Brevíssima história, mas não tão breve assim

Figura IA
Figura IA

Em tempos de metonímias como a do ChatGPT, é preciso estar informado para não mergulhar em ondas pessimistas de que as coisas têm de ser assim e que o melhor seja esperar para ver o que irá acontecer ou cair em um engodo otimista de que uma técnica milagrosa fará tudo para nós, e o paraíso cibernético se instaurou em nossa vida para sempre. 

É necessário parar, observar a conjuntura, para ver como as estruturas estão se movendo, estudar, estudar, estudar, para não agir de forma precipitada e equivocada, e partir para as ações pertinentes sobre as situações do mundo presente.

Quanto ao pertinente ato de estudar, conforme já propunha Paulo Freire lá na segunda metade do século XX, um bom caminho é a leitura do livro Inteligência Artificial: uma brevíssima introdução , de Margaret Boden. Trata-se de uma abordagem cheia, densa e intensa que se concretiza em pouquíssimas páginas. Do jeito que o tema inteligência artificial é extenso e amplo, a expectativa que se cria é de visitar compêndios de centenas de páginas para um mínimo entendimento do tema.

Mas Boden tem uma forma de expressão leve, sem perder o compromisso de explicitar os aspectos técnicos que um cidadão na condição de leigo precisa entender para estar atualizado sobre o assunto. Boden consegue escrever muito com poucas palavras.

Inteligência Artificial: uma brevíssima introdução traz logo no início uma discussão conceitual sobre os sentidos hoje criados sobre inteligência artificial (IA) de forma a localizar o leitor sobre uma das questões centrais dos modos de existência dos humanos no século XXI. Junto à conceituação há também um breviário histórico sobre o processo de criação de um dos maiores bens culturais que a humanidade já concebeu.

Em seguida ao processo introdutório dos modos de existência da IA, Margaret Boden busca desmistificar algumas ideias sobre a IA que pode levar o cidadão a um endeusamento dessa área do saber. Segue a narrativa abordando as inter-relações entre a IA e a tríade linguagem, criatividade e emoção, ao qual a autora aprofunda a temática por meio da discussão de especificidades técnicas sobre a IA quanto a este objeto técnico está próximo de alcançar e superar as capacidades humanas (físicas, cognitivas, sociais, artísticas e emocionais).

Após as preleções sobre IA, linguagem, criatividade e emoção, a autora discorre sobre aspectos mais aprofundados sobre a cognição humana e a cognição maquínica, tecendo comentários sobre Redes Neurais Artificiais, segue a jornada tentando esclarecer sobre vida artificial e robôs e formula uma questão: “Mas será que isso é inteligência de verdade?”. Quer saber a resposta, leitor? Vá às fontes, leia o livro! 

O último capítulo trata da singularidade, um controvertido e polêmico assunto na área de IA que precisamos estudar com muito apuro, principalmente no contexto deste ano de 2013, em que o assunto Inteligência Artificial Generativa foi uma das principais pautas de notícias nas mídias em termos globais.

No pós-texto há um quadro de referências bibliográficas por capítulo, o que facilita o aprofundamento sobre o tema para as pessoas que queiram se inteirar mais sobre o assunto. Há também um quadro chamado de Leituras Complementares, que pode ajudar os interessados em IA a progredirem na aprendizagem do tema e ir além de conhecimentos propedêuticos. A última seção do livro é um índice remissivo que é sempre muito bem-vindo neste tipo de obra.

Sobre a autora

Depois que terminei a leitura ainda deixei o livro na mesa de leitura, junto com outras obras ainda não lidas, pois sei que ainda voltarei para muitas releituras sobre este tema tão intrigante como é o da inteligência artificial.

Margaret Boden é professora da área de ciências cognitivas e pesquisa inteligência artificial. Ela nasceu no Reino Unido e atualmente trabalha na Universidade de Sussex.

Dados da obra

O que é? Inteligência Artificial: uma brevíssima introdução {livro}

Quem é a autora? Margaret A. Boden

Quem produziu? Editora Unesp

Quando foi lançado? 2020 (2018)

Quem traduziu? Fernando Santos


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Pensar faz bem com Pedro Demo

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A tríade educação, extensão e pesquisa na Universidade

A tríade Educação, Pesquisa e Extensão
A tríade Educação, Pesquisa e Extensão

O 11 de setembro de 2023 foi um dia de celebrar a educação, pois o Instituto Paulo Freire (IPT) lançou o e-book Projeto de Extensão Universitária em Movimento. O evento aconteceu às 19 horas, foi transmitido pelo Canal do YouTube da iPF.Tv e contou com a participação dos docentes e autores Andréa Alves, Andréa Kochhan, Cleonilton Souza, Janaina Abreu, Jessica Visotsky, Lúcia Guerra, Nazaré Zenaide, Mônica Firmida, Paulo Padilha, Pedro Demo, Rodrigo Mioto, Sonia Santos e Sylvia Valenzuela. Olha meu nome aí em cima, uma satisfação!

Quem não assistiu ao evento, poderá acessar a gravação no canal do IPF. O e-book também está disponível para ser baixado no Repositório do IPF.

O educador Paulo Freire já se preocupava com a relação entre as universidades públicas e a sociedade lá nos idos de 1960. Segundo o professor Moacir Gadotti, o e-book se “situa num movimento de retomada desse sonho de Paulo Freire com reflexões teóricas e relatos de experiências em torno de uma extensão universitária emancipante, crítica e popular. Uma demonstração de que esse sonho continua vivo nas práticas de educação popular, dentro e fora da universidade, construindo novos sentidos para a educação como um todo.” e cabe a nós educadores e cidadãos em geral contribuir para que o processo de articulação da pesquisa, da educação e da extensão em prol da promoção da cidadania avance, aproximando a sociedade brasileira das universidades públicas.

A minha participação no Projeto resultou na produção artigo intitulado Polêmicas contemporâneas: pesquisa, extensão e educação durante a pandemia da Covid-19. Para o leitor ter um gostinho do que foi relatado no artigo, transcrevo abaixo o resumo e a base bibliográfica do trabalho realizado. 

Resumo do Artigo

O trabalho visa contribuir para a sistematização de experiências em atividades acadêmicas de pesquisa, extensão e educação no Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC), na Faculdade Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no período de 2020 a 2023, em ações relacionadas à pandemia do coronavírus no Brasil. A narrativa se pautou na abordagem epistêmico-metodológica da Sistematização de Experiências a partir dos estudos de Oscar Jara Holliday (2006). O relato de experiências dá indicações de um campo aberto a ser explorado quanto às interlocuções entre instituições educacionais e sociedade em prol da formação humana.

Base bibliográfica

AGÊNCIA SENADO. Desinformação e fake news são entraves no combate à pandemia, aponta debate. Agência Senado. Disponível em:

<https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/07/05/desinformacao-e-fakenews-sao-entrave-no-combate-a-pandemia-aponta-debate&gt;. Acesso em: 28 mar. 2023.

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? 6. ed. São Paulo, SP: Paz & Terra, 1982.

HOLLIDAY, Oscar. Para sistematizar experiências. Trad. Maria Viviana RESENDE. Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente, 2006.

INSTITUTO PAULO FREIRE. Projeto Extensão Universitária em Movimento (Preum). Curricularização da Extensão Universitária – A extensão-pesquisa-ensino-gestão-cultura-comunicação: reflexões aproximativas, Encontro 5/7, ministrado por Paulo Roberto Padilha, Andréa Kochhann, Renato Hilário dos Reis e Roberto Gurgel. São Paulo, Instituto Paulo Freire/UniFreire, 2022.

KIEL, Ana Cristina; ASCHER, Petra. Apresentação. In: HOLLIDAY, Oscar (Ed.). Para sistematizar experiências. Trad. Maria Viviana RESENDE. Brasília, DF: BRASIL: Ministério do Meio Ambiente, 2006.

NETTO, José Paulo; FALCÃO, Maria do Carmo. Cotidiano: conhecimento e crítica. São Paulo, SP: Cortez, 1987.

PRETTO, Nelson. Polêmicas Contemporâneas. Disponível em:

<https://blog.ufba.br/polemicas/&gt;. Acesso em: 12 ago. 2022a.

PRETTO, Nelson De Luca. Polêmicas Contemporâneas: formando professores ativistas comprometidos com a sociedade. Revista Observatório, v. 3, p. 32-55, 2017.

PRETTO, Nelson; BONILLA, Maria Helena; SENA, Ivânia. Educação em tempos de pandemia: reflexões sobre as implicações do isolamento físico imposto pela COVID-19. Salvador, BA: Edição do Autor, 2020. Disponível em: <https://blog.ufba.br/gec/files/2020/05/GEC_livro_final_imprensa.pdf&gt;. Acesso em: 18 ago. 2022.

PRETTO, Nelson. Tópicos Especiais em Educação: Educação e Pandemia [Universidade Federal da Bahia]. In: Salvador, Bahia: [s.n.]. Disponível em: <https://ava.ufba.br/&gt;. Acesso em: 1 nov. 2022b.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A cruel pedagogia do vírus. São Paulo, SP: Boitempo, 2020.

THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 18. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

THIOLLENT, Michel; ARAÚJO FILHO, Targino. Diálogos entre Michel Thiollent e Targino de Araújo Filho Sobre os Seminários de Metodologia de Projetos de Extensão (Sempe) realizados entre 1996 e 2013, p. 15-27, in Extensão Universitária: concepções e reflexões metodológicas. Michel Thiollent, Simone Imperatore, Sonia Regina Mendes dos Santos (organizadores) – Curitiba: CRV, 2022. Disponível em https://www.editoracrv.com.br/produtos/detalhes/37076-extensao-universitariaconcepcoes-e-reflexoes-metodologicas. Acesso em 27 jul. 2022.


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Pensar faz bem com Jean Foucambert

Pensar bem com Jean Foucambert
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Dezesseis anos do EPraxe

EPraxe - 16 anos
EPraxe – 16 anos

No final de julho deste ano, resolvi fazer um texto pelos 16 anos do EPraxe, pois escrever na internet, fora das mídias sociais digitais, demanda muita perseverança, uma vez que construir conteúdos sem impulsionamentos automáticos é como gritar no meio de uma multidão sem um alto falante, onde todos falam e ninguém escuta ninguém.  Ainda mais que a divulgação do texto no EPraxe é sempre orgânica, no corpo a corpo, boca a boca, com baixa mediação de algoritmos. 

Necessário desta forma agradecer aos leitores que continuam firmes em acessar os textos no EPraxe. Para nós, saber da existência desses leitores é uma grande satisfação. 

Para o leitor ter uma ideia de nosso fluxo de leitores, alcançamos no dia 31/07/2023 a quantidade de 5.394 visualizações nos últimos quatro anos, período em que mudamos de plataforma técnica, saindo de uma solução tecnológica grátis para uma solução alugada. É só agradecimento e compromisso de pesquisar e escrever sobre coisas da vida cotidiana a fim de tornar as manhãs das segundas-feiras dos leitores mais prazerosas.

Em comemoração ao aniversário, EPraxe sugere a  leitura dos textos abaixo escritos no período 2020-2023. 

***

Memórias 2020-2023 EPraxe 

2023 – Independência do Brasil: entre príncipes e caboclos

2022 – Carlos Drummond: entre o rápido e o divagar

2021 – Olhos cheios de vida

2020 – A reação de mãe Netinha

***

E que venham mais quatro anos para que cheguemos aos 20 anos de EPraxe renovados de vitalidade.

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Douglas Rushkoff

Douglas Rushkoff - Pensamento
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A jornada ancestral em Bela Gil

Bela Gil ancestral
Bela Gil ancestral

É sublime ver Bela Gil dançando em um dos shows do documentário Viajando com os Gil. É sublime porque é ancestral. É sublime porque são movimentos que até hoje vivem dentro dos corpos negros, embelezados pelos movimento em sintonia com a História e o transcendental.

Mas Bela não é só dança, ela cozinha, cozinha respeitando o mundo de todos os seres que povoam este lugar chamado Terra. Ela também é uma pessoa curiosa e busca o tempo todo descobrir-se dentro da cultura brasileira.

E um desses registros de descobertas é o documentário Belas Raízes, uma jornada ancestral, que retrata a jornada de recuperação das tradições no tempo presente, ressignificadas pelos milhares de cidadãos desconhecidos espalhados Brasil afora.

A jornada de Bela começa na Bahia, onde a menina curiosa vai atrás dos gestos da capoeira, um ato cultural de organização e criatividade, principalmente quando ela explora a resistência das mulheres em ação cultural, que é música, é dança, é luta e é educação.

A viagem continua pelo cerrado goiano, mexendo novamente com as coisas do corpo, no meio dos Kalungas e os rituais dos banhos e dos sabonetes.

Mas Bela não se contenta e vai livre e solta saber os segredos das jiboias nas artes produzidas na cultura do povo da aldeia Mucuripe, no território Huni Kuin.

O trabalho corpo-espiritual continua com a feitura das panelas de barro, em Goiabeiras, Espírito Santo. Haja fôlego! E fôlego é o que não falta em Bela, quando ela chega ao Recife à procura das oferendas sustentáveis, feitas pelo pessoal de santo do Candomblé, em um momento mágico de união de religião, humanos e natureza: que belo exemplo.

Bela não para, é menina traquina e vai bisbilhotar o que fazem as parteiras Kalunga, em Goiás. O que a medicina ancestral tem a nos ensinar?

O compromisso de Bela com a Natureza é intenso. Em busca de saúde integral, a menina sapeca visita o assentamento Contestado, Paraná, para observar o que as pessoas podem fazer para reformar a vida agrária no país afora.

Em todas as visitas, Bela Gil assume o prazeroso papel de aprendiz. No Território Tenondé Porã, em São Paulo, Bela se reeduca com os rituais da agricultura Guarani, e se integra à cultura, que no fundo está dentro de todos nós.

E com a mesma inabalável força das abelhas para o trabalho, Bela Gil, envereda no universo da produção de mel em Goiás e, é claro, com todo o respeito ao meio ambiente.

Mas é em Brasília que ela se envolve com os segredos da construção dos – Florais da Amazônia, enfatizando o quanto a medicina da natureza pode contribuir para a construção de um mundo melhor.

No Paraná Bela penetra mais fundo nos poderes dos óleos essenciais na produção de aromas, aromas para nos fortalecer e nos tornar mais sublimes, como a dança que anunciei que Bela é capaz de realizar.

É na região Norte, novamente no Acre, que Bela Gil busca a cura pelas plantas, conhecimentos ancestrais que há muito deixamos sublimados em nossa mente.

Bela Gil fecha o ciclo de vivências entrando na dança, em movimentos sincopados do Jongo, no Rio de Janeiro.Sob conhecimentos tradicionais, resistências e modos outros de viver, Bela Gil vai desvelando o Brasil e descobrindo a si própria em uma jornada de corpo, mente e espírito, atrelada ao que os outros têm a nos ensinar.

Até a próxima!


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O que é? Belas Raízes {documentário}
Quem narrou? Bela Gil
Onde assisto? Prime Vídeo
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Pensar faz bem! – série Warrior

Warrior - Pensamento
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Os 90 anos de Eduardo Coutinho

Os 90 anos de Eduardo Coutinho
Os 90 anos de Eduardo Coutinho

Para quem se interessa por documentários, a plataforma Itaú Cultural (IOS ou Android) fez uma homenagem aos 90 anos de Eduardo Coutinho, caso ele estivesse vivo. O cineasta nasceu em 11 de maio de 1933 e faleceu em 2 de fevereiro de 2014.

Coutinho é considerado um dos maiores cineastas brasileiros de documentários. Ele consegue construir uma narrativa que articula ficção e não ficção que cativa o espectador, contando histórias sobre a vida cotidiana brasileira. 

Na homenagem é possível assistir a seis significativos filmes do autor:

. Jogo de Cena (Rio de Janeiro, 2007, 105 mim), onde mulheres narram as próprias experiências de vida. Um diferencial deste documentário é a participação de atrizes brasileiras que encenam algumas das entrevistas;

. O fio da memória (Rio de Janeiro, 1991, 120 min), um olhar sobre a história da escravidão no Brasil, entrecruzando o passado e o presente;

. Edifício Master (Rio de Janeiro, 2002, 110 min), com depoimentos de moradores de um condomínio de uma cidade grande;

. Cabra marcado para morrer (Pernambuco, 1984, 120 min): por meio da história de um camponês, a narrativa conta também um pouco da história brasileira durante o período da ditadura econômico-militar;

. Santo Forte (Rio de Janeiro, 1999, 82 min): uma viagem pelas formas de manifestações religiosas no Brasil;

. Peões (São Paulo, 2004, 85 min): narrativa sobre a vida de trabalhadores migrantes no Brasil;

Se você aprecia as coisas da vida cotidiana e a forma como as pessoas da cultura comum constroem a própria história , visitar as obras de Eduardo Coutinho pode ser uma experiência significativa. 

Se aprecia boas entrevistas, terá oportunidade de conhecer as habilidades desse grande cineasta de fazer as pessoas narrarem histórias, soltas e leves, sendo elas próprias.

As obras de Coutinho são análises histórico-sociais sem ele ser cientista social; ensaios culturais sem ele ser antropólogo, psicanalistas sem ele ser um psicanalista, uma fonte de deleite e aprendizagem.

Caso você deseje mais informações sobre Eduardo Coutinho, leia o artigo publicado na Le Diplomatique Brasil em homenagem aos 90 anos do cineasta brasileiro.

Até a próxima!

Descubra um pouco de Eduardo Coutinho por você mesmo


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Pensar com Brian Davies

Pensar com Brian Davies
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Todo sujo de graxa

Flor Graxa (Hibisco)
Flor Graxa (Hibisco)

Ainda criança, antes de ir para uma escola de educação formal, aprendi as primeiras coisas da escrita com as professoras que tinham escola dentro de casa. Quando não estava na escola, gostava de ir para a casa da minha avó para brincar com os meus primeiros que lá moravam. Era uma sensação tão boa quando minha mãe anunciava que a gente iria passar o dia na casa de minha avó.

No início minha mãe nos levava até a casa de nossa avó e depois voltava para casa. Mas com o tempo ela foi nos ensinando a atravessar a pista da BR 324 para que aos poucos a gente pudesse ter autonomia de nos locomover. O movimento era assim: ela ia até a pista e atravessava a pista segurando a minha mão e a de minha irmã. Tempos depois, ela ia até a margem da BR com a gente, esperava não vir nenhum carro no horizonte da alta estrada e orientava para que atravessássemos a pista de mãos dadas. Na volta, a gente chegava na frente da BR e ficava esperando ela aparecer na janela para vir nos buscar. Certo dia, de ousados, atravessamos a pista na volta e ela levou o maior susto. Procuramos consolá-la informando que seguimos todas as orientações que ela havia nos ensinado. Naquele tempo a BR 324 era muito vazia, pois pouca gente viajava de carro; nos domingos, era um ermo só. Tudo era solidão naquele asfalto e parecia que todo mundo resolvera descansar no mesmo tempo.

Mas tão gostoso quanto chegar à casa da avó era curtir o caminho que levava nossa casa até o destino, no momento em que a gente passava na frente da Escola Reitor Miguel Calmon, administrada pelo Serviço Social da Indústria (Sesi). No prédio havia uma cerca de grades de ferros resistentes, que dava a impressão de que quem estivesse fora da escola nunca poderia lá entrar. As grades eram ornamentadas de várias plantas, mas a planta que mais chamava atenção era a Graxa. Aquelas folhas verdes que rodeavam flores vermelhas eram muito significativas para mim. Aqueles ornamentos significavam que um dia eu estaria dentro da escola, brincando pelos corredores, jogando bola, correndo no parque. Aquele realmente era o ponto central do passeio, era o sonho de mudar de vida.

Como menino curioso, eu tocava nas flores, tirava umas pétalas e, às vezes, levava algumas para casa. Minha mãe ficava irritada, pois eu chegava em casa todo sujo dos resíduos das graxas e aqueles pozinhos eram difíceis de tirar. Eu nem me importava com as reclamações, o que queria mesmo era me sentir embriagado com o colorido daquelas plantas.

Estudei oito anos no Sesi, fiquei adolescente e fui esquecendo daqueles momentos tão pueris. Segui por outros caminhos, bem distantes da beleza daquela planta maravilhosa.

Anos mais tarde, em um supermercado, deparei com um chá avermelhado, cujo nome era hibisco. Analisei o rótulo e resolvi levar para casa. Tomei o chá e me identifiquei muito com aquele sabor. Passei a pesquisar mais sobre aquela planta e descobri que o  hibisco na verdade era a própria graxa. Aquilo foi uma alegria para mim e uma volta ao passado, ao tempo de liberdade e descoberta das coisas boas da vida. Procurei nas ruas e avenidas perto de casa e não encontrava mais a graxa. No lugar dela a sociedade havia adotado outras plantas para ornamentar as praças e frentes de casas e prédios. Dias desses indo a pé a um supermercado da vizinhança, vi um pé de graxa. Fiquei surpreso com o acontecimento e pus a tirar fotos daquela relíquia.

Quanto ao chá, bebo com frequência, é gostoso mesmo, principalmente quando a gente adiciona um pouco de limão. Dizem que o hibisco tem muitas propriedades nutritivas e que proporciona muitos benefícios para a saúde das pessoas. O que posso testemunhar aqui é somente o sabor e a beleza de uma flor que muitas vezes passa despercebida na vida cotidiana.

Precisava fazer outros registros sobre a graxa, além da fotografia, e resolvi escrever estas memórias para compartilhar com você, leitor. E quem quiser que conte outra.

Até a próxima!


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Pensar com Álvaro Vieira Pinto

Pensar com Álvaro Vieira Pinto
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