A Seção Pensando com voltará a publicar novamente reflexões filosóficas a partir de 1º jan. 2021. Estamos com um acervo de reflexões bem interessantes para o ano que vem.
Não esqueça que toda segunda-feira temos um artigo, uma crônica do cotidiano ou uma resenha para você.
Vamos que vamos nos preparando para 2021.
Reflexão para hoje:
Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer, Italo Calvino, em Por que ler clássicos, p. 11.
De dentro de casa sou observado por uma multidão de internautas. Muitos deles eu nem conheço e, provavelmente, jamais vou conhecer. Meus rastros vão ficando pelos caminhos dos territórios digitais. Basta alguém procurar pelo meu nome na Rede, e um número incontável de dados ficarão disponíveis sobre quem eu sou, o que faço, minhas preferências, minhas controvérsias. Sou um livro aberto com capa escancarada. Vez por outra recebo e-mails de usuários maliciosos que possuem meu nome completo e CPF. Alguns usuários, depois de se apropriarem dos meus dados, fazem ligação me procuram oferecendo empréstimos em conta, cartões de crédito e outras coisas mais. Existem sites especializados em capturar informações do currículo da plataforma Lattes, para expor nosso histórico escolar e vida profissional. Às vezes sou apanhado de surpresa com a oferta de um produto que procurava há algum tempo. Como eles sabem de tantas coisas? Os cookies, que não são nenhuma massa de bolo, capturam cada endereço que visito. Eles registram gostos, desejos e desafetos de cada pessoa na Internet. Assino termos de serviços de internet quase diariamente. Ah, aquelas letras miúdas me cansam. Preciso conseguir logo as informações! Antigamente eu preenchia formulários sobre meus dados demográficos; hoje, enquanto registro meus dados demográficos em um formulário eletrônico, um algoritmo captura meus dados pós-demográficos: todos os meus comportamentos dentro do mundo digital. Os filmes de ficção científica não me atraem mais como antes. Eles já não conseguem prever nada! Ninguém acredita mais em ficção e fantasia, agora, a realidade é que é científica e não precisamos mais de filmes ou quadrinhos. Eu já não preciso contar minha própria história, quando algum artefato pode fazer isto para mim, e sem esquecer de nada.
Agora sou um homem de rastros que vão se formando a cada segundo de existência na Internet. Assim vou vivendo, espreitado, perscrutado, no meio de múltiplos espelhos a me dizer quem eu sou, o que faço e o que desejo e para onde vou.
A história que vou contar para vocês era passada de pais para filhos, de vizinho para vizinho na Salvador dos anos 1950 a 1970. É sobre a controvérsia entre o estado da Bahia contra a mãe de santo, dona Netinha.
Naquele tempo, havia um tipo de estrutura de controle da população negra e pobre que se denominava “Jogos e Costumes”.
O pessoal da Jogos e Costumes era responsável por coibir a circulação da comunidade pobre e negra na cidade, além de aplicar penalidades, independente de autorização judicial, sobre os cidadãos que o agente do Estado considerasse delinquente.
Foi então que apareceu um delegado chamado Peçanha, que fora indicado por alguns deputados para fazer um trabalho de limpeza na cidade. Quem fosse apanhado em manifestações de candomblé seria preso e poderia apanhar muito quando chegasse à delegacia.
Os filhos de santo preocupados com a situação avisaram à mãe Netinha da decisão do governo e da existência de Peçanha. Todos estavam atônitos e com medo de realizar os preceitos afro-brasileiros, mas os adeptos do candomblé tinham fé nos orixás e acreditavam em mãe Netinha.
Uma celebração foi organizada, e o povo ficou sabendo dia e hora do acontecimento. Peçanha ficou irritado com aquela desobediência e designou o sargento Melquíades para comandar um grupo de dez homens para quebrar todo o terreiro durante a festa e levar todo mundo preso.
No dia da celebração Melquíades pegou os melhores policiais e partiu para empreitada. Chegando lá, o grupo se dividiu e foi procurar o tal terreiro. As radiopatrulhas percorreram todo o bairro e não conseguiam identificar onde era o lugar da celebração. Quanto mais tempo demorava de encontrar o terreiro mais o sargento se enchia de raiva.
Próximo da meia-noite, a festa estava reluzente, e povo de santo estava em profunda meditação. Foi quando Ananias chegou ao terreiro. Ele era ogã da casa e um filho querido de mãe Netinha. Ananias tinha visto as radiopatrulhas e estava muito ansioso.
Mãe Netinha ouviu o filho querido e avisou que os policiais só encontrariam o terreiro depois da meia-noite e meia, pois antes os adeptos iriam concluir alguns rituais.
Os policiais já estavam zonzos, cansados de tanto procurar a casa de candomblé. Por volta de uma e meia da manhã, Mãe Netinha anunciou ao grupo que os convidados estavam chegando. Melquíades percebeu que os carros passaram várias vezes pelo terreiro, mas só ouviam um som distante. Agora o som dos tambores eram bem alto. O terreiro sempre esteve ali na cara deles!
O sargento sacou a arma para dar um tiro de advertência quando estivesse dentro do terreiro. Orientou a todos os soldados que usassem o cassetete para bater em todos indistintamente, depois fariam perguntas.
Os policiais avançaram contra a casa, alguém deu um pontapé na porta e houve um silêncio geral. Melquíades, do lado de cima da escada, apontou o revólver para cima e tentou dá um tiro. O revólver travou, e o sargento iniciou um trabalho de transe. Se dirigiu à mãe de santo, beijou-lhe as mãos e começou a dançar. Da mesma forma os policiais começaram a dançar. Alguns deles usavam o cassetete como instrumentos de maculelê. Mãe Netinha olhava para os convidados tranquila e serena. O povo não riu da situação. Todos assistiam abismados.
Aos poucos os transes começaram a cessar, e os policiais foram voltando a si. Ninguém nunca tinha visto uma cena daquela: aqueles homens saindo da casa como se fosse um time de futebol em uma partida perdida.
Dias depois, o sargento foi transferido para uma cidade interiorana, onde ninguém o conhecia. O delegado Peçanha foi promovido, pois quem ocupa cargo de importância nesta terra, nunca sai perdendo dinheiro nos momentos de controvérsias.
Muita gente diz que Melquíades voltou ao terreiro, quando se aposentou, e se tornou ogã da casa de santo do acontecimento mais emblemático que se tem notícia na velha Bahia. Mas este fato a gente não pôde verificar.
Assim aquelas histórias foram formando o meu repertório de vida. Repertório de coisas inexplicáveis do limiar entre o real e o imaginário.
Quase 9 meses em casa por conta da pandemia não é fácil. Mas a situação fica mais amena quando se tem acesso a uma leitura prazerosa. Aproveitei o máximo do tempo da pandemia em leituras mil. Abaixo alguns dos livros curtidos no período de março a novembro de 2020.
Jamais fomos modernos: Ensaio de antropologia simétrica, de Bruno Latour: uma discussão muito boa sobre questões da antropologia diante da concepção do que seja “Moderno”.
Informação. Linguagem. Comunicação, de Décio Pignatari: traz questões essenciais sobre comunicação em linguagem direta e acessível.
Pode o Subalterno Falar?, de Gayatri Chakravorty Spivak: uma discussão empolgante sobre o lugar de fala.
A Crônica, de Jorge de Sá: um ensaio leve e gostoso a respeito de um gênero literário que apaixona todo tipo de leitor.
No enxame: Perspectivas do digital, de Byung-Chul Han: uma consistente discussão a respeito das mediações sociais em um mundo submerso em zeros e uns.
A Verdade e as Formas Jurídicas, de Michel Foucault: depois de ler A ordem do discurso anos atrás, fiquei me devendo uma segunda leitura de Foucault. Foi quando me deparei com A verdade e as formas jurídicas: um texto irreverente e atual que explicita para nós o pensamento de Foucault, um filósofo que ainda muito influencia os estúdios das ciências sociais brasileiras.
A ordem do discurso, de Michel Foucault: após ler A verdade e as formas jurídicas, voltei para A ordem do discurso para entender melhor o pensamento de Foucault quanto às articulações entre discurso e poder.
Antropologia do Ciborgue: As vertigens do pós-humano, organização de Tomaz Tadeu: o texto central deste livro é o de Donna Haraway. Nele a autora defende ideias impactantes sobre a questão Ciborgue na vida das pessoas.
A questão da técnica, de Martin Heidegger: este livro foi uma releitura. Ao ler O mundo codificado, de Flusser, tive de voltar a Heidegger para compreender melhor a questão da técnica na perspetiva. Olha como a gente acaba interligando os textos?
Trechos de algumas das obras
Nosso tempo é um tempo de ultrapassar barreiras, apagar antigas categorias – e sondar o mundo à nossa volta. Quando dois elementos aparentemente díspares são combinados de forma imaginativa, justapostos de maneiras novas e singulares, é comum surgirem descobertas espantosas. Marshal McLuhan, em O meio é a massagem, p. 10.
Consideremos agora as margens (pode-se meramente dizer o centro silencioso e silenciado) do circuito marcado por essa violência epistêmica, homens e mulheres entre os camponeses iletrados, os tribais, os estratos mais baixos do subproletariado urbano. Gayatri Chakravorty Spivak, em Pode um subalterno falar?, p. 69.
O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se lutar, o poder do qual queremos nos apoderar. Michel Foucault, em A ordem do discurso, p. 10.
Para despertar o desejo de leitura, veja abaixo trechos de alguns dos livros aqui descritos. E haja leitura!
De vez em quando as plataformas de mídias sociais nos lembram de alguma postagem que publicamos. Desta vez o texto foi uma bricolagem com as ideias de Renato Russo que têm proximidade com educação. Fizemos na época uma espécie de entrevista fictícia com o letrista.
As letras das músicas de Renato Russo eram múltiplas, com versos que abordavam diversas temáticas, o que fez da banda Legião Urbana um marco na MPB nas décadas de 1980 e 1990.
Boa leitura!
Quem foi seu mestre?
“Uma menina me ensinou
Quase tudo que eu sei”
Como você planeja suas atividades?
“Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto,”
Que tipo de homem você intenta educar?
“Disciplina é liberdade”
Como você curte seu tempo em sala de aula?
“Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.”
Que relações de poder você vivencia com seus educandos?
“Tire suas mãos de mim,
Eu não pertenço a você,
Não é me dominando assim, Que você vai me entender,”
Que significados suas atividades produzem em sala?
“Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?”
Onde está o prazer em suas aulas?
“Não saco nada de Física
Literatura ou Gramática
Só gosto de Educação Sexual
E eu odeio Química!”
Que realidade você está discutindo?
“Que país é esse?”
Como você avalia suas atividades pedagógicas?
“Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.”
Que vínculos há entre suas aulas e a realidade?
“Mudaram as estações e nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
É por isso que, rinoceronte sem chifre,
Está tudo assim tão diferente”
Que você tem feito para aprender?
“Palavras são erros e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também”
E unidas sempre encontramos essas duas coisas:
“A insegurança não me ataca quando erro”
Que tipo de política você defende?
“Deve haver algum lugar
Onde o mais forte não
Consegue escravizar
Quem não tem chance”
Adaptação das obras:
Ainda é Cedo, Andrea Dorea, Daniel na Cova dos Leões, Há, Tempos, Será, Química, Quase sem Querer, Por Enquanto, Eu Sei e Fábrica
Brincadeiras, astúcias e vingança são escritos iniciais de Friedrich Nietzshe no livro A gaia ciência.
Ao ler os textos não sei se são poesias, aforismos ou filosofia do cotidiano. Não importa. Os textos são uma Beleza! O que sei é que o texto é uma Gaia Ciência em forma de Gaia Poesia.
Escolhemos dez dos 63 textos para o leitor se deliciar.
Boa leitura!
1. Minha felicidade
Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois que um vento se opôs a mim
Navego com todos os ventos
2. Sabedoria do mundo
Não fiques embaixo
Não subas muito alto
O mundo é sempre mais belo
Visto à meia altura
3. O desdenhoso
Como ando semeando ao acaso
Me tratam de desdenhoso.
Aquele que bebe em copos muito cheios
Os deixa transbordar ao acaso –
Não continuem a pensar mal do vinho.
4. Contra a vaidade
Não tinha te infles, caso contrário
A menor picada te fará explodir.
5. O próximo
Não gosto que meu próximo esteja muito perto de mim:
Que vá embora para longe e para as alturas!
Senão, como faria para se tornar minha estrela?
6. O Solitário
Detesto tanto seguir como conduzir.
Obedecer? Não! E governar, nunca.
Aquele que não é terrível para si. não incute terror a ninguém,
E só aquele que inspira terror pode comandar os outros.
Já detesto guiar-me a mim próprio!
Gosto, como os animais das florestas e dos mares,
De me perder durante um bom tempo,
Ancorar-me, sonhando, em desertos encantadores,
De me chamar a mim mesmo, por fim, de longe,
E de me seduzir a mim mesmo.
7. Princípio dos demasiado sutis
Melhor andar na ponta dos pés
Do que com quatro patas!
Melhor passar pelo buraco da fechadura
Do que pelas portas abertas!
8. A meu leitor
Boas maxilas e bom estômago –
É o que te desejo!
Depois de teres digerido meu livro,
Certamente conseguirá entender-te comigo!
9. Vaidade de poeta
Deem-me cola, e eu mesmo
Encontrarei a madeira para colar
Encerrar um sentido
Em quatro rimas insensatas –
Isso não é por acaso pequena vaidade!
10. O nariz torcido
O nariz avança insolente
No mundo. A narina infla –
É por isso que, rinoceronte sem chifre,
Homem altivo, tu cais sempre para frente!
E unidas sempre encontramos essas duas coisas:
A altivez rígida e o nariz torcido.
Até a próxima!
O que é? A gaia ciência (capítulo Brincadeiras, astúcias e vingança, p. 19-32) Quem escreveu? Friedrich Nietzshe Quem traduziu? Antonio Carlos Braga Quem editou? Editora La Fonte
Dia 23 de outubro tive o prazer e o deleite de ouvir Nara Couto no show, e que show, Outras Áfricas, no projeto Voltando aos Palcos do teatro Castro Alves, Salvador, Bahia.
O evento aconteceu na sala de coro do Teatro. Sem público e com a área da plateia em estado de penumbra, aquelas cadeiras escurecidas por sombras de um público que ainda não podia sair de casa.
No espetáculo um desfile do que há de mais afro na Bahia. Bahia de todos os orixás, travestida de todas as Áfricas. A cada música um sinal do Olodum, do Ilê Aiyê, do Malê, do Muzenza e do Badauê. É beleza pura, como diria Caetano.
E os tambores rufaram samba, samba de roda, blue, ijexá e afoxé, compondo o que há de mais genuíno na música baiana deste início de milênio.
No palco, Nara Couto sendo lindamente perscrutada por uma câmara ousada, circulante como um redemoinho, captando cada gesto, cada tom de cor, cada sorriso largo e silencioso da cantora.
Acompanhando Nara uma requintada banda do que há de mais qualidade nos redutos da música baiana: Ladson Galter, no contrabaixo, Marcelo Galter, no piano, e Reinaldo Boaventura fazendo o papel de baterista e percussionista ao mesmo tempo. Que luz! Que som! Que força!
Eles quatro foram feitos um para o outro. Muita harmonia nessa hora. O ouvinte vai sendo tomado a cada canção, a cada toque da bateria, ressonância do baixo ou dedilhar no teclado. Tudo isto a serviço de uma voz ímpar.
E ímpar é a voz de Nara Couto que se junta a um time afro-baiano de cantoras diferentes como Margareth Menezes, Luedji Luna,Jussara Silveira, Juliana Ribeiro, Virginia Rodrigues, Marcia Castro, Mariene de Castro, Xênia França, Larissa Luz… É preciso ter reticência mesmo.
E Nara é o resultado de múltiplas influências como Roberto Mendes, Capinam, Mateus Aleluia, Carlinhos Brown, Jarbas Bittencourt e Batatinha, sem deixar de se referendar em cantoras internacionais como Miriam Makeba, Sara Tavares e Lura. A mulher é um caldeirão musical.
Fico imaginando Nara Couto ainda criança nas ruas do Curuzu, bebendo do legado do Ilê e dos referentes afros comuns daquele espaço étnico da diáspora africana. E aquele crescente desejo de cantar, cantar para estabelecer novos vínculos, cantar para criar diferenças e construir novas identidades.
Até a próxima!
Que é isto? Outras Áfricas Onde foi? projeto Voltando aos palcos, transmissão da sala de coro do Teatro Castro Alves. Quando foi? 23 out 2020 Quem estava lá? Nara Couto (cantora), Ldson Galter (contrabaixista), Marcelo Galter (pianista) e Reinaldo Boaventura (baterista e percussionista) Ainda posso assistir? Siiiiiim: no canal YouTube do TCA.