
Na infância e na juventude a literatura para mim era algo diretamente relacionado ao prazer, ao encontro comigo mesmo por meio da fruição de poesias ou da procura da alegria nas singelas histórias contidas nas crônicas que eu tinha acesso por meio da leitura de livros didáticos.
Foi dentro da perspectiva da busca de prazer que entrei na educação superior para fazer o curso de Letras Vernáculas e lá me deparei com um novo mundo da literatura, que ia muito além do prazer: o mundo da crítica literária (ou análise literária, para alguns).
Assim fui aprendendo a ler textos literários: articulando razão e emoção na busca de compreender como as experiências estéticas de outros humanos eram capazes de mobilizar em mim a busca por construir sentidos próprios sobre a vida, podendo assim ressignificar novas experiências da arte de viver.
Foi com a crítica literária que pude entender o mundo a partir de uma nova perspectiva sem abandonar as impressões pueris que fui desenvolvendo durante a infância e a juventude.
Mas aconteceu algo mais interessante ainda, além de me aproximar da leitura voltada para a crítica literária, descobrir também que era possível fazer leituras mais amplas que iam além da leitura de textos literários e podia alcançar textos outros ligados à filosofia, à ciência, às religiões e ao universo criativo que alguns teóricos denominam de “senso comum”, ou seja, os textos criados por cidadãos que não estão diretamente vinculados aos universos religiosos, filosóficos ou científicos: isto aconteceu quando conheci um pouco da Linguística e passei a acolher e ler com respeito todas as formas de expressão textual.
Mas voltemos à literatura! Nos últimos dias despertou em mim voltar a ler textos de críticos literários, pois notei que me afastei bastante da literatura por motivo de ter de estudar com mais cuidado temas relacionados à sociedade-educação-tecnologias. Mergulhei tão profundamente nessas áreas do saber humano que fui diminuindo minha relação com o mundo da criação estética.
Foi deste despertar que voltei ao universo da análise literária, além, é claro, de voltar à leitura de textos literários. Nisto descobri a obra Como analisar literatura, de William Kenney.
Como analisar literatura é um texto de cunho pragmático que busca discutir pontos-chave do texto literário, centrando-se mais na análise de textos em prosa.
Em Como analisar literatura, Kenney explora temas como a escolha do assunto no construto da obra literária, bem como aborda conteúdos como estruturação do enredo, construção das personagens, arquitetura do cenário, demonstrando como um texto vai tomando forma estética a partir de um conjunto de atitudes que são necessárias para a realização do construto literário.
Kenney propõe uma forma peculiar de ler e analisar literatura ao discutir aspectos do processo de construção de pontos de vista e do estilo do autor-criador que vão dar forma à composição literária.
No final do livro o leitor ainda encontra um breviário em que William Kenney estabelece diferenças e pontos em comum entre as narrativas dos contos e as dos romances, meios de expressão estética ainda muito explorados nas obras literárias de início de milênio.
Kenney é conciso na escrita, mas consegue despertar no leitor a curiosidade sobre o fazer literário por meio de um estilo navegante entre a rapidez e a vagarosidade, demonstrando que pode-se comunicar muito sem desperdiçar o verbo.
Enquanto lia Como analisar literatura fui rememorando os tempos de universidade, momento em que aprendia a ampliar-me como leitor de texto literário.
Acho melhor deixar William Kenney falar por si próprio. Para isto, nas próximas linhas, reproduzimos alguns trechos do livro Como analisar literatura para que o leitor possa conhecer a contribuição do autor para o campo da criação literária.
…..
William Kenney por ele mesmo
A nossa posição é de que a literatura não é nem uma forma elegante de “ilustrar” ideias nem um jeito “irresponsável” de escaparmos da realidade. (…) a literatura é um modo pelo qual nós aumentamos a nossa capacidade de entendimento da realidade – e isso não se dá pela conquista de ideias abstratas. Como analisar literatura, p. 132-133
A ficção nos oferece um tipo de sabedoria que não vem a ser um mero resultado da experiência, e nenhum tipo de abstração filosófica ou científica: ela, ao encarnar um tema, nos oferece um saber vivo, que é experimentado na própria leitura. Como analisar literatura, p. 145
…..
Dados da obra
O que é? Como analisar literatura {livro impresso}
De que trata o livro? Análise literária
Quem escreveu? William Kenney
Quem editou? Eleia
De quando é? 2021
Quem é William Kenney? Ele nasceu em Boston, Estados Unidos. Foi professor de literatura inglesa durante as décadas de 1960 e 1990.
…..
Continuar lendo “Uma forma peculiar de ler e criticar literatura”










