O que Sherazade tem a nos ensinar sobre comunicação?

O que Sherazade tem a nos ensinar sobre comunicação?

Nos últimos tempos tenho ido a muitas mesas de discussões sobre temas de interesse dos assuntos que estou estudando na Universidade e fico impressionado como esses eventos são direcionados para as comunicações discursivas, como assim denominava Vilém Flusser, na obra O mundo codificado.

Para o filósofo da técnica, a comunicação se desenrolava em duas distintas vertentes, a  comunicação discursiva, em que um se pronuncia e traz um conhecimento acabado, enquanto os outros são submetidos a serem meros ouvintes da situação comunicativa. Flusser assinalava que esse tipo de comunicação não produzia conhecimento novo, mas navegava no já conhecido, ou seja, no saber dominado pelo interlocutor-emissor da mensagem. Em contrapartida à comunicação discursiva, Flusser concebia a comunicação dialógica, aquela situação comunicativa do ir e vir, da construção do conhecimento, que não partia das certezas sobre todos e tudo, mas tinha bases na atitude filosófica da dúvida.

E o que se encontra em muitas mesas de discussão é um ritual de monopólio da fala, em que um grupo de pessoas detentoras do conhecimento senta em posição física superior aos demais debatedores, geralmente em um palco, em que uns falam e outros apenas ouvem. Interessante é que muitas dessas mesas são planejadas para que a plateia participe, discuta o tema em questão, mas o que se percebe é uma desobediência ao próprio planejamento da mesa, com o tema sendo consumido pelos palestrantes que não param de falar e invadir o espaço antes reservado para os interlocutores ouvirem também o que a plateia tem a dizer, abrindo possibilidades para a construção de conhecimento no momento mesmo da interação social.

Por exemplo, em uma mesa com duração de duas horas para discussão, o povo falante domina as discussões e não deixa tempo para perguntas, questões, dúvidas e debates. Resultado: menos construção e mais transmissão de conhecimentos do já existentes.

E o que Sherazade tem a nos ensinar sobre esse tipo de situação comunicativa é que os supostos detentores do saber precisam abrir espaço para que os outros falantes se pronunciem. Sherazade foi muito sagaz na forma de comunicar: sabendo que iria morrer, partiu para conversar com o interlocutor, um rei perverso, por meio da contação de histórias. Mas foi uma contação de histórias diferente: em vez de ela derramar todo o conhecimento que tinha sobre o rei malvado, ela foi de gota em gota estabelecendo relações com o algoz, ao mesmo tempo que o provocava a refletir se era necessário acabar com a vida da contadora de história de forma imediata. E isto levou mil e uma noites de conversas e conversas, o que fez com que a cada dia o rei esperasse por mais um dia para a tomada de decisão terminal.

Precisamos, nas mesas de discussão, comunicar menos discursivamente e provocar a plateia a trazer respostas explicitamente situadas sobre o tema em debate, pois a comunicação discursiva se dá muito pela ânsia de quem acha-se detentor de algum saber, e do desejo de expressar, derramar todo o conhecimento sobre o tema sobre a plateia. Nesses momentos, é bom lembrar de Paulo Freire nos alertando sobre a necessidade do diálogo como princípio de comunicação e educação, para que o conhecimento irradie sobre todos os envolvidos na interação verbal.

Foi por meio dos conhecimentos mínimos, contados a cada noite, que Sherazade criou um continuum de comunicação com o rei e, enquanto sobrevivia, conhecia mais o algoz e ia defendendo a cada noite mais um tempo de vida. A contadora de histórias não esgotou a informação em uma só dose, mas foi utilizando o que sabia para conhecer o outro e continuar a comunicação.

É muito difícil estabelecer dialogicidade, como dizia Paulo Freire, ou comunicação dialógica tal qual Vilém Flusser defendia, pois a comunicação discursiva nos dá uma falsa sensação de poder, de domínio e controle sobre o outro, fazendo de nós os interlocutores emissores monopolistas das falas, mas é preciso pensar sobre o quão de conhecimento o interlocutor receptor tem, potencialmente, para expressar nessas referidas mesas. Talvez assim possamos dar novos rumos à conversação e, quem sabe, não possamos transformar as mesas de discussão em processos comunicativos como o da Mil e uma noites, com criação de comunicação em espiral, onde eu aprendo e o outro aprende, eu ensino e o outro ensina também. Neste sentido, Sherazade tem muitos a nos ensinar.

Leituras gostosas para fazer:
♠ O que é comunicação, de Vilém Flusser, em O mundo codificado, p. 84-96
♠ Dialogicidade, de Paulo Freire, em À sombra desta mangueira, p. 74-82
♠ Introdução, de Vilém Flusser, em A dúvida, p. 21-33

Até a próxima!


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Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.