
Terminei de almoçar e voltando para casa vi uma pequena sorveteria no caminho. Resolvi parar para comprar um picolé.
Na sorveteria havia uma atendente de cabeça baixa olhando para o celular. O pequeno salão não tinha cartazes com preços e sabores de picolé. Perguntei à atendente que sabores havia disponíveis para venda, e a moça de cabeça baixa apontou um QR Code, para eu acessar o cardápio do estabelecimento.
Surpreso, pedi que ela mesma informasse sabores e preços, mas a funcionária insistiu que eu acessasse o desenho em código para me cadastrar como cliente. Diante do impasse, solicitei o sabor que eu tenho preferência e, enfim, fui atendido.
Em outra situação, fui pegar o ônibus denominado BRT (transporte rápido por ônibus) e fui informado por um transeunte que eu só poderia entrar no transporte público se tivesse cartão de passagem coletiva. Como um cidadão não pode pagar um transporte público com dinheiro? Fiquei pensando…
A explicação do solícito cidadão, em defesa da prefeitura local, era de que aqueles ônibus não poderiam receber dinheiro, porque no sistema BRT não há um humano para a atividade de cobrança de passagens.
Em uma terceira situação, fui a uma loja de shopping para comprar utensílios domésticos e, quando cheguei ao caixa, percebi que havia um funcionário que saiu correndo ao perceber que eu iria para a área de atendimento por humanos. Na bateria de caixas havia vários avisos para eu me dirigir ao auto-atendimento eletrônico, que segundo os donos dos estabelecimentos comerciais, “atendem” melhor que os humanos.
Certa vez fui comprar um coco na rua, e o vendedor não queria receber dinheiro, porque não costumava andar com dinheiro trocado, com a cobrança sendo feita por meio de cartão ou PIX. Ao me ver com dinheiro na mão, o vendedor me olhou sorrateiro, como se eu fosse um ignorante no uso de tecnologias, e questionou sobre o porquê de eu ainda usar dinheiro. O coco custava menos de R$5,00. Eu tinha uma nota de R$10,00 e não desejava passar cartão para aquele tipo de compra.
Situações como as aqui relatadas estão cada vez mais comuns, o que ocasiona um certo tipo de ideologia: “quanto menos humanos próximos, melhor”, resultando em situações impositivas de usos de tecnologias, mesmo quando os usos são inadequados.
Houve um tempo em que as empresas e os empreendedores quando desejavam melhorar as vendas, procuravam melhorar o processo trabalho (conjunto de ações organizadas para atingir objetivos), para, a partir do processo, verificar se haveria necessidade de usar mais tecnologias. Hoje tudo precisa ser resolvido com tecnologias, ficando as relações interpessoais em segundo plano. O resultado disso são essas relações estranhas com o uso de tecnologias.
Até a próxima!
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