A mulher rei e a construção das histórias plurais

A mulher rei e a construção das histórias plurais
A mulher rei e a construção das histórias plurais

Quando eu era criança os filmes e novelas só apresentavam personagens cuja predominância de cor da pele dos era de pessoas não negras. Os negros quando apareciam eram os serviçais ou auxiliares dos heróis e super-heróis.

E assim eu fui crescendo e aprendendo a ver imagens nas telinhas e nos telões de personagens cujo protagonista era de pessoas de descendência europeia. Eu não via gente da minha cor sendo representada de maneira positiva quanto à identidade e personalidade.

Nas peças publicitárias, os modelos sempre atendiam a perfis de pessoas de origem europeia; nos filmes, os índios eram sempre os selvagens ou aquelas pessoas que iriam usurpar algo da sociedade. As piadas, ora, ora…

Como a gente poderia criar autoestima coletiva em tais situações?

Tive de aprender a me identificar com as origens afrodescendentes nas experiências do dia a dia quando testemunhava processos de exclusão na escola, no trabalho e na sociedade em geral. A exclusão social e racial é uma construção sutil, que demora a ser percebida pela maioria das pessoas. 

Os meios de comunicação deixavam uma nuvem em minha mente quanto à minha identidade e cultura. Fui educado pelo cinema, pela televisão, pela escola e pelo mundo do trabalho a perceber os afrodescendentes como subordinados na fala, na dança, no labor e em tudo que fosse produção cultural.

Também sempre admirei a cultura do futebol, da boa comida e da excelência da música brasileira. Nesses campos os afrodescendentes se apresentavam com mais visibilidade, mas sempre achei que valorizar os não brancos somente pelo desempenho no samba, no futebol e na culinária, por exemplo, era muito pouco e isto despertou em mim curiosidade de descobrir outras contribuições culturais aos quais os negros estavam vinculados, mesmo imerso em um sistema de construção identitária que insistia em me educar para a submissão e para a baixa autoestima: a jornada não foi fácil.

Chegamos a 2022 e tenho a oportunidade de assistir a A mulher rei, que trata de uma parte da história da África, centrada no reino do Daomé, que existiu entre os séculos XVI e XX e hoje é onde está localizado o país de Benim. A narrativa do filme se organiza a partir dos olhares de mulheres negras, que se tornaram guerreiras e lutaram pela soberania daquele Reino.

Ao assistir ao filme, todo um pensamento foi se formando, o que gerou as reflexões acima. Depois da sessão de cinema, fiquei imaginando como seria minha formação se houvesse filmes assim nos tempos de criança, e se filmes como esses fossem discutidos na escola. Como seria a autoestima da população afrodescendente no Brasil quanto aos valores, conhecimentos e costumes da população de origem africana?

Também fiquei pensando sobre como demorei tanto tempo para compreender a participação feminina negra nas dinâmicas das relações políticas. Quem sabe eu não teria figurinhas com heroínas negras na minha coleção? Talvez tivesse oportunidade de ler uma infinidade de quadrinhos em que os afrodescendentes aparecessem como seres poderosos e com forças sobre-humanas. Quem sabe?

Tudo isto traz à tona reflexões basilares: como são poderosos os símbolos construídos pelos meios de comunicação de massa? Como eles podem no longo prazo interferir na vida dos cidadãos em geral?

Em A mulher rei fui estimulado a mergulhar em toda uma simbologia de ver mulheres bonitas, fortes e corajosas perambularem no meu imaginário de ser humano negro. Pude me ver no espelho e achei lindo o que vi.

Em A mulher rei senti com mais profundidade o discurso de Chimamanda Adichie, penetrando nos meus ouvidos e estimulando em mim um olhar plural sobre a história e, mais ainda, aprendi que é hora de nos livrarmos das encruzilhadas das histórias únicas, aquelas narrativas sob um único ponto de vista, dos discursos que se distanciam dos diálogos e impedem o outro de contar a própria história, assim abriremos possibilidades para contar histórias plurais.

Até a próxima!

Dados da obra
  • O que é? A mulher-rei {filme}
  • Quanto tempo é? 2 h 24 min
  • Que tipo de filme é? Histórico, drama, ação
  • Quem dirigiu? Gina Prince-Bythewood
  • De quem é o roteiro? Gina Prince-Bythewood, Dana Stevens
  • E o elenco? Viola Davis, Thuso Mbedu, Lashana Lynch
  • Qual o título original? The Woman King
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  • O perigo das histórias únicas

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    Publicado por Cleonilton Souza

    Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.