Entre autoria humana e o processamento computacional

Autoria Humana e Processamento Computacional
Autoria Humana e Processamento Computacional

Precisei fazer a operação matemática  abaixo e recorri a um aplicativo de cálculo 

185 X 12 = 2.220

Pergunta: posso usar o cálculo acima em textos autorais ou devo dá o crédito ao aplicativo de cálculo?

E se eu fizesse um gráfico de barras com base nos dados abaixo? O gráfico é de minha autoria ou eu teria de dar crédito ao aplicativo de planilha que formatou a imagem para mim, já que não fiz o gráfico de forma inteiramente manual?

Tabela 1:
Produto	Valor
Carro1		12 000,00
Carro2		15 000,00
Carro3		13 500,00
Carro4		22 000,00

A partir da tabela, criei com a ajuda de um aplicativo de planilha o gráfico abaixo. Com o gráfico pronto, alterei o título e mudei cores das barras.

Tabela de Carros
Tabela de Carros

De quem é a autoria do gráfico acima, se foi o algoritmo que realizou a maior parte da materialização da ilustração?

Depois, por curiosidade, fiz a seguinte tradução:

Do português: 

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura

Para o inglês:

Soft water on hard stone so much hits until it pierces

Toda vez que preciso fazer tradução de um resumo de artigo, por exemplo, faço a tradução manual primeiro, depois traduzo por meio de algum aplicativo; por último, reviso o texto traduzido manualmente, com base na solução algorítmica e na minha experiência com o conteúdo em tradução.

Seria necessário eu dar o crédito ao aplicativo de tradução também?

Como fica a questão da autoria com o advento da inteligência artificial ChatGPT que produz pequenos textos como  atas, relatórios e poesias, constrói imagens e interage com linguagem de programação?

Teremos de dar crédito a esses objetos técnicos? E a nossa cultura algorítmica de cada vez mais delegarmos a objetos técnicos a realização de coisas que antes eram feitas por nós humanos? Precisaríamos atribuir autoria também a muitas coisas que fizemos antes com a ajuda desses objetos?

Vai ser preciso acompanhar de perto essas discussões, pois há muito o que aprender com os próximos capítulos da celeuma existente entre a autoria humana e o processamento computacional.

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Howard Becket

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O caráter pedagógico dos desfiles das escolas de samba

O caráter pedagógico dos desfiles das escolas de samba

As escolas de samba têm muito a nos ensinar sobre História, Política e Artes, ao trazer para a sociedade representações sociais do que é ser brasileiro, ora se alinhando ao poder, ora se rebelando contra o estabelecido.

Na contraposição ao estabelecido, essas agremiações revisitam a História, trazendo a público personalidades e acontecimentos sociais que ficaram sublimados nas narrativas oficiais da historiografia global e nacional. 

No carnaval de 2023, a Beija-flor resgatou o Dois de Julho de 1823, na Bahia, como marco da independência do Brasil, ao ressaltar o papel de mulheres, negros, pobres e indígenas na luta em defesa da autonomia política do país. 

A Imperatriz Leopoldinense, inspirada na literatura de cordel, reverenciou a história de Lampião, um usurpador para uns, um revolucionário para outros dentro da cultura brasileira.

A Unidos do Viradouro apostou na história de vida de Rosa Maria Egipcíaca, uma personalidade múltipla da história brasileira: mulher negra escravizada, pensadora, meretriz, feiticeira e beata; enfim uma revolucionária para a época em que viveu.

A Unidos da Tijuca trouxe o tema Dança das águas regida por Iemanjá, mergulhando na história da Baía de Todos os Santos, com tudo o que a localização geopolítica tem a nos contar sobre a nação brasileira. Destaque para a presença de Iemanjá, que sempre fora apresentada como entidade de pele branca, na ideologia do sincretismo brasileiro, e agora é ressignificada como mulher negra, de origem afro-brasileira.

A Mangueira trouxe o enredo As Áfricas que a Bahia canta, demonstrando a riqueza da cultura afro advinda da Bahia; já a Acadêmicos do Grande Rio e a Império Serrano fizeram homenagens a grandes artistas do cancioneiro popular, como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz, respectivamente.

A Mocidade Independente dedicou o desfile ao Mestre Vitalino (1909-1963), artesão, ceramista popular e músico, um dos maiores artistas da história da arte do barro no Brasil.

A Salgueiro, com o tema Delírios de um Paraíso Vermelho, discutiu os limites entre o real e o imaginário nos convidando a outros modos de perceber o mundo. Que limites há entre nossa ignorância e nossa sabedoria?

A Mocidade Alegre atravessou o globo para exaltar Yasuke, o primeiro samurai negro da história do Japão, uma história pouco conhecida entre nós brasileiros, mas de relevância para a construção de identidade dos povos de origem africana na contemporaneidade.

Esses discursos de caráter pedagógico precisam ser compartilhados nos ambientes formais de educação, pois nos desafiam à prática da pesquisa como busca constante do saber e nos convidam para o exercício cotidiano da criatividade e da inovação.

Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde [impresso], seção Tempo Presente, Salvador, Bahia,  14 de março de 2023.

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Dora Kaufman

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O que Sherazade tem a nos ensinar sobre comunicação?

O que Sherazade tem a nos ensinar sobre comunicação?

Nos últimos tempos tenho ido a muitas mesas de discussões sobre temas de interesse dos assuntos que estou estudando na Universidade e fico impressionado como esses eventos são direcionados para as comunicações discursivas, como assim denominava Vilém Flusser, na obra O mundo codificado.

Para o filósofo da técnica, a comunicação se desenrolava em duas distintas vertentes, a  comunicação discursiva, em que um se pronuncia e traz um conhecimento acabado, enquanto os outros são submetidos a serem meros ouvintes da situação comunicativa. Flusser assinalava que esse tipo de comunicação não produzia conhecimento novo, mas navegava no já conhecido, ou seja, no saber dominado pelo interlocutor-emissor da mensagem. Em contrapartida à comunicação discursiva, Flusser concebia a comunicação dialógica, aquela situação comunicativa do ir e vir, da construção do conhecimento, que não partia das certezas sobre todos e tudo, mas tinha bases na atitude filosófica da dúvida.

E o que se encontra em muitas mesas de discussão é um ritual de monopólio da fala, em que um grupo de pessoas detentoras do conhecimento senta em posição física superior aos demais debatedores, geralmente em um palco, em que uns falam e outros apenas ouvem. Interessante é que muitas dessas mesas são planejadas para que a plateia participe, discuta o tema em questão, mas o que se percebe é uma desobediência ao próprio planejamento da mesa, com o tema sendo consumido pelos palestrantes que não param de falar e invadir o espaço antes reservado para os interlocutores ouvirem também o que a plateia tem a dizer, abrindo possibilidades para a construção de conhecimento no momento mesmo da interação social.

Por exemplo, em uma mesa com duração de duas horas para discussão, o povo falante domina as discussões e não deixa tempo para perguntas, questões, dúvidas e debates. Resultado: menos construção e mais transmissão de conhecimentos do já existentes.

E o que Sherazade tem a nos ensinar sobre esse tipo de situação comunicativa é que os supostos detentores do saber precisam abrir espaço para que os outros falantes se pronunciem. Sherazade foi muito sagaz na forma de comunicar: sabendo que iria morrer, partiu para conversar com o interlocutor, um rei perverso, por meio da contação de histórias. Mas foi uma contação de histórias diferente: em vez de ela derramar todo o conhecimento que tinha sobre o rei malvado, ela foi de gota em gota estabelecendo relações com o algoz, ao mesmo tempo que o provocava a refletir se era necessário acabar com a vida da contadora de história de forma imediata. E isto levou mil e uma noites de conversas e conversas, o que fez com que a cada dia o rei esperasse por mais um dia para a tomada de decisão terminal.

Precisamos, nas mesas de discussão, comunicar menos discursivamente e provocar a plateia a trazer respostas explicitamente situadas sobre o tema em debate, pois a comunicação discursiva se dá muito pela ânsia de quem acha-se detentor de algum saber, e do desejo de expressar, derramar todo o conhecimento sobre o tema sobre a plateia. Nesses momentos, é bom lembrar de Paulo Freire nos alertando sobre a necessidade do diálogo como princípio de comunicação e educação, para que o conhecimento irradie sobre todos os envolvidos na interação verbal.

Foi por meio dos conhecimentos mínimos, contados a cada noite, que Sherazade criou um continuum de comunicação com o rei e, enquanto sobrevivia, conhecia mais o algoz e ia defendendo a cada noite mais um tempo de vida. A contadora de histórias não esgotou a informação em uma só dose, mas foi utilizando o que sabia para conhecer o outro e continuar a comunicação.

É muito difícil estabelecer dialogicidade, como dizia Paulo Freire, ou comunicação dialógica tal qual Vilém Flusser defendia, pois a comunicação discursiva nos dá uma falsa sensação de poder, de domínio e controle sobre o outro, fazendo de nós os interlocutores emissores monopolistas das falas, mas é preciso pensar sobre o quão de conhecimento o interlocutor receptor tem, potencialmente, para expressar nessas referidas mesas. Talvez assim possamos dar novos rumos à conversação e, quem sabe, não possamos transformar as mesas de discussão em processos comunicativos como o da Mil e uma noites, com criação de comunicação em espiral, onde eu aprendo e o outro aprende, eu ensino e o outro ensina também. Neste sentido, Sherazade tem muitos a nos ensinar.

Leituras gostosas para fazer:
♠ O que é comunicação, de Vilém Flusser, em O mundo codificado, p. 84-96
♠ Dialogicidade, de Paulo Freire, em À sombra desta mangueira, p. 74-82
♠ Introdução, de Vilém Flusser, em A dúvida, p. 21-33

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Marcelo Finger

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Pensar faz bem com Rubem Alves

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Olhares sobre a cidade de São Salvador

Olhares sobre a cidade de São Salvador

Reunir uma lituana, um mexicano, um português, um caboverdense, uma francesa e um alemão em uma série televisiva para falar sobre Salvador é algo instigante, ainda mais quando  os estrangeiros não são atores profissionais. Este foi o grande desafio dos organizadores da série Destino: Salvador, ao trazer olhares plurais sobre a cidade secular que carrega em si todo um legado de tradição da cultura africana.

Na série temas como homossexualidade, relações entre pais e filhos, morte, mundo do box e religião se entecruzam, criando seis histórias sobre a natureza humana frente às convivências com o outro. O resultado? Um trabalho leve e gostoso de observar.

Os olhares estrangeiros têm muito a dizer sobre nós próprios, e abrir-se para esses visões externas do mundo sobre nós traz consequências para a forma como vamos reelaborando a nossa cultura e ressignificando a nossa cultura. As histórias de Destino: Salvador tratam do cotidiano de uma cidade cheia de contrastes por meio de situações inusitadas, que vão arrebatando os destinos dos envolvidos e oferecendo outras formas de ver o mundo.

Decidi assistir à série um pouco desconfiado, receoso de encontrar discursos engessados sobre as especificidades da cultura soteropolitana, mas, a cada história, fui descobrindo outras óticas para conhecer e reconhecer a riqueza cultural da capital baiana, frente a histórias de indivíduos que se prestaram a viver e conviver em Salvador. Destino: Salvador é construída no formato de histórias curtas, mediante enredos diversificados, onde a unidade temática se direciona para a formação identitária do que seja Salvador.

A série é composta de seis histórias, com a mediação de um estrangeiro em cada narrativa. No último capítulo há um pequeno relato dos bastidores da série, em que os atores estrangeiros puderam se pronunciar sobre vivências em terras estrangeiras, junto com depoimentos sobre a primeira experiência de seres atores: uma viagem sobre terras estrangeiras.

Até a próxima!


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Os desafios de educar frente às transformações tecnológicas

Os desafios de educar frente às transformações tecnológicas

Nos últimos dias de janeiro de 2023, a mídia brasileira propagou de forma intensa notícias sobre a inteligência artificial ChatGPT, capaz de conversar com os humanos e produzir textos, os quais ficaria difícil identificar quem escreveu a mensagem, se um ente humano ou um objeto técnico. A referida tecnologia foi lançada em novembro de 2022 pela empresa estadunidense OpenAI.

O tom de surpresa sobre o assunto e as iniciativas de curiosidades para testar conversações no sistema de inteligência dão a impressão para a sociedade em geral de que esse tipo de tecnologia surgiu agora e precisamos nos preparar em termos de trabalho, educação, economia e sociabilidade para um mundo que abruptamente se instalou na vida cotidiana. Ora, as soluções tecnológicas de interação linguística produzidas pela referida inteligência artificial vêm sendo testadas e apresentadas para a sociedade há décadas. 

Trata-se em linhas gerais do que no meio tecnocientífico se denomina de Processamento de Linguagem Natural, uma área do saber humano que se utiliza de diversos referenciais das ciências para produzir objetos técnicos capazes de estabelecer comunicação via linguagem humana nas interações entre as pessoas e as máquinas. 

No dia a dia é possível perceber a presença dessas tecnologias, como, por exemplo, na hora em que o cidadão está escrevendo um documento, e a aplicação corrige simultaneamente o texto nos aspectos de ortografia, regência, colocação e concordância. 

Faz algum tempo que existem aplicações que traduzem pequenos textos, com certo apuro técnico, e que não se percebe com tanta facilidade se a tradução foi feita por um humano ou um não humano. Outra situação bem típica são os sistemas de inteligência que leem em voz alta os textos escritos de livros eletrônicos (e-books)

E o que dizer dos sistemas de atendimento eletrônico em sites que tentam compreender o que os humanos desejam em pequenas conversações? Todas essas formas de tecnologias vêm se aprimorando nos últimos 50 anos e são cada vez mais comuns no dia a dia. 

E como ficam educadores, comunicadores, advogados e demais profissionais diante dessa situação tão corriqueira? Ficarão cada dia mais surpresos com as novidades e imobilizados diante dessas invenções que influenciam cada vez mais a vida das pessoas? Serão vítimas das circunstâncias? 

A sociedade precisa reagir a essas mudanças, propondo novas formas de educar o humano para o mundo presente, cada vez mais mediado pelos diversos aparatos técnicos. Educar a sociedade em um mundo imerso em transformações tecnológicas é um desafio do presente e não do futuro.

Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde [impresso], seção Tempo Presente, Salvador, Bahia,  21 de fevereiro de 2023.

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Charles Wright Mills

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Nos tempos dos cartões telefônicos

Nos tempos dos cartões telefônicos

Antes de existir a internet, as conversações a distância eram mais por telefone, mas nem todo mundo podia ter o aparelho em casa e o jeito era usar telefones públicos. E para usar o telefone público a pessoa tinha de comprar um cartão telefônico. Os cartões acompanhavam a gente nas carteiras de documentos e nas bolsas. Antes dos cartões ainda havia as fichas telefônicas, mas não vamos tão longe assim na linha do tempo.

Os cartões vinham com carga única, com uma quantidade de créditos para a pessoa fazer alguns minutos de ligações; após o término da carga, o jeito era comprar outro cartão. Naquele tempo muita gente gostava de colecionar cartões, pois estes traziam ilustrações com temas bem interessantes. As figuras que trago neste post é de um cartão cujo tema era horóscopo, assunto que atiçava o imaginário de muito adolescente, e de adulto também.

Os telefones públicos tinham muita serventia, pois em alguns casos atendiam uma comunidade inteira, tanto para fazer quanto para receber ligação. De certa forma o telefone público potencialmente propiciava um espírito de solidariedade entre os cidadãos, pois quando alguém atendia a ligação em um desses telefones, buscava encontrar o destinatário da ligação, preocupado para que o outro não perdesse a mensagem. Mas não era só de solidariedade que potencialmente os telefones públicos serviam. Muita gente gostava de fazer trote, sem se identificar, ou mesmo fazer ligação a cobrar para economizar com compra de cartão telefônico.

Encontrei o cartão das imagens aqui postadas dentro de um livro que foi lançado em 2001, período já de transição de usos entre telefones fixos e telefones celulares. 

Hoje as pessoas quase não usam mais telefones fixos, e os telefones públicos estão quase desaparecidos, uma mudança de cultura técnica. Cada vez mais a telefonia tem se personalizado, e os smartphones são de usos individuais. São os novos tempos!

Fico feliz por ter vivido todos esses tempos: o tempo em que não havia telefone em casa; o tempo em que usei bastante cartão em telefones públicos; o tempo em que adquiri o primeiro telefone fixo; o tempo em que utilizei o primeiro telefone celular; o contentamento de fazer a primeira ligação por vídeo. E por aí vai.

Em cada tempo aqui relatado, as interações com a telefonia se transformavam, e eu me transformava também. O smartphone hoje fica próximo do meu corpo o tempo inteiro, já não é mais desligado, não lembro mais dos números dos telefones das pessoas conhecidas, pois tudo está guardado na memória daquele objeto técnico.

E os cartões de telefone? Ora, eles fazem parte da boa memória, da saudade, da nostalgia.

Até a próxima!


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