
Desde criança que gosto de Geografia, mas não como profissão e sim como possibilidade de descoberta do mundo. Até o ensino médio me dediquei a estudar Geografia em termos de análise dos aspectos físicos de uma realidade. Assim, aprendi a analisar mapas para identificar clima e relevo de uma região, como também estudei como me movimentar em uma determinada localidade usando mapas.
Anos mais tarde conheci Josué de Castro[1] e descobri que um mapa também podia ser construído para conhecer e analisar a fome de um país.
Após me aproximar de Josué de Castro, tive contato com a obra de Milton Santos[2]. Foi nesse período que comecei a entender melhor como as relações de poder atravessam a questão do tempo-espaço, na forma como nós humanos criamos territórios.
Ao me debruçar sobre a obra de Milton Santos, não via somente um geógrafo, mas também um intelectual que discutia as coisas do mundo por meio do olhar geográfico. Foi com Milton Santos que tive a primeira noção do que era um objeto geográfico e como esse objeto servia de base para estudos aprofundados sobre a convivência dos humanos na Terra.
Mas o que me manteve mais próximo das ideias deste pensador baiano foi justamente o debate levantado por ele sobre a questão da técnica.
Milton Santos refletiu sobre a questão da técnica durante a quarta parte do século XX, inserindo no debate as noções de objetos, sistemas e ações como caracterizações do modo de existência das tecnologias.
E acrescentou às noções de objetos, sistemas e ações a ideia de meio técnico-científico-informacional como elemento que dá alicerce às formas como nós humanos interagimos com o meio natural para transformá-lo em meio cultural; ou seja, espaço-tempo de concordâncias e disputas que vai originar o mundo ao qual estamos convivendo: mundo globalizado, onde as relações de forças são construídas, por meio de transformações dos territórios em espaços permanentes de disputas, acordos, confrontos e associações, uma forma de relação política que marcou o final do século XX e vem se consolidando no início do século XXI.
Outra coisa que me atraiu no pensamento de Milton Santos foi a preocupação que o geógrafo teve com a autonomia e a formação do humano como intelectual que observa o mundo e pode criar possibilidades de outras formas de concebermos a vida cotidiana,
Este é um ano especial para o geógrafo brasileiro, pois se estivesse vivo, Milton Santos completaria 100 anos.
Até a próxima!
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Info+
1. Josué de Castro foi pensador brasileiro que estudou a questão da insegurança alimentar no Brasil e um dos pesquisadores precursores na atividade de mapeamento da fome no país. Ele nasceu em Recife, Pernambuco em 1908 e faleceu em Paris, França, em 1973.
2. Milton Santos, intelectual brasileiro, nascido em 3 de maio de 1926, falecido em 24 de junho de 2001, que se dedicou aos estudos da Geografia.
Pensar faz bem com Milton Santos [especial]
Sobre a técnica:
As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais com os quais o homem realiza a sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço.
A natureza do espaço, p. 29
Sobre o pensar científico:
A idéia da metadisciplina é a seguinte: existem várias disciplinas, a geografia, a sociologia, a antropologia, a economia. Cada disciplina possui um módulo que a identifica e a distingue das demais. O que faz com que uma disciplina se relacione com as demais é o mundo, o mesmo mundo que, no seu movimento, faz com que a minha disciplina se transforme... Todas as disciplinas têm sua relação com o mundo. Quando no processo de informá-la, colocamos o mundo dentro de uma disciplina, e dele fazemos a inspiração mãe, temos a metadisciplina.
Por isso, o mundo é que permite que se estabeleça um discurso inteligível, um canal de comunicação entre as disciplinas. A interdisciplinaridade não é algo que diga respeito às disciplinas, mas à metadisciplina. Uma geografia, uma sociologia, uma economia, uma antropologia que não tenham o mundo como inspiração na produção própria de conceitos, não se prestam a nenhum trabalho interdisciplinar. Este não é o resultado de trabalhar juntos, mas da possibilidade de um discurso intercambiável, com a fertilização mútua dos conceitos que, apesar dos jargões respectivos, não serão impenetráveis.
(...)
Eu chamaria de metadisciplina a vontade de filosofar nas disciplinas particulares.
Milton Santos em: Território e sociedade: entrevista com Milton Santos, p. 49-50
Sobre o mundo:
Todavia, podemos pensar na construção de um outro mundo, mediante uma globalização mais humana. As bases materiais do período atual são, entre outras, a unicidade da técnica, a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta. É nessas bases técnicas que o grande capital se apoia para construir a globalização perversa de que falamos anteriormente. Mas, essas mesmas bases técnicas poderão servir a outros objetivos, se forem postas a serviço de outros fundamentos sociais e políticos. Parece que as condições históricas do fim do século XX apontavam para esta última possibilidade. Tais novas condições tanto se dão no plano empírico quanto no plano teórico.
Por uma outra globalização [livro eletrônico], posição 331
Sobre a intelectualidade:
Eu queria dizer em primeiro lugar que me considero um intelectual outsider, coisa que é rara no Brasil. Não pertenço a nenhum partido, não pertenço a nenhum grupo, inclusive grupo de intelectuais, não respondo a nenhum credo, não participo de qualquer militância.
Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá [documentário], 2006, posição mm: 4:54-5:24 min
Sobre a midiatização:
Se antes a natureza podia criar o medo, hoje é o medo que cria uma natureza midiática e falsa, uma parte da Natureza sendo apresentada como se fosse o todo.
Técnica, espaço, tempo, p. 21
Contato imediato com Milton Santos:
Vídeo:
. Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá [documentário], 2006, direção de Silvio Tendler
Livros:
. Território e sociedade: entrevista com Milton Santos. Entrevistadores: Odette Seabra, Mônica de Carvalho e José Corrêa Leite. Disponível em https://fpabramo.org.br/wp-content/uploads/2025/12/17-Territorio-e-sociedade.pdf
. A natureza do espaço: técnica, tempo, razão e emoção
. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal
. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional
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