
Nêgo Bispo, registrado civilmente como Antônio Bispo dos Santos, é artista, filósofo, quilombola e cidadão político brasileiro. Nascido no Piauí, foi um exímio tradutor, da oralidade para a escrita, do rico acervo cultural da sabedoria do povo do qual ele fazia parte.
Nêgo Bispo aprendeu as nuances da comunidade onde vivia, foi conhecer as idiossincrasias da sociedade brasileira submetida ao regime do capital, voltando à comunidade natal para organizar um modo singular de fazer filosofia e arte.
Tempos atrás Caetano Veloso nos provocava com as ideias contracolonialistas da canção Língua. No texto o poeta nos questionava com o verso:
“Está provado que só é possível filosofar em alemão”
Desta forma os artistas precisam, como Caetano, fazer arte filosofando.
Nêgo Bispo se insere justamente nesse lugar de subverter a arte filosofando, se apropriando da filosofia fazendo arte.
O texto de Nêgo Bispo trafega pelos caminhos da hibridização, combinando os diversos saberes ao articular discurso religioso com filosofia, saberes populares com ciência, tudo isto sob a mediação da arte.
Desta forma Nêgo Bispo filosofa em português, construindo um conjunto de categorias científico-filosóficas que se aproximam mais do pretuguês, concepção esta formalizada por Lélia Gonzalez, ou, quem sabe, em uma nova forma de língua que, por ainda não existir um nome adequado, eu chamaria de língua Afroindígena-europeia.
Afinal de contas, durante a vida, Nêgo Bispo construiu um conjunto de conceitos-chave para dar conta de expressar o identitário da comunidade de onde veio, ressignificando palavras como biointeração, saber orgânico, saber sintético, saber circular, saber linear, confluência, colonialismo, contracolonialismo, desenvolvimento e envolvimento, uma forma de pensar e expressar a língua tão singular e tão singular, sem perder, ao mesmo tempo, a perspectiva do universal.
Reconhece-se um pensador não pela imensidade de compêndios que ele produziu, mas pelo nível de profundidade com que tratou as coisas da vida em sociedade.
Nêgo Bispo está localizado no patamar dos grandes intelectuais que pensaram o Brasil como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Machado de Assis, Lélia Gonzalez, Milton Santos, Antonio Candido, Vilém Flusser, Álvaro Vieira Pinto, Josué de Castro, Paulo Freire, Lígia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Abdias do Nascimento, Graciliano Ramos, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Conceição Evaristo, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Lima Barreto, Florestan Fernandes, Betinho e tantos outros que a memória não recuperou neste momento.
Toda esta reflexão se instalou em mim depois da leitura de “A terra dá, a terra quer”, de Antônio Bispo dos Santos.
Em A terra dá, a terra quer, Nêgo Bispo nos convida à dúvida sobre os conhecimentos que construímos até agora sob a hegemonia das culturas europeias e estadunidense, dando novos significados a termos do uso cotidiano e, ao mesmo tempo, subvertendo os sentidos de determinados termos apropriados pelas culturas dos colonizadores.
A terra dá, a terra quer é um texto que nos arrebata e nos tira do sério, indo fundo em temas que há muito discutimos, mas utilizando as formalizações do pensamento colonizador a partir da língua do mesmo colonizador.
A terra dá, a terra quer é um convite ao filosofar, filosofar na perspectiva de um pensamento e uma linguagem contracolonialista.
Até a próxima!
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Dados da publicação O que é? A terra dá a terra tira [Livro] Quem escreveu? Antônio Bispo dos Santos [Nego Bispo] Quem ilustrou? Santídio Pereira Onde foi publicado? Ubu Quando foi publicado? 2023
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