Nêgo Bispo por ele mesmo

Nêgo Bispo por ele mesmo
Nêgo Bispo por ele mesmo

Em post recente, postamos texto sobre Nêgo Bispo. Para esta semana, trazemos aqui mais um pouco do pensamento do pensador quilombola.

Boa leitura!

Há pessoas que são necessárias e há pessoas que são importantes. As pessoas que são importantes acham que as outras pessoas existem para servi-las. As pessoas necessárias são diferentes, são pessoas que fazem falta. Pessoas que precisam estar presentes, de quem se vai atrás. 

A terra dá, a terra quer, p. 24

O estado é um ambiente colonialista, um ambiente colonialista e abstrato.
(…)
Qualquer governo que governar este Estado será um governo colonialista, porque o estado é colonialista.
(…)
Ser colonialista é como adestrar bois.
Qualquer governo de um Estado colonialista, será um governo colonialista. É preciso contracolonizar a estrutura organizativa.

A terra dá, a terra quer, p. 74

A comida para nós tem uma parte necessária, nunca lidamos com ela de maneira mesquinha. Às vezes, quando chegamos em alguns apartamentos do povo eurocristão, monoteísta, percebemos que a comida é tratada como uma coisa proibida. Chegam até esconder a comida das visitas! “Ele vem só para comer, parece que vive morto de fome, que não come em casa ou que não sabe que o custo de vida está alto!” Já para nós, é justamente o contrário: “Ele veio e nem comeu? Eu fiz uma galinha e ele não aceitou?” É uma desfeita se a pessoa vem à nossa casa e não aceita a nossa comida.

A terra dá, a terra quer, p. 64

“Durante idas e vindas do Rio de janeiro para o Piauí, Nêgo Bispo conhece dona Edileuza:
– A água quando bate na areia, a areia absorve; a água quando bate na pedra, a água volta; eu sou água e você, é areia ou a pedra? – perguntou Nêgo Bispo.
– Eu sou areia! – respondeu dona Edileuza”

Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, em Na gira do tempo, na revista Cult, edição 331, julho/2026, p. 10

Até a próxima!

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Dez ações cidadãs para o 2° turno das eleições brasileiras

Ações cidadãs
Ações cidadãs

Olá, leitor-eleitor

O segundo turno das eleições presidenciais do Brasil está próximo. O EPraxe participa deste momento significativo para a sociedade brasileira, apresentando possíveis ações para uma convivência cidadã:

Ações para uma convivência cidadã

  1. Usar discurso respeitoso, tratando as pessoas com civilidade, evitando termos ofensivos como “esquerdista”, “fascista”, “pobre de direita” ou atitudes de cancelamentos, discriminações, preconceitos etc.
  2. Conhecer as propostas dos candidatos:
    Proposta do PL
    Proposta do PT
    
  3. Informar e se informar: evitar produzir e propagar desinformação
  4. Pesquisar a história de vida do candidato, observando se ele tem se dedicado ao bem comum
  5. Analisar a evolução patrimonial do candidato, observando se não há alguma irregularidade na riqueza construída pelo político
  6. Verificar se o candidato tem compromisso com pautas sociais em vez de fazer pedidos de interesses particulares
  7. Respeitar as pessoas que têm opiniões diferentes da nossa; eis uma forma de cultivar a democracia!
  8. Não se apaixonar pelo candidato, pois ele é gente de carne e osso, com virtudes e defeitos
  9. Em vez de antipatia e simpatia, desenvolver a empatia com os candidatos, procurando conhecê-los como eles realmente são
  10. Votar, votar, votar…

Boa eleição!

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A filosofia de Antônio Bispo dos Santos

Nêgo Bispo
Nêgo Bispo

Nêgo Bispo, registrado civilmente como Antônio Bispo dos Santos, é artista, filósofo, quilombola e cidadão político brasileiro. Nascido no Piauí, foi um exímio tradutor, da oralidade para a escrita, do rico acervo cultural da sabedoria do povo do qual ele fazia parte.

Nêgo Bispo aprendeu as nuances da comunidade onde vivia, foi conhecer as idiossincrasias da sociedade brasileira submetida ao regime do capital, voltando à comunidade natal para organizar um modo singular de fazer filosofia e arte.

Tempos atrás Caetano Veloso nos provocava com as ideias contracolonialistas da canção Língua. No texto o poeta nos questionava  com  o verso: 

“Está provado que só é possível filosofar em alemão”

Desta forma os artistas precisam, como Caetano, fazer arte filosofando.

Nêgo Bispo se insere justamente nesse lugar de subverter a arte filosofando, se apropriando da filosofia fazendo arte.

O texto de Nêgo Bispo trafega pelos caminhos da hibridização, combinando os diversos saberes ao articular discurso religioso com filosofia, saberes populares com ciência, tudo isto sob a mediação da arte.

Desta forma Nêgo Bispo filosofa em português, construindo um conjunto de categorias científico-filosóficas que se aproximam mais do pretuguês, concepção esta formalizada por Lélia Gonzalez, ou, quem sabe, em uma nova forma de língua que, por ainda não existir um nome adequado, eu chamaria de língua Afroindígena-europeia.

Afinal de contas, durante a vida, Nêgo Bispo construiu um conjunto de conceitos-chave para dar conta de expressar o identitário da comunidade de onde veio, ressignificando palavras como biointeração, saber orgânico, saber sintético, saber circular, saber linear, confluência, colonialismo, contracolonialismo, desenvolvimento e envolvimento, uma forma de pensar e expressar a língua tão singular e tão singular, sem perder, ao mesmo tempo, a perspectiva do universal.

Reconhece-se um pensador não pela imensidade de compêndios que ele produziu, mas pelo nível de profundidade com que tratou as coisas da vida em sociedade.

Nêgo Bispo está localizado no patamar dos grandes intelectuais que pensaram o Brasil como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Machado de Assis, Lélia Gonzalez, Milton Santos, Antonio Candido, Vilém Flusser, Álvaro Vieira Pinto, Josué de Castro, Paulo Freire, Lígia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Abdias do Nascimento, Graciliano Ramos, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Conceição Evaristo, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Lima Barreto, Florestan Fernandes, Betinho e tantos outros que a memória não recuperou neste momento.

Toda esta reflexão se instalou em mim depois da leitura de “A terra dá, a terra quer”, de Antônio Bispo dos Santos.

Em A terra dá, a terra quer, Nêgo Bispo nos convida à dúvida sobre os conhecimentos que construímos até agora sob a hegemonia das culturas europeias e estadunidense, dando novos significados a termos do uso cotidiano e, ao mesmo tempo, subvertendo os sentidos de determinados termos apropriados pelas culturas dos colonizadores.

A terra dá, a terra quer é um texto que nos arrebata e nos tira do sério, indo fundo em temas que há muito discutimos, mas utilizando as formalizações do pensamento colonizador a partir da língua do mesmo colonizador.

A terra dá, a terra quer é um convite ao filosofar, filosofar na perspectiva de um pensamento e uma linguagem contracolonialista.

Até a próxima!

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Dados da publicação
O que é? A terra dá a terra tira [Livro]
Quem escreveu? Antônio Bispo dos Santos [Nego Bispo]
Quem ilustrou? Santídio Pereira
Onde foi publicado? Ubu
Quando foi publicado? 2023

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A mitologia do futebol

A mitologia do futebol
A mitologia do futebol

Dizem os antigos que em tempos longínquos havia o reino do futebol, um lugar suntuoso onde moravam entidades divinas de um lado, chamado de céu, e o povo do outro, chamado de desterro.

De tempos em tempos eram realizados grandes torneios em que era possível o povo, que vivia na periferia, participar do encontro, assistindo aos espetáculos, consumindo muita bebida alcoólica e praticando jogos de azar.

As divindades, que vamos chamar de deusas, tinham nomes bem peculiares e eram idolatradas por todos. Assim havia o deus Visio que era responsável por criar umas janelas para que os espectadores assistissem aos jogos. Muito vaidoso, o deus Visio não permitia que ninguém mais realizasse a tarefa de visualização dos jogos, mas um dia surgiu o deus Zé, também muito vaidoso, que sabia construir janelas maiores e com melhor visibilidade para o que estava acontecendo no campo de futebol. Isto criou uma grande inimizade entre os deuses, o que resultou em uma guerra santa sem precedentes entre as entidades, mas esta guerra poderá ser contada em outra ocasião.

Um outro deus muito querido era o deus Betinho, que regia o dinheiro do povo em apostas nos jogos de azar. Betinho distribuía dinheiro, como faz um agiota, e depois retirava tudo o que o cidadão possuía, deixando as pessoas loucas e mais pobres.

O deus Bia era um dos mais venerados, pois era o responsável por fornecer bebidas alcoólicas durante as partidas. No final de cada partida era gente bêbada por todos os lados: uns batiam nas esposas ou namoradas, caso o time do coração perdesse; outros gritavam da janela, desafiando os vizinhos; outros xingavam a mãe do deus Júlio, pois este era o deus responsável de haver justiça em cada partida, mas que justiça! 

O deus Júlio trabalhava com semideuses, denominados Vares, auxiliares intermitentes que eram chamados somente nos momentos de alguma polêmica, para dizer se houve infração grave ou não durante as pelejas. 

O deus maior do futebol era o deus Pifa, o deus da astúcia, tudo que ele tocava virava dinheiro. Pifa tinha um poder descomunal e todos os outros deuses tinham de se subjugar a ele.

No reino do futebol havia outro semideus, chamado de Peça, Peça de Reposição para ser mais exato, também chamado de jogador, que tinha a vida profissional guiada pelo deus Mercado, o deus das empresas, que decidia se um time ia ganhar, empatar ou perder, pois, a depender do resultado, o tio Betinho iria ganhar muito dinheiro.

O reino do futebol durou milênios, e o que se sabe era que quando acabava cada torneio o povo passava dias discutindo as controvérsias que ali aconteciam. Uns lamentavam pelas peças perdidas, outros ficavam cheios de figurinhas sem utilidade, que depois de um tempo eram jogadas fora; outros marcavam no calendário os espetáculos do próximo torneio para voltar aos momentos de deleite.

Naquele tempo mulher não podia liderar nada. A única alusão ao feminino era o nome Bia, o que gerava muita polêmica no reino da época.

Dizem que depois de milênios de muito domínio patriarcal, muitas mulheres invadiram o que restou no reino do futebol, dando um novo rumo àquela forma de viver em sociedade, em que predominava a vontade de deuses e semideuses.

Mas a gente não sabe para onde o destino levará o reino do futebol. O que se sabe, até o momento de encerramento desta narrativa, é que o reino do futebol virou mitologia e passou a ser registrado como fato da História.

Até a próxima!

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A complexidade da inteligência

A complexidade da inteligência humana
A complexidade da inteligência humana

Em tempos que só se discute inteligência artificial, é preciso discutir a inteligência humana Cleonilton Souza

Tive contato com o livro A inteligência da complexidade, de Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne, no início dos anos 2000. Na época eu precisava estudar filosofia em Educação, e a discussão sobre pensamento de Edgar Morin era pertinente para debater a formação de profissionais de educação.

A leitura foi espaçada: um capítulo hoje, um trecho de interesse amanhã. E assim o livro foi ficando na prateleira por mais de 20 anos me esperando para reiniciarmos o diálogo científico-filosófico.

Chegamos a 2026 envoltos em debates recorrentes sobre tecnologias de inteligência artificial em que o processamento computacional se torna cada vez mais evidente em relação ao debate sobre a inteligência humana.

Até a primeira metade do século XX, a palavra inteligência quase não necessitava de um termo gramatical complementar, pois era possível pensar inicialmente em inteligência como inteligência humana. Hoje a palavra inteligência se bifurca e exige dois complementos: inteligência humana e inteligência artificial. São duas racionalidades que coexistem e ressignificam os valores atribuídos ao termo inteligência.

Foi em meio a estas duas racionalidades que senti que era necessário me debruçar sobre a inteligência humana, o que levou à revisitação do pensamento de Edgar Morin sobre o assunto.

Voltei à estante de casa então para novos diálogos com Edgar Morin. Foi assim que folheei livros  como  Ciência com consciência, Ética, A cabeça bem-feita e, claro, A inteligência da complexidade.

Em A inteligência da complexidade, Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne trafegam por uma compreensão diferente do mundo em relação à visão tradicionalmente conhecida dos postulados de visões embasadas na perspectiva positivista de fazer ciência, em  que o mundo é concebido por meio das ideias de ordem, separação e razão com mais proeminência.

Na concepção de um mundo formado de fenômenos complexos, a posição da ciência assume outros modos de interagir com o mundo. Disto resulta o que os autores denominam pensamento da complexidade, cujos pilares são construídos a partir dos princípios dialógico, de união de noções antagônicas e indissociáveis, de recursão em que produtos e efeitos são, ao mesmo tempo, produtores e causadores daquilo que é produzido, e hologramático, em que o todo está na parte, e a parte está no todo. Dada a densidade do assunto, sugiro que o leitor vá direto à fonte para interagir melhor com a questão.

Em tempos de pensamento único, de supervalorização da racionalidade, em que o pensamento lógico-matemático fica cada vez mais evidente quando se discute o destino de uma humanidade envolta por uma multiplicidade de tecnologias computacionais, em especial, tecnologias de inteligência artificial, debater questões como a incerteza, as contradições, torna-se fundamental. E as contribuições de Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne sobre o assunto se convertem como relevantes para os modos de vida que estamos construindo durante o século XXI.

Quanto ao processo de releitura, estou me revigorando com os textos de Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne. Só que agora com uma leitura mais aprofundada em relação às leituras parciais que fui realizando nos últimos 20 anos.

Até a próxima!

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Leia+ sobre Edgar Morin

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A praça não é mais do povo e nem o céu é dos pássaros

A praça não é mais do povo e nem o céu é dos pássaros
A praça não é mais do povo e nem o céu é dos pássaros

A poesia refinada de Caetano Veloso nos anos 1980 e 1990, expressa nos versos “A praça Castro Alves é do povo – Como o céu é do avião”, foi um convite para que os brasileiros ressignificassem o sentido de utilização da praça como um bem público disponível para o povo.

Moraes Moreira também mobilizou o povo a ocupar a praça pública em versos como “Nossa dor, meu amor, é que balança – Nossa dor o chão da praça”, reafirmando a praça como espaço público de festa e de alegria.

Concomitante a essas vozes de tom poético, outras forças políticas começaram a tomar conta do espaço público das praças e de outros logradouros os transformando em propriedades privadas. 

Como exemplo, a administração municipal de Salvador instalou cercas nas praças públicas, para que as pessoas em situação de vulnerabilidade social não dormissem mais naqueles lugares, instaurando a prática de trancar os logradouros públicos à noite e só os abrir durante o dia. Parece absurdo que isto tenha acontecido, mas aconteceu.

Uma outra prática para afastar a população dos logradouros públicos foi derrubar todas as barracas da orla marítima de Salvador, afastando dali os comerciantes pobres daquele lugar.

Se nas décadas de 1980 e 1990 as praias de Salvador eram cheias de gente do povo, aos poucos, nas décadas seguintes, os espaços na beira-mar da capital soteropolitana foram cedendo lugar a vazios estratégicos durante o final de semana, ocasionados pela poluição crescente que toma conta das grandes cidades e afeta toda a orla marítima também. Junto com a retirada das barracas que vendiam produtos a preços populares, impera hoje a presença de grandes empreendimentos, que, sob a forma de comodatos, administram a orla da primeira capital do país.

Voltando às praças públicas, um novo movimento iniciado pelo Estado municipal tem acontecido com recorrência: o de reformar praças e as transformar em espaços comerciais, inserindo nas áreas livres equipamentos de propriedade de entes privados. Ou seja, em vez de praças habitadas de plantas de toda espécie, estruturas concretas são levantadas.

Assim, em vez de bancos para as pessoas poderem se sentar, as administrações municipais criam quiosques para comerciantes venderem produtos a preços exorbitantes; em vez de espaços abertos para as crianças correrem, as administrações municipais preenchem os referidos espaços com cadeiras, que pertencem aos comerciantes, restringindo cada vez mais a possibilidade de a gente do povo ocupar os espaços que antes eram públicos.

São os novos tempos, em que versos como os de Caetano Veloso e Moraes Moreira perdem espaço para discursos em forma de decretos, leis e resoluções que impõem novos modos de ocupação do que antes era público.

Desta forma, a praça já não é mais do povo nem o céu é dos pássaros. Só ficaram os aviões a perambular nos céus, enquanto as armações de concreto invadem as praças, usurpando o que antes era do povo.

É bom frisar que deveríamos escrever aqui simplesmente a palavra “logradouro” e não “logradouro público”, que é uma redundância! Mas a apropriação do que é público é tamanha que a redundância se torna necessária como forma de afirmação de pertencimento a algo que seja acessível a todos.

Até a próxima!

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A arte de cultivar memórias

A arte de cultivar memmórias
A arte de cultivar memórias

Uma das coisas mais significativas que podemos fazer é cultivar nossas memórias, para ter a oportunidade de visitar o que fizemos da nossa vida, reconhecer nossas limitações e refletir sobre as possibilidades de melhoria para o futuro. Cultivar a memória é uma arte!

Machado de Assis era um expert em cultivar memórias. O escritor carioca construiu obras literárias lapidares sobre a nossa capacidade de rever as memórias em textos como Dom Casmurro, em que um personagem masculino, com toda a carga social do patriarcado do século XIX, constrói a própria memória, olhando para o relacionamento afetivo que tivera durante a existência aqui na Terra. Outro texto em que as memórias são evidenciadas é Memórias póstumas de Brás Cubas, que resgata a trajetória memorialista de um morto. Finalmente Memorial de Aires, em que, de forma mais explícita, um homem busca no passado entender a própria existência.

Mas o resgate de memórias não precisa estar necessariamente vinculado os textos literários. Nós, reles leitores de textos literários (e não-literários), também podemos resgatar alguns momentos do passado e trazê-los para refletir sobre o presente e pensar como vamos construir o futuro, transformando o cultivar da memória em um tipo de arte que não é literária, mas sim Arte de Aprender a Viver.

Foi por meio destas reflexões que resolvi trazer para o leitor um pouco de minhas memórias de escritas, que não estão publicadas aqui no EPraxe. Na página Na Memória, o leitor terá acesso aos escritos que realizei no período de 2019 a 2026, onde pude registrar o que fui aprendendo enquanto estudava no doutorado e pós-doutorado.

O registro de memórias não se esgota aqui. É uma construção cotidiana. Há outros aspectos que poderíamos ter registrado aqui, mas que, por enquanto, estão sublimados.

Aproveite, leitor, e registre suas próprias memórias. Até a próxima!

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Dados das Memórias
O que é? Na Memória [Memorial de Escrita]
De quando é? De 2019 a 2026
Do que se trata? Textos acadêmicos e literários
Como posso ter acesso? Na Memória

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Para melhor conhecer Inteligência artificial – parte 2

Como a inteligência artificial funciona
Como a inteligência artificial funciona

Se no livro Introdução à inteligência artificial: uma abordagem não técnica, de Tom Taulli, encontramos uma leitura que nos apresenta a inteligência artificial de forma leve, sem perder o rigor, por meio de exemplos de usos dessas tecnologias na vida cotidiana, Ronald Kneusel escreve o livro Como a inteligência artificial funciona: da magia à ciência de um jeito mais técnico, mas sem se afastar muito dos leitores que são de áreas externas aos saberes da ciência da computação.

Como a inteligência artificial funciona: da magia à ciência é um texto mais denso sobre as especificidades técnicas da IA e tem por objetivo ajudar o leitor a não ficar patinando em pensamentos mágicos sobre inteligência artificial ao nos oferecer informações pertinentes que apesar de já maturadas no mundo das tecnologias, ainda podem ser mal compreendidas pelo segmento da sociedade que não detém conhecimento técnico sobre essa área do saber humano.

Como a inteligência artificial funciona: da magia à ciência traz inicialmente uma visão geral da IA, a fim de situar o leitor sobre como foi o processo de construção técnico da IA. Prossegue discutindo as especificidades de machine learning,  redes neurais, redes neurais convolucionais até chegar ao debate sobre IA generativa.

A leitura do capítulo 7, “Large Language Models: finalmente a IA verdadeira?”, é muito bem fundamentada, com exemplos de análises bem didáticos a fim de facilitar o entendimento do assunto. 

Há um capítulo que trata das consequências dos usos da  IA na vida em sociedade, em que Ronald Kneusel, a partir de experimentações feitas que vivenciou com os estudos e aplicações de inteligência artificial, traz um conjunto de possibilidades sobre como poderá ser o mundo do trabalho num futuro próximo em relação à convivência dos humanos com objetos, sistemas e ambientes mediados por tecnologias de IA.

Pois é, já dizia um velho ditado: “nem tudo são flores”, quer dizer, não é porque fiz esta resenha abordando mais aspectos positivos do livro que o leitor venha a se descuidar e faça uma leitura apressada, sem ampliar o senso crítico sobre o assunto, sabendo identificar o real significado dessas tecnologias em nossa vida. Por exemplo, o capítulo com consequências dos usos da IA, brevemente descrito no parágrafo anterior,  é um ensaio de predições feitas pelo autor, e como composição preditiva, muito do que Kneusel prevê ali pode não acontecer ou até tomar rumos diferentes do que ele previu, mas isto não invalida todo o trabalho feito na obra para trazer para o leitor pertinentes esclarecimentos sobre as especificidades das tecnologias de inteligência artificial.

No final, o livro traz um pequeno glossário sobre o mundo da IA e ainda oferece ao leitor um capítulo extra denominado “Recursos”, contendo indicações de leituras (livros (do básico ao avançado) e recursos on-line) para quem deseja se aprofundar no assunto.

O glossário do livro poderia ser construído de maneira a facilitar o entendimento dos assuntos contidos nos capítulos anteriores do texto, mas se converte em um material mais apropriado para o pessoal da área técnica, que deseja se aprofundar em um assunto específico da área de IA.

Como a inteligência artificial funciona: da magia à ciência não é de fácil leitura, mas vale muito a pena mergulhar na empreitada de descortinar o real funcionamento das tecnologias de IA.

O que o leitor está esperando? Já terminou de ler o livro Introdução à inteligência artificial: uma abordagem não técnica, resenhado aqui na semana passada? Quando vai ler Como a inteligência artificial funciona: da magia à ciência? Se você deseja construir conhecimento teórico sobre IA, os dois livros resenhados aqui são de grande valia para aprender mais sobre o mundo das tecnologias de inteligência artificial.

Até a próxima!

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Para melhor conhecer Inteligência artificial

Inteligência Artificial - abordagem não técnica
Inteligência Artificial – abordagem não técnica

Inteligência artificial se transformou em uma das pautas mais discutidas quando se pensa sobre os rumos da sociedade do século XXI em diante, o que torna recomendável buscar informações sobre esse assunto que se tornou central nos debates cotidianos.

Com a quantidade de informações sobre o tema, profissionais em geral convivem com o dilema do usar ou não usar essas tecnologias em meio a olhares de assombro, de dúvida e de medo, misturados a um fascínio que incita nas pessoas aquela vontade de começar consumir  o máximo que esse tipo de tecnologia oferece.

Nesse emaranhado de informações sobre IA, está o livro Introdução à inteligência artificial: uma abordagem não técnica, de Tom Taulli, que tem como proposta discutir questões essenciais sobre IA, por meio de uma linguagem acessível às pessoas que não são profissionais das áreas ligadas às tecnologias.

O livro Introdução à inteligência artificial: uma abordagem não técnica não foi escrito somente em uma linguagem compreensível para os leitores não técnicos; na verdade trata-se de uma abordagem multidisciplinar sobre o assunto, que não rejeita a face técnica da inteligência artificial e insere o assunto como central para compreensão do contexto de convivência em um mundo mediado por tecnologias computacionais.

Taulli navega com o leitor discutindo,  inicialmente, os fundamentos e a história da IA, avança pelo tema dos dados, até mergulhar em assuntos mais densos como machine learning, deep learning, processamento de linguagem natural e robótica, temas estes de interesse de estudiosos de áreas ligadas à ciência da computação.

Na obra o autor traz um conjunto de exemplos sobre implantação de IA nas instituições, demonstrando como seria possível haver novas iniciativas de utilização das referidas tecnologias em diversos contextos de interação socioeconômica.

No capítulo Futuro da IA, Taulli aborda assuntos relacionados às possibilidades de construção de objetos, sistemas e ambientes de IA, buscando apresentar os prós e os contra de cada exemplo apresentado.

Há um apêndice denominado Recursos de IA, que traz referências sobre o assunto em fontes como publicações de blogs especializados, endereços eletrônicos de pesquisadores da área, exemplos de iniciativas em código aberto e em educação voltados para o mundo da IA. No último capítulo do livro é apresentado um glossário com termos sobre IA e áreas correlatas ao tema.

O texto de Taulli foi originalmente escrito (em inglês) em 2019, o que demonstra que a discussão sobre inteligência artificial não é tão recente assim, e o que para muita gente ainda é novidade, já fazia parte da realidade mundial no período pré-Covid-19.

A abordagem de Taulli é compatível com o que estamos vivendo nesta terceira década do século XXI, e o destaque do livro é ter sido construído em uma linguagem não técnica, sem perder o rigor conceitual necessário à compreensão dos meios técnicos e informacionais que dão suporte ao entendimento do que seja inteligência artificial.

Até a próxima!

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Salve os mestres de capoeira da Bahia

Mestres de capoeira da Bahia
Mestres de capoeira da Bahia

José Gabriel, Antônio Conceição, Vicente Pereira, Manoel dos Reis, Waldemar Rodrigues, Washington Bruno e Daniel Coutinho são alguns dos grandes mestres de capoeira da Bahia no século passado. Eles são reconhecidos, respectivamente, como mestres Gato Preto, Caiçara, Pastinha, Bimba, Besouro, Waldemar, Canjiquinha e Noronha.

O mundo da capoeira foi um dos territórios criados pelos afrodescendentes durante o período da escravização e até hoje, juntamente com as casas religiosas de matrizes africanas e os quilombos, elementos culturais  demarcadores da identidade negra no Brasil.

A capoeira foi inicialmente reprimida pelos senhores escravocratas nas senzalas; continuou sendo reprimida pela polícia, agência do Estado que era utilizada para não permitir a expressão dos filhos da África, mas a capoeira resistiu e se instaurou como uma proeminente característica da cultura brasileira que acolhia negros, brancos, indígenas pobres e demais interessados.

Se o leitor algum dia passar nas proximidades do Mercado Modelo, em Salvador, Bahia, poderá se deslumbrar com as estátuas desses grandes personagens da capoeira da Bahia e saber um pouco sobre a história de cada um deles. As histórias individuais desses personagens históricos se entrelaçam, criando assim um arcabouço coletivo de uma parte da história da Bahia, e também do Brasil. 

Até a próxima!

Mestres de capoeira
Mestres de capoeira – Praça Maria Felipa, Salvador, Bahia

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Pensar faz bem com Edgar Morin

Edgar Morin – Bases Filosófico-Científicas

François Ewald: Quais as grandes referências intelectuais que o senhor nos dá? Em que tradição intelectual o senhor gosta de se colocar?

Edgar Morin: De um lado, considero-me inscrito no tecido cultural francês e europeu, e de outro, um pouco como um aerólito. Não estamos jamais certos, mesmo quando denominamos Nietzsche um puro aerólito. Meu âmago cultural é primeiramente Heráclito, porque Heráclito afronta de maneira absolutamente marginal as contradições com a vontade de vê-las de frente: é também Montaigne, o Montaigne da análise de si misturada com análise do mundo que o cerca, o elo entre a autocrítica e a crítica, essa espécie de energia crítica que faz com que ele não admita nada a priori; é mais profundamente Pascoal, porque Pascoal une ceticismo de Montaigne, a racionalidade científica e a mística; é o Pascoal do homem situado entre dois infinitos mistura de loucura e de sabedoria; é ainda Hegel, porque Hegel é um espírito que quis afrontar as contradições dizendo que o espírito deve olhar a morte em si; olhar a morte, e por que existe nele a ideia positiva da negatividade; é enfim Marx, agora muito provincializado, mas que permanece inscrito nesta constelação. Tal o é horizonte intelectual no seio do qual me sinto muito bem, que tenho tomado muitas coisas para outros pensamentos. Aerólito, não me inscrevo numa tradição única, uno as influências aparentemente antagônicas.

Edgar Morin em: Complexidade, consciência e incerto, diálogo com François Ewald, p. 162-171, em Inteligência da complexidade,  p. 165.

Até a  próxima!

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Francis Bacon e A sabedoria dos antigos

Francis Bacon e A sabedoria dos antigos
Francis Bacon e A sabedoria dos antigos

Amor-próprio, fama, filosofia, desejo, medo e volúpia são alguns dos temas discutidos por Francis Bacon, a partir da interpretação de histórias mitológicas no livro A sabedoria dos antigos.

Por meio de uma narrativa prazerosa, Bacon vai nos guiando por narrativas com protagonistas como Cassandra, Narciso e Orfeu, demonstrando como as histórias desses personagens povoam o imaginário da humanidade.

A sabedoria dos antigos é estruturada com uma alegoria mitológica no início de cada capítulo, seguida de uma breve, mas não superficial, explicação interpretativa de como a narrativa ficcional constrói formas de a gente perceber o mundo em nossa volta, cercado de harmonias e contradições e povoado de racionalidades e sentimentos, expelindo o que há de humano em nós.

Em A sabedoria dos antigos, Francis Bacon trafega com muita destreza nos caminhos das figurações, expressando uma veia poética sem igual e, ao mesmo tempo, elabora um construto temático rico para discussão de assuntos tão diversos da existência humana.

Se o leitor acha filosofia algo difícil de se vivenciar, comece a navegar nesse universo da criação humana por meio de A sabedoria dos antigos, pois lá você vai se encontrar com o prazer da expressão estética, acompanhada de uma reflexão filosófica consistente.

Descobri os textos de Francis Bacon quando estava pesquisando o gênero discursivo Ensaio, uma forma de expressão singular que é habitada por movimentos entre regularidades e irregularidades no processo de escrita. É assim que a gente aprende: de estudos sobre linguagem fui jogado no mundo da Filosofia e agora não sei aonde vou parar.

Até a próxima!

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