A escrita em garranchos

Garranchos de Cleonilton
Garranchos de Cleonilton
Por volta dos nove anos de idade, passei por momentos difíceis que afetaram toda a minha vida futura. Ainda na segunda unidade do chamado terceiro ano do antigo primário, recebi o boletim de avaliação e verifiquei que não tinha alcançado as notas mínimas para passar nas duas primeiras unidades e que corria o risco de não ser aprovado no ano letivo.
Duas questões eram impeditivas para eu estudar adequadamente: primeiro, eu adorava jogar figurinhas, e aquele vício me envolvia de tal modo, que não conseguia olhar de forma adequada para os estudos. A rotina era jogar, jogar, jogar…
A segunda questão se referia à forma como eu escrevia: as letras eram incompreensíveis e isto impedia que a professora pudesse ler as atividades escolares feitas por mim e fazer de forma efetiva a avaliação.
Levei o boletim para casa, e minha mãe ficou alvoroçada. Só falava no assunto. Dias depois ela foi à escola para conversar com a professora e ficou mais preocupada ainda com os comentários da professora, como falta de atenção, atrasos, não cumprimento do horário do intervalo, além da escrita que era incompreensível.
Naquele tempo as pessoas achavam que quem tinha letra incompreensível tinha problemas de desenvolvimento cognitivo e, em consequência , dificuldades para estudar. Até hoje a gente ainda encontra pessoas que fazem esse tipo de comentário, considerando as pessoas de letras incompreensíveis como pessoas menos inteligentes.
Após a conversa com a professora, minha mãe me matriculou em uma turma de alfabetização de crianças, que estavam atrasadas no desenvolvimento educacional. Fiquei muito chateado com a situação e questionei muito aquela decisão. Eu sabia ler e escrever com fluência, pois ajudava meus pais nos estudos a distância que eles faziam, tinha um desempenho razoável em Matemática e facilidade em estudar assuntos ligados à Geografia e à História. Minha mãe não quis saber: em poucos dias estava eu na escola no meio das crianças e adolescentes que ainda não haviam conseguido se alfabetizar. Como lidar com aquela situação?
Após alguns dias nas aulas de reforço, os meninos da turma descobriram que eu já frequentava a terceira séria e começaram a brincar rotineiramente com aquilo me chamando de “burro”. Foram dias de humilhação.
Consegui passar de ano, mas tive de estudar com a turma de quarta série considerada a mais fraca em termos de desempenho escolar. Naquele tempo a escola fazia separação entre os estudantes que tinham boas notas dos que tinham notas ruins. Os colegas da quarta série tinham em média 14 anos, e eu acabara de fazer dez. Eles eram muito danados, eram fortes e gostavam de brincar de briga: tempos difíceis aqueles; vivia fugindo de um e de outro o tempo todo. Com o passar das aulas, os colegas perceberam que eu tinha um bom desempenho escolar e diminuíram as ações violentas contra mim. Mas foi um ano muito difícil aquele.
No ginásio, voltei para as turmas dos meninos que tinham boas notas e fiquei menos exposto à violência comum que acontecem quando crianças menores ficam com adolescentes que gostam de brincar com coisas violentas, mas desde aquela época já achava que a classificação de estudantes por nível de conhecimento não fosse a saída adequada para a educação de crianças e adolescentes. Os meninos e meninas precisam ficar juntos e misturados, eles precisam ser incentivados a realizarem atividades cooperativas entre si, para que todos possam aprender juntos. Só tive a consciência disto depois que passei um ano longe dos meus colegas porque tinha obtido notas menores.
Fui para o segundo grau (ensino médio) e lá passei a escrever em letra de forma, para que a escrita fosse legível e eu não ficasse prejudicado nas notas durante as avaliações.
Ao entrar no mundo do trabalho, trabalhei com Contabilidade. Lá fui surpreendido de novo com a questão das letras incompreensíveis (os garranchos). Os colegas de trabalho tinham belas letras cursivas e preenchiam de forma ornamental as fichas de registros contábeis. Quando eu errava um registro, a forma como eu escrevia era muito evidenciada, e eu morria de medo quando chegavam os relatórios contábeis, pois, caso houvesse erro em algum registro, eu ficaria exposto diante de todos.
Um dia houve um número expressivo de erros meus por causa da letra incompreensível. O chefe do setor me chamou e conversamos sobre o assunto. Lembro que entre um papo e outro ele disse mais ou menos assim: “você não precisa ter uma letra bonita, basta que ela seja legível”. Aquela sinalização ajudou muito, pois ainda tenho a letra feia, chamada de garrancho, mas procuro escrever de forma legível. Também me ajudou na estima, pois eu me nivelava por baixo diante de outros profissionais por achar as minhas letras fora do padrão.
O que aprendi com tudo isto? Quanto aos jogos, aprendi a não me deixar envolver em coisas que me deixam submetido ou dependente em demasia. Ainda jogo, mas só quando é para produzir prazer; quanto às letras, elas continuam as mesmas, rs, com algumas melhorias, é claro.
As letras que produzimos expressam um pouco do que somos, e a gente precisa cuidar para pensar em mudar sempre, mas com cuidado para que as referidas mudanças não diminuam a nossa estima.
Foi preciso passar por tudo o que aqui foi descrito para me entender melhor, sabendo das minhas fraquezas e reconhecendo as minhas potencialidades.
Até a próxima!

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Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.