
O menino que não cabia em uma sigla
Fui uma criança traquina, que dizia muitos palavrões e que não tinha medo de discutir com os mais velhos.
Minha mãe vivia preocupada, pois as pessoas diziam que eu era diferente por falar sozinho nos cantos da casa. Anos depois fui deixando de falar sozinho e escrevendo o que se passava comigo.
Naquela situação peculiar, ouvia as pessoas dizer que eu daquele jeito porque nasci em novembro, mês das almas, por isto eu tinha aquele comportamento estranho. Era uma explicação mágica para uma vivência real.
Nas férias, ou eu ia descansar na casa de algum parente, ocasião em que mudava de comportamento e ficava bem quietinho, ou ficava de castigo, sem poder sair de casa.
Na adolescência passei a ser uma pessoa muito silenciosa. A timidez tomou conta de mim, ficava em casa, passei a curtir menos a convivência com os outros adolescentes, usando mais o tempo para estudar e ler revistas em quadrinhos. Aos poucos fui deixando de jogar futebol, lugar onde a interação com outras pessoas era muito intensa.
Foi ainda adolescente que passei por dois momentos significativos. O primeiro foi quando os colegas de escola me chamaram para conversar e perguntaram se eu usava alguma droga. Aquilo foi um choque: “por que as pessoas tinham aquela impressão de mim?”. Em outro momento, um professor em tom de brincadeira me disse na frente dos demais colegas que eu seria uma pessoa de pouca comunicação e que trabalharia em um local bem distante das pessoas. Aquele comentário foi decisivo para eu saísse de mim mesmo e procurasse interagir mais com outras pessoas. O que para muitos seria uma crítica avassaladora, para mim serviu de desafio para uma vida toda: eu não era só solidão!
Anos depois me tornei professor e passei a ajudar as pessoas que tinham muita timidez, partindo das experiências da minha história de vida.
Tornei-me adulto com toda aquela carga de estranheza e graças aos constantes diálogos com minha mãe, fui aprendendo a me relacionar com diversos tipos de pessoas; depois fui ampliando o leque de convivências, lidando com os conflitos internos que toda convivência provoca.
Com um histórico destes hoje eu seria uma criança rotulada com alguma sigla; talvez estivesse tomando algum remédio ou estaria em algum tratamento para pessoas “especiais”. Durante as convivências passei por diversos estados psicofisiológicos, como hiperatividade, depressão, ansiedade, egocentrismo, impulsividade, estresse e por aí vai.
Na verdade, eu fui uma criança como outras, que desejava abraçar o mundo, viver intensamente, quebrar coisas para ver como funcionavam, correr, gritar, sorrir, chorar e questionar quem estivesse no ambiente em que eu vivia.
Ao ficar adolescente percebi como o mundo era vasto, foi quando veio um medo imenso de viver e conhecer outras pessoas e outros mundos. No meu caso, a convivência com meus pais e as demais pessoas foi primordial, pois eles compreendiam o que estava acontecendo e agiam para que eu aprendesse a conviver mais intensamente, pois conviver não é fácil; conviver, ora, é uma aprendizagem diária que precisa ser experimentada por todos nós.
Hoje quando vejo uma criança nervosa, agitada, não acho o comportamento estranho daquele pequeno ser, pois ali há muito do que eu fui e ainda sou.
Foi na adolescência que aprendi a importância de estar comigo mesmo nos momentos em que as pessoas não estavam próximas (solidão) e nos momentos em que eu precisava ficar a sós (solitude).
Talvez as crianças de hoje não precisem ser rotuladas com alguma síndrome ou mesmo, medicalizadas, muito menos, passar por longos períodos de tratamento, ainda mais quando a convivência está logo ali, entre os pais, amigos, irmãos, parentes, vizinhos, colegas de trabalho etc., esperando aqueles novos seres para levá-los ao maravilhoso mundo da experimentação, do existir-se, no turbilhão de limites e possibilidades.
É na conveniência que aprendemos os limites e as possibilidades de viver. É na convivência que amamos e nos decepcionamos, odiamos e nos arrependemos, lidamos com as contradições, somos felizes e infelizes.
Olhando para minha história vejo como foi importante eu não ter sido rotulado com alguma síndrome psicológica e ter tido a oportunidade de viver com os outros, em movimentos de erros e acertos.
Até a próxima!
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