Uma tarde na pandemia

Uma tarde na pandemia
Uma tarde na pandemia

Era mais uma tarde de pandemia. Estávamos em casa vendo TV, quando o burburinho começou no prédio em frente ao nosso. Olhei da varanda. Parecia que era um ladrão que furtara algo de algum condômino.

Voltei para TV, mas a zoada aumentava cada vez mais. “Pega ele, pega ele!”, “ É esse aí mesmo”. “Segura, segura”. Voltei à varanda e percebi que a polícia havia chegado. Fechei novamente a janela e me concentrei na TV.

Minutos depois, as pessoas começaram a aplaudir, e minha filha também aplaudiu fervorosamente da janela do quarto. Eu cá com meus preconceitos fiquei triste em saber que as pessoas batem palmas para os casos de prisão. Aquilo era muito triste e incômodo para bater palmas.

Minha filha saiu para beber água. Foi quando perguntei o porquê daquele alvoroço, ao qual ela me respondeu que, na verdade, era a prisão de um homem que estava batendo em uma mulher. 

Fiquei perplexo comigo, pois, naquele momento, a individualidade havia me sucumbido. A indiferença havia dominado a empatia e eu não me importava mais com o que acontecia ao redor.

Lembro que no tempo de criança via e ouvia muita mulher apanhar do marido. Era muito corriqueiro aquilo. As pessoas saiam nas janelas e não diziam nada. Era uma realidade muito dura. Hoje a gente ainda presencia esse ritual do homem em barbárie; em barbárie consigo próprio e em barbárie com a humanidade.

Quando a mulher começava a apanhar, uns vizinhos fechavam as janelas e aumentavam o som do rádio; algumas crianças iam para frente da casa, olhavam para a cena e corriam para longe dali; alguns vizinhos saiam de casa para o bar e passavam pela porta da mulher que apanhava e não olhavam para lá. Mulher apanhar era um fato comum. Havia até dito popular inibidor, que tirava a responsabilidade da sociedade sobre aquela situação social tão peculiar.

Fui de novo à varanda e vi o homem ser levado pela polícia. As pessoas ficaram ainda um tempo nas janelas com palavras de apoio à mulher que fora espancada. Ela apareceu na janela e agradeceu aos vizinhos. Houve aplausos e gritos de todos e eu cá da minha apatia percebi que ainda vale a pena acreditar na humanidade.

E quem quiser que conte outra…



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Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.