Memórias do Axé Music – capítulo 3

Memória do Axé Music é uma sistematização de experiências vividas durante os 40 anos do Axé Music, movimento cultural que aconteceu e ainda acontece na Bahia
EPraxe – Cultura & Cotidiano

Entre o elétrico e o percussivo no carnaval da Bahia


O movimento Axé Music sofre influência sobremaneira do intercâmbio entre a música de base eletrônica, via guitarra, principalmente guitarra baiana, e os elementos percussivos cujos ritmos eram oriundos da África.

Neste sentido, os Novos Baianos têm papel fundamental nessa mistura, pois foi nos primeiros acordes da guitarra de Pepeu Gomes e nas vozes de Paulinho Boca de Cantor, Baby do Brasil, inicialmente conhecida como Baby Consuelo, e Moraes Moreira, que os primeiros trios elétricos foram aos poucos desfilando ao som de vozes e instrumentos eletrônicos e percussivos.
Os Novos Baianos, apesar de pioneiros em jogar uma banda comum em um trio elétrico, não chegaram a gravar um álbum dedicado ao carnaval da Bahia, mas as experimentações deles em cima do trio elétrico influenciaram muito a efusão de bandas de Axé Music no carnaval baiano durante anos 1980-1990.
Quanto à efusão de cantores em cima de trios elétricos, misturando tudo, do galope ao baião, do frevo ao reggae, do samba de roda ao samba-reggae, é preciso destacar os trabalhos do Armandinho, Dodô e Osmar, registrados nos álbuns Eletrizando o Brasil, com participação especial de Moraes Moreira (Music Color, 1983) e Aí eu liguei o rádio (RCA, 1987), dois trabalhos fundamentais para quem deseja entender a transição dos trios elétricos de alto falantes para os trios elétricos com as modernas caixas de som que produziam um som de alta fidelidade. Nos dois trabalhos, é possível perceber o trânsito dos artistas entre a influência do frevo pernambucano no carnaval da Bahia, para a ressignificação do Ijexá, resultando em vários tons musicais e dando nova forma à música baiana.
Naquele momento a cultura baiana não ficava mais presa aos acordes do frevo nem aos batuques das escolas de samba. A cultura baiana ressignificava não somente o frevo e o samba carioca, construindo identidade musical própria como também trazia para os círculos musicais baianos as sonoridades do reggae, do baião, do rock e do galope, tal qual se faz uma feijoada em uma cozinha baiana: tudo misturado, mesmo quando as dinâmicas sociais, raciais e econômicas da época não estivessem favoráveis para as mudanças que se anunciaram naquela época.
Até a próxima parada!

Memórias do Axé Music - número 5
Ligações entre os Doces Bárbaros e o Axé
Quem influenciou quem na música da Bahia? Os Doces Bárbaros foram seguidos pelos novos músicos baianos dos anos 1970-1980 ou os novos músicos baianos dos anos 1970-1980 foram seguidos pelos Doces Bárbaros?
É uma questão difícil de ser respondida. O que sei é que há muitos traços da nova música produzida na Bahia nos anos 1970-1980 e também há muitos traços nas músicas criadas e interpretadas por Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil naquele período.
Maria Bethânia sempre esteve próxima da música produzida no Recôncavo Baiano e das manifestações aproximadas com as matrizes religiosas afro-brasileiras. Não à toa, ela gravou Reconvexo, de Caetano Veloso, e Salve as Folhas, de Ildásio Tavares e Gerônimo, registros artísticos onde se percebem os nítidos traços da música baiana produzida na época.
Caetano Veloso e Gilberto Gil construíram canções fundamentais naquele período como, Marcha da tietagem, Filhos de Gandhi, Afoxé, de Gilberto Gil, e Atrás do trio elétrico e Badauê, de Caetano Veloso. Os dois compositores viveram muitos momentos nos desfiles das agremiações do carnaval da Bahia do período 1970-1980. Já vi Caetano Veloso em cima dos trios do Baiana System e Cortejo Afro. Gilberto Gil já andou muito pelas ruas de Salvador cantando com os Filhos de Gandhi. Gilberto Gil já cantou nos palcos do Ilê Aiyê, e Caetano Veloso foi intérprete de uma música do primeiro disco do Ilê.
Já Gal Costa lançou o icônico disco álbum Plural (RCA, 1990), com músicas como Salvador não inerte (Bobôco e Beto Jamaica), Ladeira do Pelô (Betão), Brilho de beleza (Nego Tenga) e Zanzando (Carlinhos Brown).
Haja fôlego para tanto intercâmbio!
O que sei e vivi foi testemunhar um casamento harmonioso e cheio de criatividade entre os Doces Bárbaros e os artistas do Axé Music.
Até a próxima parada!
Creative Commons License 
Licença Creative Commons
Leia+



Descubra mais sobre Canal EPraxe

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.