A praça não é mais do povo e nem o céu é dos pássaros

A praça não é mais do povo e nem o céu é dos pássaros
A praça não é mais do povo e nem o céu é dos pássaros

A poesia refinada de Caetano Veloso nos anos 1980 e 1990, expressa nos versos “A praça Castro Alves é do povo – Como o céu é do avião”, foi um convite para que os brasileiros ressignificassem o sentido de utilização da praça como um bem público disponível para o povo.

Moraes Moreira também mobilizou o povo a ocupar a praça pública em versos como “Nossa dor, meu amor, é que balança – Nossa dor o chão da praça”, reafirmando a praça como espaço público de festa e de alegria.

Concomitante a essas vozes de tom poético, outras forças políticas começaram a tomar conta do espaço público das praças e de outros logradouros os transformando em propriedades privadas. 

Como exemplo, a administração municipal de Salvador instalou cercas nas praças públicas, para que as pessoas em situação de vulnerabilidade social não dormissem mais naqueles lugares, instaurando a prática de trancar os logradouros públicos à noite e só os abrir durante o dia. Parece absurdo que isto tenha acontecido, mas aconteceu.

Uma outra prática para afastar a população dos logradouros públicos foi derrubar todas as barracas da orla marítima de Salvador, afastando dali os comerciantes pobres daquele lugar.

Se nas décadas de 1980 e 1990 as praias de Salvador eram cheias de gente do povo, aos poucos, nas décadas seguintes, os espaços na beira-mar da capital soteropolitana foram cedendo lugar a vazios estratégicos durante o final de semana, ocasionados pela poluição crescente que toma conta das grandes cidades e afeta toda a orla marítima também. Junto com a retirada das barracas que vendiam produtos a preços populares, impera hoje a presença de grandes empreendimentos, que, sob a forma de comodatos, administram a orla da primeira capital do país.

Voltando às praças públicas, um novo movimento iniciado pelo Estado municipal tem acontecido com recorrência: o de reformar praças e as transformar em espaços comerciais, inserindo nas áreas livres equipamentos de propriedade de entes privados. Ou seja, em vez de praças habitadas de plantas de toda espécie, estruturas concretas são levantadas.

Assim, em vez de bancos para as pessoas poderem se sentar, as administrações municipais criam quiosques para comerciantes venderem produtos a preços exorbitantes; em vez de espaços abertos para as crianças correrem, as administrações municipais preenchem os referidos espaços com cadeiras, que pertencem aos comerciantes, restringindo cada vez mais a possibilidade de a gente do povo ocupar os espaços que antes eram públicos.

São os novos tempos, em que versos como os de Caetano Veloso e Moraes Moreira perdem espaço para discursos em forma de decretos, leis e resoluções que impõem novos modos de ocupação do que antes era público.

Desta forma, a praça já não é mais do povo nem o céu é dos pássaros. Só ficaram os aviões a perambular nos céus, enquanto as armações de concreto invadem as praças, usurpando o que antes era do povo.

É bom frisar que deveríamos escrever aqui simplesmente a palavra “logradouro” e não “logradouro público”, que é uma redundância! Mas a apropriação do que é público é tamanha que a redundância se torna necessária como forma de afirmação de pertencimento a algo que seja acessível a todos.

Até a próxima!

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Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.

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