Cultura algorítmica, trabalho e educação

Cultura algorítmica, trabalho e educação
Cultura algorítmica, trabalho e educação

Durante o ensino médio, no curso de Técnico em Contabilidade, os professores de Estatística, Matemática Financeira e Análise de Balanço autorizaram os estudantes a usarem máquina de calcular durante os exercícios em sala de aula e nas avaliações.

Lembro que a notícia deixou a turma em alvoroço, pois os estudantes iam se dedicar mais a entender as questões principais daquelas áreas do saber, e também estavam aliviados, pois teriam menos possibilidades de errar durante os exames de avaliação.

Na época eu não tinha condições de ter uma máquina de calcular, muito menos uma máquina de calcular financeira, e continuei estudando, buscando desenvolver mais habilidades de cálculo mental e lógica formal para dar conta de trabalhar naquelas áreas do saber tão valiosas para o ofício de contabilista.

Aquela experiência foi um dos momentos mais significativos da minha vida, pois, após dois anos aprendendo os fundamentos daqueles componentes curriculares, sentia, cada vez mais, condições de ser um profissional da área contábil.

Logo que concluí o ensino médio, fui em busca de um trabalho na área de contabilidade, pesquisando ofertas de emprego nos antigos classificados de jornal. Acordava cedo, ia à banca de revistas, comprava um jornal, pesquisava nos classificados, adaptava o currículo a cada entrevista a ser realizada, até que um dia consegui um emprego como auxiliar de contabilidade, ajudando o setor a registrar e analisar os fatos contábeis de três empresas simultaneamente.

Na empresa em que trabalhei como auxiliar de contabilidade, os colegas achavam que eu já tinha experiência na atividade, pois aprendia as nuances da área com certa facilidade, mas isto ocorreu porque eu criei em casa, durante o ensino médio, uma empresa fictícia e simulei todo o processo contábil de um empreendimento comercial. Eu não tinha máquina de datilografia, não tinha máquina de calcular, muito menos acesso às máquinas de registro contábil da época, que eram acessíveis somente para grandes empresas. Tudo foi organizado com lápis e papel. Pensar sobre as ciências contábeis assim, criando situações próximas do real, foi preponderante para a minha formação na época.

O mundo mudou e toda vez que surgia uma nova tecnologia no trabalho, eu fazia questão de aprender a interagir, pensando em meu desenvolvimento educacional e na minha formação como trabalhador.

Foi assim que aprendi a usar planilhas, programas de apresentação, processadores de texto e banco de dados para atividades administrativas. Foi assim que criei uma planilha exclusiva para cálculos financeiros, optando por não comprar a máquina de cálculos financeiros que era o bem de consumo de trabalho da época mais cobiçado e que custava o preço de um computador comparado aos valores de hoje. Foi assim que criei um simulador de pagamento de prestações em uma planilha para apoio à negociação de dívidas, em uma empresa de finanças, e pude contribuir para a melhoria da vida financeira e patrimonial de muitas pessoas.

Que esta história tem que ver com trabalho, educação e cultura algorítmica? E o que é cultura algorítmica?

Bem, cultura algorítmica é o ato de humanos delegarem a objetos, sistemas e ambientes técnicos afazeres que eles, humanos, poderiam fazer. Assim, em um caixa de supermercado, por segurança, o profissional deixa de realizar cálculos mentais para dar o troco de uma compra, usando o resultado produzido pela máquina registradora; da mesma forma, um auxiliar administrativo, ao terminar um texto, dar comandos para o software fazer a correção final da redação, em vez de ele mesmo realizar a revisão observando cada detalhe do texto produzido; ou mesmo um redator pode dar comandos via prompts para que uma aplicação de inteligência artificial generativa crie um texto inteiro.

O que se denomina hoje de cultura algorítmica, quer dizer este ato humano de outorga técnica para melhorar a convivência na Terra, sempre esteve presente na humanidade. Desde o momento em que um humano procurou fazer menos esforço muscular para cortar algum objeto e criou uma faca, por exemplo, ou quando criou objetos para se movimentar com mais velocidade, como bicicletas, carroças e carros, até chegar ao nível de criar aviões, helicópteros e paraquedas para se transportar pelo ar. Hoje denominamos esse modo de viver de cultura algorítmica justamente porque as tecnologias utilizadas usam hardware e software que interferem na forma como agimos e como pensamos, e o ato de pensar é uma dimensão vital para a existência humana.

A cultura algorítmica não é um mal em si, pois é mais do que necessário diminuirmos esforços físicos e mentais na realização de alguma atividade; o problema é quando, na ânsia de fazer o mais rápido possível, o humano deixa de pensar sobre o que está realizando e outorga aos meios técnicos a tarefa de realizar os processos no lugar dele, o próprio humano.

Vamos provocar um pouco o leitor: você aceitaria o diagnóstico de um médico sobre uma doença se percebesse que o resultado apresentado foi feito por um artefato técnico sem uma revisão do referido médico? Você moraria numa casa cujo projeto foi assinado por um engenheiro que fez um prompt em um sistema de inteligência artificial generativa, sabendo que o profissional não fez testes exaustivos para a validação da obra? Você confiaria em um educador que não sabe fazer um plano de aulas e só usa resultados de prompts como material de suporte para o trabalho? Você aceitaria que o projeto de eletricidade de sua casa fosse feito por um profissional que usa prompts e tem pouco domínio de construção de estruturas elétricas?

A cultura algorítmica vai influenciar diretamente na forma como nos educamos e nos realizamos no trabalho. A cultura algorítmica faz parte do cotidiano a ponto de nem notarmos que estamos o tempo todo buscando algum modo de facilitar a nossa vida usando um objeto, sistema ou ambiente técnico, mas é necessário estar atento, pois a responsabilidade sobre o que fazemos é sempre nossa, mesmo quando o resultado foi produzido por uma tecnologia automatizada.

Até a próxima!

…..

Para saber+

  • A evolução das máquinas e a liberação das energias humanas, em: O conceito de tecnologia, p. 80-89, de Álvaro Vieira Pinto
  • Algorithmic Culture, de Ted Striphas

…..

…..

…..

…..

Algoritmos Aprendizagem Artes Axé Music Bahia Cinema Ciência Comunicação Conhecimento Criatividade Cultura Design Diversidade Educação EPraxe Escrita Filosofia História Inteligência Artificial Internet Lazer Leitura Linguagens Literatura Mercado Música Noam Chomsky Organização Pandemia Paulo Freire Pedagogia Pensamento Pesquisa Podcast Poesia Política Práxis Raymond Williams Resenhas Sociedade Tecnologia Tecnologias Trabalho Vida Cotidiana Vilém Flusser


Descubra mais sobre EPraxe - Cultura & Cotidiano

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *