
Podcast do EPraxe
Os algoritmos e a vida cotidiana
Artigo de opinião publicado, em formato impresso, no jornal A Tarde, em 28 de dezembro de 2020.
Ouça+ no EPraxe Podcast
Artigos, resenhas e crônicas do cotidiano

Podcast do EPraxe
Os algoritmos e a vida cotidiana
Artigo de opinião publicado, em formato impresso, no jornal A Tarde, em 28 de dezembro de 2020.
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Depois de 51 anos de existência, o Atlético de Alagoinhas, Bahia, conseguiu o título de campeão baiano. Um feito difícil de ser alcançado no campeonato baiano, em que tem, historicamente, a conquista do campeonato é polarizada: somente Bahia e Vitória ganham títulos durante anos, o que empobrece a competição se levarmos em conta o futebol como um esporte que deveria ser popular.
A população baiana acaba por não se ver representada, devido à hegemonia dos times da capital. Para o leitor imaginar, de 1980 a 2021, o Vitória conseguiu 21 campeonatos e o Bahia, 20. Somente nos anos de 2006, 2011 e 2021 houve times fora da capital baiana que se tornaram campeões. Os campeões não hegemônicos foram Colo Colo, de Vitória da Conquista , Bahia de Feira, de Feira de Santana, e Atlético de Alagoinhas, respectivamente.
Bahia e Vitória já nem dão tanta atenção assim ao campeonato baiano, pois participam simultaneamente de outros campeonatos como Copa do Nordeste, Copa Sul Americana e Copa do Brasil. A participação simultânea em diversos campeonatos provoca mudanças constantes no calendário do campeonato baiano. Isto é um problema.
Mas não podemos tirar o brilho do Carcará, como é chamado o Atlético, que em 2020 conseguiu ser vice-campeão do certame e se manteve firme na conquista do campeonato em 2021.
Os times profissionais do interior da Bahia participam de uma luta desigual, com orçamentos curtos para participar dos eventos esportivos, e precisam ter muita resiliência para seguir competindo no campeonato baiano.
Depois que se sagrou campeão, o time do Atlético subiu em um trio elétrico e foi passear na cidade de Alagoinhas para comemorar a conquista. Interessante foi a postura de um dos artilheiros do time, que, assim que terminou o jogo, dirigiu-se para a rodoviária da cidade, pegou um ônibus e foi para casa rever a família. Uma postura cidadã de solidariedade em relação aos acontecimentos da pandemia da Covid 19, em que as aglomerações são ações cotidianas.
Este também é o retrato da vida dos jogadores do interior, que ficam longe das famílias, não têm carros de luxo, muito menos salários altos ou contratos milionários de publicidade. É a vida. E ainda pensamos que a vida do profissional de futebol é uma maravilha; pode ser para uns poucos.
Fiquei duplamente sensibilizado com a situação. Primeiro por ver um time não hegemônico ganhar um campeonato estadual; segundo por ver a experiência do jogador campeão, preso às raízes, vivendo sem fama, sem dinheiro e sem luxo.
Fiquei imaginando a ida do jogador à rodoviária, cheio de saudades dos parentes e dos amigos. Como deve ter sido a chegada à cidade natal? Como foi a comemoração? Quantos sonhos o título de campeão trouxe?
No final do túnel ainda há muito que aprender com o futebol na Bahia.
Até a próxima!
Para saber mais:
. Sobre o Atlético de Alagoinhas
. Lista de campeões baianos

O EPraxe completará 15 anos de resistência escritural em setembro de 2021. O blog começou com o nome de Senso Comum e sempre buscou expressar o cotidiano do autor por meio de poemas, crônicas, resenhas e informes transversais da filosofia, da ciência, da religião e do senso comum.
São essas influências múltiplas do conhecimento humano que proporcionaram a sobrevida deste ambiente de escritura. É claro: os poucos fiéis leitores que acessam o blog com frequência foram o alicerce para a continuidade do blog.
Agradeço a todos!
Muita gente conversa com a gente sobre a necessidade de o Epraxe se expressar por meio de áudios e vídeos, mas o Blog sempre se voltou mais para os textos. Mas, a partir de agora, o EPraxe também mergulhará, aos poucos, no mundo do áudio e publicará podcasts com frequência de 15 dias. Quem sabe não chegaremos a publicar vídeos em futuro próximo?
A ideia é transformar em áudios os textos mais lidos do blog e traduzir para o áudio poesias, crônicas e artigos que por algum motivo não puderam ser publicados aqui.
O primeiro podcast é A reação de mãe Netinha, uma narrativa que mergulha nas questões controversas da existência e da resistência das religiões de matrizes africanas no território baiano. O texto é um misto de ficção e realidade e aborda alguns pontos da cultura da Bahia dos anos 1970 que não saem da cabeça do autor.
As publicações do próximo mês serão:
11 jun 2021: Os algoritmos e a vida cotidiana (artigo publicado no jornal A Tarde, impresso, em 28 dez 2020)
25 jun 2021: Faxina Eletrônica (poesia)
Fiquem ligados no EPraxe e boa audição!
Até a próxima!

Hoje está muito forte a discussão em torno do Capitalismo de Vigilância, esse estado de convivência em que o comportamento humano é rastreado cotidianamente por algoritmos, formando base de dados gigantescas sobre tudo o que fazemos quando navegamos na Internet.
Mas o hábito de capturar dados, sejam eles demográficos (nome, CPF, idade etc.) ou dados comportamentais (as nossas ações costumeiras) não é de agora.
Já faz tempo que empresas de seguros calculam os valores dos seguros de carro, por exemplo, com base no comportamento pregresso do segurado. Os bancos também não ficam atrás, pois há muitos anos as instituições financeiras guardam dados sobre os clientes e, com base no histórico comportamental de quem deseja empréstimo, estabelece os limites aos quais os cidadãos poderão tomar algum dinheiro emprestado. Os empréstimos não são liberados tendo como base somente o nível de renda, mas levam em conta toda a vida pregressa do cidadão, ou seja, o que fizemos no passado importa muito.
O Estado também tem prática constante de guardar nossos dados demográficos e comportamentais para estabelecer que tipo de política social será implantada, ou seja, há muito tempo somos vigiados, e os nossos dados se encontram em mãos de depositários, e nem sempre saberemos se eles serão fiéis a nós e responsáveis socialmente com as informações que lhes foram confiadas.
Todas essas práticas pertencem a uma era que poderíamos chamar de Pré-Capitalismo de Vigilância, em que a captura de dados sobre nós era feita de forma manual e semiautomática. Hoje estamos no contexto do Capitalismo de Vigilância, que é sustentado por avançados meios tecnológicos que facilitam o processo de colheita de dados. A vigilância se expandiu, e os nossos dados comportamentais viraram moeda. Eles valem muito, e a gente nem sempre tem consciência disto.
Informamos nosso CPF e data de nascimento de maneira rotineira, compartilhamos fotos e vídeos íntimos com frequência em mídias sociais digitais e já não nos preocupamos tanto com a nossa privacidade, algo que se constitui como um direito fundamental a ser preservado, mesmo para aqueles que acham que não há problemas em expor o privado no dia a dia.
A gente só se preocupa com o direito à privacidade no dia em que temos algum prejuízo, como ver nossa imagem exposta de forma jocosa em contextos inadequados ou quando temos prejuízo financeiro porque deixamos nossos dados à mercê da esfera pública. Ainda temos muito que aprender sobre privacidade.
Para o momento, o que precisamos compreender é que estamos em um contexto de ascensão do Capitalismo de Vigilância, em que nosso comportamento é moeda de troca e está trazendo lucros para pessoas que a gente nem conhece.
Pois é, ainda temos muito que caminhar para entendimento mínimo deste complexo contexto de convivência vigiada. E você, leitor, o que está aprendendo com tudo isto?
Até a próxima!

A tríade computacional de algoritmos, big data e internet das coisas constituem as três dimensões que regem a convivência cotidiana do início do terceiro milênio.
A combinação de códigos computacionais com dados em conexões contínuas exercem influência em muitas das coisas que os homens e as mulheres fazem no dia a dia, e essa combinação é tão sutil que só uma parcela mínima da sociedade compreende o que está acontecendo.
Muitas das formas culturais construídas pela humanidade é mediada por tecnologias da informação e comunicação, e isto se reflete em atividades como compras domésticas, direção de veículos automotivos, exames médicos, exercícios físicos, uma infinidade de práticas culturais,
E como aprender sobre essas novas relações sociotécnicas quando o conhecimento sobre esses objetos técnicos está restrito aos criadores desses objetos e a grandes operadores econômico-financeiros que são os donos das diversas tecnologias que são lançadas constantemente no mercado?
Ah, há profissionais da computação dispostos a compartilhar os modos pelos quais funcionam os bastidores dessa nova convivência mediada.
Mas o leitor poderá ficar cético e perguntar: mas esses profissionais têm uma linguagem própria que só é compreendida por um público bem específico.
Pois é, claro leitor, esse é o desafio a ser vencido pelo pesquisador David Sumpter com o livro Dominados pelos números – do Facebook e Google às fake News – os algoritmos que controlam nossa vida. No livro Sumpter trata de assuntos oriundos das relações mediadas, com ênfase nos algoritmos, em uma linguagem acessível, demonstrando que na verdade esses objetos atravessam nossa rotina todos os dias e como é necessário conhecê-los.
Por meio de uma comunicação leve e fluida, Sumpter discute como os algoritmos estão sendo aplicados nas negociações financeiras, nas contratações de seguros e até em processos eleitorais.
No texto não há códigos e códigos para o leitor aprender a dominar nem tão pouco listas exaustivas de linhas de programação para o leitor exercitar.
Mas, pela leitura, o leitor inicia um processo de entendimento da lógica de construção dos algoritmos computacionais e como eles podem ser utilizados para construir vieses, fazer previsão de comportamentos ou mesmo provocar situações de racismo ou sexismo.
A linha de argumentação do livro é construída por incursões que vão demonstrando como os algoritmos podem ser elaborados para, desde atividades de imitação de atos que pertencem ao humano até atos de influência sobre o que o humano pode fazer durante e após uma interação. Interessante pensar que esse poder de influência pode levar a interações permeadas de fake news, um problema que precisamos nos debruçar mais.
O capítulo que mais chamou minha atenção foi 17º, Cérebro bacteriano, que trata de inteligência artificial. Nela o autor trata da inteligência artificial geral, aquele tipo de inteligência que funcionaria com a mesma complexidade que a inteligência humana.
Dominados pelos números é um presente para os cidadãos que não conhecem ou conhecem bem pouco sobre as mediações algorítmicas comuns do dia a dia. É claro que o livro não é aquele texto superfácil para ler e de entendimento rápido do conteúdo, mas com um pouco de esforço e interesse pelas questões sociais do mundo contemporâneo, é possível aprender um pouco mais sobre esse novo mundo que nos rodeia e ficar mais esperto quanto ao exercício do próprio direito de cidadania.
Até a próxima!

Pensar

É provável que nunca tivemos tanta gente fazendo educação a distância no Brasil como estamos vivenciando durante a da pandemia do coronavírus.
Durante a semana navego de tela em tela, assistindo a aulas, apresentando trabalho, olhando vídeos, analisando fotos: uma viagem sem fim.
Apesar de estar cansado quando chega a sexta-feira, confesso que me identifico muito com a educação a distância, e esta modalidade faz parte da minha história.
Conheci cursos a distância quando tinha 10 anos. Meu pai e minha mãe se reuniram no quarto e depois me chamaram para conversar. Eles queriam voltar a estudar e iriam fazer cursos a distância para melhorar o currículo de cada um deles. Minha mãe optou por um curso na área de saúde, e meu pai, por um curso na área de eletricidade.
O interessante é que eles queriam que eu os ajudasse nos estudos. Veio um medo muito grande, pois teria de aprender e ajudar meus pais ao mesmo tempo em áreas de conhecimento tão distintas.
Mas os módulos iam chegando, eu me debruçava sobre os textos e depois partíamos para estudar juntos. Foi uma experiência emocionante: estudar com os meus pais. Nunca me esqueci daqueles dias.
Anos mais tarde, com 16 anos, formei uma pequena poupança e me inscrevi em um curso a distância sobre a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Como estava fazendo o curso técnico em contabilidade, resolvi que o primeiro assunto que eu deveria aprender com profundidade era sobre os fundamentos dos direitos do trabalhador.
Na idade adulta fiz cursos presenciais em nível de licenciatura, depois em especialização e mestrado. Mas não deixei de lado os cursos a distância. Também participei de cursos de extensão e aperfeiçoamento. A vida de estudante continuava.
Fiz cursos em nível de especialização em instituições, como Senac, Senai, Universidade de Brasília e Universidade Federal do Rio de Janeiro: todos na modalidade de educação a distância.
Participei de eventos de aperfeiçoamento, também em educação a distância, em instituições como Senac, Senai, Universidade de Brasília, Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), Instituto Paulo Freire, revista Cult, Movimento sem Terra, Fundação Perseu Abramo e Universidade de Santa Catarina. Foi um longo processo de aprendizagem.
No trabalho recebia elogios dos colegas e clientes em torno de aprendizagens que desenvolvi em cursos a distância. Eles nem sabiam disto. Assim, fui criando o sentimento de prazer e orgulho por participar de cursos a distância.
Comecei o doutorado em Educação, na Universidade Federal da Bahia, em 2020. E não é que aparece a pandemia e tenho de voltar a estudar a distância. Que encontro agradável! Tenho aprendido muito e descoberto muitas ferramentas de tecnologias da informação e comunicação para uso em educação a distância, feito amizades e aprendido bastante, é claro.
Mas o leitor perguntará: a educação a distância não é limitada? Ela é indicada para crianças? Ah, isto é coisa para uma próxima postagem.
Até a próxima!

Tanto barulho aí fora
Aqui dentro, silêncio
Héloa e Luedji Luna
A pandemia me tirou muitas coisas: pessoas próximas se foram, tenho de ficar em casa, quando saio tenho de usar máscara e minhas mãos já estão desbotadas de eu desinfetá-la tantas vezes no dia com esse álcool em gel.
Mas uma coisa a pandemia ainda não conseguiu me tomar. Foi a noção, mesmo que caótica, do tempo. Todo dia olho para o tempo. Essa entidade tão difícil de a gente lidar.
E foi em um domingo desses que senti o tempo fugindo de minhas mãos. Já tinha feito tantas coisas, e o tempo insistia em se mostrar como rotina e cotidiano. Há momentos em que a novidade nos fortalece e nos faz continuar a viver.
Lembrei de Héloa. Durante algum tempo, procurei alguma música dela no celular, depois resolvi ir atrás de algum videoclipe da cantora na Internet. Encontrei então o vídeo Héloa – Opará Acústico com Webster Santos, um show em forma de live que ela gravou com as músicas do disco Opará.
Antes de comentar a live, preciso dizer algo sobre Héloa. Ela é uma afro-sergipana, filha de Oxum. Ela não teme nem água salgada nem água doce, pois sabe navegar entre as fortes correntezas do rio e as ondas turbulentas do mar. Ela é multidiversidade: atriz, cantora, diretora e bailarina.
Sem ser panfletária, mas filosófica e religiosa, ela exalta a natureza do rio São Francisco e tece ritmos ribeirinhos nos chamando para a celebração do que as águas nos oferecem e não sabemos como aproveitar.
Na live, tecidos brancos desfilam no palco em consonância com as músicas que estão sendo cantadas, em um jogo de luzes que insiste em acompanhar a voz da cantora, uns sussurros me acalmam e me tranquilizam.
O que Héloa faz no show é religar o nós à natureza, tornando o espetáculo um reencontro de vertentes afro e indígena que povoam a cultura brasileira.
Héloa não somente canta, ela faz pequenos gestos seguindo o ritmo da música. São movimentos solenes, tendo o corpo no centro e os braços em movimentos sincopados, com leveza para que não nos dispersamos do rito musical.
No acompanhamento e na direção musical um violeiro batuta, que reconhece os acordes necessários para dar luz ao espetáculo anunciado pela cantora brasileira. Com você: Webster Santos.
Olha, mesmo em um domingo à tarde, havia muita zoada ao redor. A pandemia trouxe consigo muitos barulhos interiores, que desestabilizam as praças, as ruas e os lares. Mas aquele barulho de fim de tarde não conseguiu me tirar o centro e pude curtir os sopros musicais que Héloa consegue fazer tão bem. Foi um momento muito belo.
Depois do show percebi que retomar o próprio tempo é coisa para cada instante em que vivemos.
Até a próxima!