
Pensando com Vilém Flusser

Artigos, resenhas e crônicas do cotidiano


Elas estão no time das primeiras mulheres empreendedoras do Brasil. Elas enfrentaram adversidades sociais para se firmarem como parte integrante da cultura brasileira. Elas são as baianas de acarajé.
Se você deseja saber mais sobre esse grupamento tão importante da cultura brasileira assista a Akara no fogo da intolerância.
Akara é um documentário que faz um apanhado histórico da jornada das mulheres trabalhadoras que ajudam na divulgação de comidas típicas da cultura brasileira, tendo de sobre-existir em uma sociedade demarcada pelos preconceitos e pelas intolerâncias no cotidiano.
Em Akara o espectador se deparará com um estilo cultural singular de construção de identidade de mulheres, na maioria negras, que defenderam o direito ao trabalho sem deixar perder os vínculos com o legado africano na cultura brasileira.
Akara fala de religião e mostra como as relações de poder se sustentam nas diversas tentativas de diminuir a contribuição das religiões de matrizes africanas nas produções sociais de resistência aos infortúnios sociais pelos quais as baianas de acarajé tiveram de passar para produzir cultura das diferenças no Brasil.
A intolerância religiosa é um elemento controverso na vida das baianas de acarajé, pois a comida feita por essas trabalhadoras são hoje utilizadas como instrumentos de sustentação econômica de muitas mulheres que não são vinculadas ao candomblé, mas que não aceitam a herança das religiões de matrizes afro-brasileiras como fundantes da tradição de feitura dos acarajés e outras comidas feitas na Bahia.
Os criadores do documentário tiveram a capacidade de ouvir tanto baianas ligadas ao candomblé, quanto de vendedoras outras que sobrevivem dos quitutes de origem africana, mas não reconhecem os vínculos desses alimentos sagrados com as religiões afro-brasileiras.
Akara também fala de culinária, dos quitutes gostosos oriundos da cozinha afro-brasileira, que serviram também como elementos contra-hegemônicos em relação aos diversos instrumentos de interdição que foram criados para invisibilizar a contribuição africana na cultura brasileira.
Akara trata de uma manifestação econômica e religiosa secular, de algo que pertence ao dia a dia de muitas cidades brasileiras, mesmo as de fora do estado da Bahia.
O documentário é peça histórica para a gente levar para as salas de aula e discutir uma questão cultural tão importante para entendimento das relações de forças existentes na sociedade brasileira. Esses contrastes precisam ser discutidos, para que possamos compreender mais as nuances do viver em sociedade no Brasil.
Até a próxima!

“Se é para o futuro digital ser o nosso lar, então cabe a nós torná-lo nosso lar. E precisaremos saber. E precisaremos decidir. E precisaremos decidir quem decide.” Shoshana Zuboff, em A era do Capitalismo de vigilância
Uma reação a Dez argumentos para você largar agora suas redes sociais, de Jaron Lanier
Uma explicação: este texto nasceu de uma discussão sobre redes sociais digitais feita em uma disciplina do doutorado de Educação, na Universidade Federal da Bahia. A conversação foi uma aprendizagem e inspirou a criação do texto abaixo. O texto está com algumas adaptações e cada contra-argumento corresponde a um argumento defendido por Lanier.
Aproveitem!
Argumentos
O texto de Lanier é bem oportuno. Precisamos discuti-lo, pois no contemporâneo, as relações no digital estão cada vez mais presentes na vida cotidiana. Que o texto possa ser percebido como um espaço de anúncio das vicissitudes por que passamos na vida presente, mas que tenhamos coragem de intervir no contexto para transformá-lo. Este é o desafio.
Abaixo os dez argumentos apresentados por Lanier:

Quando iniciei 2020 não imaginava que teria de ficar um longo período em casa por causa da pandemia. Mas a vida é o inesperado, aquilo que não temos condições de adivinhar e agora em março 2021, completamos um ano em casa aprendendo a sobreviver a cada dia.
Nossa família tinha uma rotina bem demarcada: ir à escola, comprar no mercado, passear no shopping, visitar os amigos, ir a shows e aos cinemas, viajar… As possibilidades de ficar na rua eram incontáveis.
Mas com a pandemia tudo mudou…
Fizemos de tudo um pouco. Brincamos de Juno, aprendemos pocket. Lives? Ah, a gente fez até calendário para não perder os espetáculos. Se a gente gostava de assistir a filmes e a séries, o negócio se intensificou e esta foi uma das atividades que fizemos quase todos os dias.
Houve gente na casa que fez ensaios fotográficos do nosso conjunto de plantas, outros intensificaram as leituras, houve gente também que se dedicou a fazer artesanato. A gente não parou.
As saídas foram muito reduzidas, pois todos em casa têm medo da doença e acredita na vacina como uma das possíveis saídas contra a crise pandêmica, ou alguma outra saída indicada pela ciência.
E as nossas saídas? Só para ir ao dentista, com data marcada, ir ao supermercado ou a algum centro comercial para comprar coisas de necessidade básica. Quando batia uma vontade de consumir, fazíamos, caso houvesse dinheiro, alguma compra pela internet.
Daqui de casa presenciamos muitas coisas: pessoas jogando bola na quadra a noite toda, bares abertos durante na madrugada, e cheios, adolescentes correndo com skate na rua, outros jogando voleibol . Vimos homem que bateu em mulher, e foi preso. Assistimos ao ano novo passar com as pessoas olhando o mundo lá fora pela janela. De vez em quando ouvíamos sons bem altos depois das 22 horas (verdade). O que apareceu de crianças nas áreas comuns dos condomínios, a gente perdeu a conta. Parecia que estávamos em férias.
Com receio do risco que significava o não isolamento, aprendemos a fazer algumas atividades domésticas básicas, como reaproveitar móvel que quebrou; colocar pés com roldanas em armários, criar peças para suporte de plantas, ajustar encanamentos e pontos da rede elétrica de casa. Se fosse em outro período, provavelmente contrataríamos o serviço de terceiros.
Mesmo com todas as restrições para ficar em casa, resistimos e sobrevivemos.
Precisamos ressaltar nesta experiência que somos uma família com o mínimo de segurança social, o que não acontece com boa parte da sociedade brasileira, em que a vulnerabilidade social é o estado vigente, o que leva muita gente a correr riscos diários fora de casa para sobreviver. Estamos sensíveis a isto.
A rotina que criamos nos ajudou a sobreviver nos últimos 12 meses e a não se entregar a comportamentos agressivos ou depressivos. Tivemos de nos reinventar todos os dias.
E você? Como foram seus tempos de pandemia?

Ah, como eu gostava de passar o dia jogando bola em frente de casa durante as férias! Terminadas as férias, eu sempre realizava todos os afazeres domésticos e atividades da escola cedo para minha mãe deixar eu ir para rua.
Naquele tempo minha mãe já me preparava para o futuro e dizia que os afazeres domésticos não eram só para as mulheres e que os homens deveriam ajudar em casa também. Só vim dar valor àquele conselho quando tinha meus 21 anos e fui morar com uns colegas de trabalho. Saber cozinhar, fazer compras e limpar a casa eram um diferencial. Fiquei autônomo cedo e me virava com facilidade quando precisava ficar sozinho em casa.
Ainda criança, uma das diversões preferidas era ir jogar futebol. Em uma dessas partidas, o meu time ganhava de 3 a 1 e eu já não enxergava o que estava em volta. Chutava a bola de um lado para o outro; o importante era fazer mais um gol.
Foi em uma daquelas empolgações que chutei a bola com tanta força que a redonda foi bater direto na bolsa de compras de uma senhora. Era a mãe Netinha que vinha apressada para o preparo do caruru de São Cosme e São Damião.
Quando a bola tocou nas pernas de dona Netinha e depois saiu quicando, todos os meninos correram. Fiquei lá sozinho, olhando atônito para aquela mulher que eu tinha tanto medo. Todo mundo temia dona Netinha. Não posso dizer que era respeito, pois quando a velha passava todo mundo dava bom dia, boa tarde ou boa noite, mas só era ela sumir na esquina que as língua das vizinhas ficavam soltas, o que fazia com as crianças ficassem mortas de medo daquela senhora sempre vestida de branco.
Um saco com gengibre caiu no chão. Dona Netinha calmamente pegou a iguaria com uma mão e segurou a bola com a outra, enquanto a sacola de compras ficou caída no chão. Ela parou bem na minha frente e, sem dizer nada, me entregou a bola.
O coração acelerado, batia forte e produzia um ruído parecido com um trovão. A mãe de santo foi embora, e os meninos vieram assustados me dizer que eu não poderia ir comer caruru na casa de dona Netinha mais tarde, pois tinha jogado o caruru no chão.
Fiquei muito triste, pois adorava caruru. E caruru era o único motivador que me tirava o medo da mãe de santo e das coisas do candomblé.
Passei o resto do dia em casa, cabisbaixo, nem quis ouvir a rádio FM, a grande novidade de transmissão radiofônica daquele final de década de 1970.
De repente alguém bateu na porta. Era Firmino, ogã da casa de dona Netinha, que veio conversar com minha mãe. O medo aumentou. E agora? Como eu explicaria o problema da bola?
Firmino falou baixinho com minha mãe e saiu. Minha mãe deu um grito. Quando cheguei na frente da porta, ela disse para eu ir me arrumar correndo, pois o caruru iria começar e faltava um menino com até sete anos para compor a balbúrdia para os santos.
Desci correndo a ladeira lá de casa e subi igual a uma raposa a ladeira da casa de santo. Chegando lá, todos me olharam com ar de alegria, pois a balbúrdia poderia começar.
Vou confessar para vocês: aquele foi um dia gostoso de ser vivido. Fiquei todo melado de azeite com aquele pega pega de comida. Nem sentia mais o medo diante daquela gente tão acolhedora.
No outro dia, na reunião que fazíamos antes do baba, a conversa era só sobre o caruru. Estávamos numa grande empolgação, quando a dona Netinha passou perto da gente, vinda da feira de São Joaquim. Fizemos silêncio. Ela olhou sorrateiramente para a turma e prosseguiu. Um garoto olhava para o outro bem atônito, mas depois todos riram e continuaram a conversa até o início da noite. E naquele dia não houve mais futebol.
E quem quiser que conte outra…

No tempo de criança, havia um pé de jaca de pobre no terreno de minha avó, bem em frente da rua. A jaca de pobre era uma fruta desprezada, pois as crianças queriam mesmo era desfrutar de mangas, jacas e umbus. Ficávamos esperando chegar o tempo das frutas para se lambuzar.
A jaca de pobre? Quem queria jaca de pobre? Aquela fruta azeda, esverdeada, cheia de pontas que mais pareciam espinhos. Ora, se elas fossem como as pinhas, aí seria outra coisa!
O que a gente gostava mesmo era subir no pé de jaca de pobre para mexer nas pessoas que passavam na rua. A gente gritava lá de cima: – Psiu! – a pessoa olhava para trás e não via nada. Êta tempo bom!
Mas um dia a gente entrou em uma fria. Eu e os vizinhos decidimos perturbar as caretas e as mortalhas que passavam na rua para ir curtir o carnaval no centro da cidade. Caretas e mortalhas eram pessoas que se fantasiavam para ir brincar o carnaval. As caretas usavam roupas de pierrô, e as mortalhas eram aquelas pessoas fantasiadas com um roupão preto ou azul bem escuro e com uma máscara parecida com um cone.
Eu achava aquelas fantasias assustadoras. Morria de medo. Mas os meninos da rua combinaram que a gente iria gritar chamando as caretas e subiríamos correndo no pé de jaca de pobre.
Só que um mascarado descobriu onde a gente se escondia e fez gesto que iria subir a árvore para nos pegar. Foi um chororô. O medo se apossou de mim. Eu só gritava: – Me perdoa, seu careta, me perdoa, seu careta.
Depois de fazer alguns grunhidos, a careta foi embora. Descemos da árvore apavorados e não brincamos mais até o fim do carnaval.
E assim, o pé de jaca de pobre se tornou o lugar de nossas brincadeiras. Mas a gente nem queria saber de provar daquela fruta.
Anos mais tarde, passei a consumir polpas de frutas, e uma das minhas frutas preferidas era a graviola. Que fruta gostosa era aquela, gente. Aquele sabor azedinho. Às vezes eu consumia com leite. A polpa de graviola passou a ser um dos meus alimentos preferidos.
Certo dia vi um anúncio no alto falante do supermercado que havia graviola à venda. Fui à área de hortifrutigranjeiros para conhecer a tal da graviola em estado natural. Ao chegar no balcão de frutas, percebi que aquela fruta era conhecida: era a jaca de pobre. Ela mesma!
Fiquei pasmado com a situação. Mais pasmado ainda era saber que aquela fruta fora tão desprezada na infância. Hoje a graviola pertence ao grupo dos alimentos especiais. E o preço? Quase não dava para comprar.
Hoje sou apreciador de graviolas e não perco a oportunidade de tomar um suco in natura da fruta ou ir à Ribeira, na beira da praia, tomar um delicioso sorvete de graviola, ops, de jaca de pobre.
E quem quiser que conte outra…

Aprendi a ouvir Bethânia com minha mãe. Durante as manhãs ela passava horas lavando roupas em frente a uma grande bacia. Para lidar com aqueles momentos de suplícios sob o sol, ela cantava bastante.
Anos mais tarde descobri que as canções que minha mãe tanto gostava eram interpretadas por Maria Bethânia. Foi lá nos tempos de criança que fui descobrindo todo o espectro daquela artista que cantava o amor de forma tão singular.
Na idade adulta me deparei com o disco Ciclo (1983) e descobri que Bethânia ia muito além das músicas românticas. Bethânia era artífice de muitas perspectivas. Bethânia era romance, era alegria, era cultura popular, era transcendência.
Continuei a jornada de aprendizagem e conhecimento sobre Maria Bethânia embalado pelos momentos de silêncio e sussurros daquela voz grave, cheia de energia e suavidade. Bethânia canta como se estivesse orando, em uma ladainha apaixonada pela vida.
De repente todas essas lembranças me invadem e me puxam para um redemoinho gostoso de cantorias e declamações, ao assistir a Maria Bethânia apresentar uma live em homenagem ao disco Rosas dos Ventos. O disco dos inícios dos tempos desse arauto da música popular brasileira, tempo em que eu mal tinha nascido, mas minha alma já clamava por esses cânticos em forma de oração. Parece que minhas músicas de ninar eram as músicas que Bethânia cantava.
O canto de Bethânia é como a voz encantadora das sereias nos chamando para a espiritualidade, deste meditar necessário que não é partidário de religiões, mas que é ligação com o transcendente.
O espetáculo foi atravessando meu ser, como cantiga que embala criança, que não se sabe triste; cantiga a navegar pelos ouvidos, pelo nariz, pelo corpo inteiro, chamando-nos a celebrar.
Quando a gente ouve Bethânia a vida é todo sentimento. Se for preciso chorar, a gente chora. Se preciso sorrir, a gente se entrega a uma imensa alegria, pois sentimento é sinal de bom viver.
Enquanto Bethânia canta, as memórias vão e vem o tempo todo, e a gente lembra que para viver é preciso existir-se em cada momento, pois a vida clama por poesia, por sentimentos e por paixão.
E foi nesse embalo que me vi na infância, na adolescência, na vida inteira me experimentando entre a música e a poesia sob as bênçãos de Maria Bethânia.