um lugar suntuoso onde moravam entidades divinas de um lado, chamado de céu, e o povo do outro, chamado de desterro.
De tempos em tempos eram realizados grandes torneios em que era possível o povo, que vivia na periferia, participar do encontro, assistindo aos espetáculos, consumindo muita bebida alcoólica e praticando jogos de azar.
As divindades, que vamos chamar de deusas, tinham nomes bem peculiares e eram idolatradas por todos. Assim havia o deus Visio que era responsável por criar umas janelas para que os espectadores assistissem aos jogos. Muito vaidoso, o deus Visio não permitia que ninguém mais realizasse a tarefa de visualização dos jogos, mas um dia surgiu o deus Zé, também muito vaidoso, que sabia construir janelas maiores e com melhor visibilidade para o que estava acontecendo no campo de futebol. Isto criou uma grande inimizade entre os deuses, o que resultou em uma guerra santa sem precedentes entre as entidades, mas esta guerra poderá ser contada em outra ocasião.
Um outro deus muito querido era o deus Betinho, que regia o dinheiro do povo em apostas nos jogos de azar. Betinho distribuía dinheiro, como faz um agiota, e depois retirava tudo o que o cidadão possuía, deixando as pessoas loucas e mais pobres.
O deus Bia era um dos mais venerados, pois era o responsável por fornecer bebidas alcoólicas durante as partidas. No final de cada partida era gente bêbada por todos os lados: uns batiam nas esposas ou namoradas, caso o time do coração perdesse; outros gritavam da janela, desafiando os vizinhos; outros xingavam a mãe do deus Júlio, pois este era o deus responsável de haver justiça em cada partida, mas que justiça!
O deus Júlio trabalhava com semideuses, denominados Vares, auxiliares intermitentes que eram chamados somente nos momentos de alguma polêmica, para dizer se houve infração grave ou não durante as pelejas.
O deus maior do futebol era o deus Pifa, o deus da astúcia, tudo que ele tocava virava dinheiro. Pifa tinha um poder descomunal e todos os outros deuses tinham de se subjugar a ele.
No reino do futebol havia outro semideus, chamado de Peça, Peça de Reposição para ser mais exato, também chamado de jogador, que tinha a vida profissional guiada pelo deus Mercado, o deus das empresas, que decidia se um time ia ganhar, empatar ou perder, pois, a depender do resultado, o tio Betinho iria ganhar muito dinheiro.
O reino do futebol durou milênios, e o que se sabe era que quando acabava cada torneio o povo passava dias discutindo as controvérsias que ali aconteciam. Uns lamentavam pelas peças perdidas, outros ficavam cheios de figurinhas sem utilidade, que depois de um tempo eram jogadas fora; outros marcavam no calendário os espetáculos do próximo torneio para voltar aos momentos de deleite.
Naquele tempo mulher não podia liderar nada. A única alusão ao feminino era o nome Bia, o que gerava muita polêmica no reino da época.
Dizem que depois de milênios de muito domínio patriarcal, muitas mulheres invadiram o que restou no reino do futebol, dando um novo rumo àquela forma de viver em sociedade, em que predominava a vontade de deuses e semideuses.
Mas a gente não sabe para onde o destino levará o reino do futebol. O que se sabe, até o momento de encerramento desta narrativa, é que o reino do futebol virou mitologia e passou a ser registrado como fato da História.
Até a próxima!
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