Educação no contexto das tecnologias

Educação no contexto das tecnologias
Educação no contexto das tecnologias

Em 27 jan. 2021 participei de um bate-papo sobre tecnologias no canal YouTube Rodas de Conversa, organizado por Sara Sanches.

Repassamos para os leitores do EPraxe o material escrito que deu origem à fala no Evento. O tema que abordei foi Educação e Tecnologias no âmbito do trabalho. Espero que gostem.

Minuta do discurso escrito Educação no contexto das tecnologias
Abertura

Boa noite. Gostaria de agradecer à presença de vocês e espero compartilhar informações relevantes com todos. Um agradecimento especial a Sara pela organização deste tipo de evento tão necessário e aos parceiros deste encontro, Alison e Sephora.

Esta fala tem origem em uma pessoa cuja formação é de educador. Falaremos sobre educação no contexto das tecnologias focada no mundo do trabalho. Vamos lá?

Ligados no aqui e o agora

Em 2009 apresentei um trabalho de conclusão de curso na área de Segurança da Informação em Santa Catarina. Na época a apresentação foi feita por live, pois a banca examinadora estava em Florianópolis e o meu orientador estava em Salvador. Isto foi há 11 anos. 

Argumento aqui que as tecnologias relevantes aparecem, e a gente só percebe quando situações inusitadas acontecem, como o que ocorreu com a pandemia em que muita gente teve de aprender a organizar lives e utilizarem tecnologias para condução de eventos on-line

Na prática não houve aparecimento de grandes novidades tecnológicas neste período de pandemia. Trago aqui uma lista de serviços alicerçados por tecnologias, com as respectivas datas de lançamento para que tenhamos uma ideia da situação: Google Meet: 2017, Moodle: 2002, Skype: 2003, Google Classroom: 2014, Zoom: 2011, Google Buscador: 1998, Facebook: 2004, Twitter: 2006, WordPress: 2003.

A plataforma mais recente é o Google Meet que já vai completar quatro anos de lançada. Por isto é vital que nos perguntemos quanto à nossa educação: onde estamos em termos de tecnologias? O que sabemos sobre tecnologias é relevante?

Em 2001 o estudioso de informação Marc Prensky lançou um artigo que ficou bem conhecido no Brasil. Ele defendia a ideia a respeito de nativos versus imigrantes digitais. Para ele as pessoas que nasceram após o lançamento da Internet tinham mais capacidade de interagir na cultura digital. Em 2009, o mesmo Prensky lançou outro artigo ao qual ele revia as ideias contidas no artigo de 2001 e já defendia a concepção de Sabedoria Digital. Naquele momento Prensky já argumentava que não haveria mais sentido defender a dicotomia entre imigrantes e nativos digitais, pois as pessoas já estavam acostumadas a interagir na cultura digital havia quase duas décadas.

Só que no Brasil ainda há muitos influenciadores que utilizam esse feitiche para separar os que sabem dos que não sabem interagir na cultura digital, mesmo depois do reposicionamento de Marc Prensky a respeito da questão.

Precisamos pensar sobre essas coisas!

A necessidade da aprendizagem em grupo

Um fator preponderante na educação em tecnologias diz respeito à nossa jornada profissional dentro das empresas.

A gente precisa se aproximar de empresas que sejam educadoras, instituições que tenham práticas cotidianas voltadas para a educação dos funcionários. Empresas que tenham por objetivo desenvolver profissionais que não se eduquem por meio de aprendizagens mecânicas: essas aprendizagens para memorização, para passar em processos seletivos ou encher os currículos de cursos. 

Empresas educadoras que se comprometam com aprendizagens significativas, dessas em que a gente consegue raciocinar e resolver problemas, dessas que estimulam a nossa criatividade, dessas aprendizagens que dão sentido ao mundo do trabalho e favorecem o nosso desenvolvimento como pessoa e como cidadão.

E para aprender significativamente é necessário a gente desenvolver o espírito crítico, no sentido de saber questionar o que precisa ser melhorado e apoiar o que está dando certo. É necessário também desenvolver a capacidade de acolher feedbacks quando estes são construtivos.

Desenvolver o espírito crítico é se educar para  a emancipação e a autonomia. Autonomia com solidariedade, pois é necessário que uns ajudem os outros, para que haja crescimento de todos.

É preciso também que o ambiente educacional favoreça uma dinâmica dialético-dialógica. Quer dizer, as pessoas precisam pensar além dos limites da lógica formal para se aproximarem da realidade cotidiana, que é imprecisa, incerta e imponderável. Elas precisam pensar dialogicamente para que estabeleçam relações comunicativas propiciadoras de laços sociais em que o Eu e o Outro se manifestem de forma horizontal, onde os turnos dinâmicos de falas e escritas, de escutas e leituras sejam produzidos tanto pelo Eu quanto pelo Outro. 

Tudo isto não ocorre se não levarmos em conta as relações de afetos. As pessoas têm emoções e elas precisam, dentro do possível, externar o que sentem. Elas precisam dizer como os afetos interferem na vida delas nas relações de trabalho.

Então, quando o assunto é educação empresarial, precisamos pensar em educação como processo cultural, como um processo de existência: uma educação não prescritiva. Disto resulta que o ato de educar nas empresas precisa ser trabalhado a partir de algum referencial filosófico: “Aonde queremos chegar?”, “Que tipo de ser humano almejamos desenvolver em nossa empresa?” Estas são perguntas fundamentais que todo gestor deveria fazer a si próprio. E quando a gente reflete sobre nossa existência, a gente está filosofando.

O mundo e as tecnologias

Quanto às tecnologias ligadas à educação, a gente precisa estar atento aos movimentos culturais do desenvolvimento da técnica pelos quais estamos passando. As dinâmicas culturais do século XXI estão calcadas em pilares como: códigos, dados, coisas e conexões. Vejam bem! Eu não disse pilares tecnológicos. Eu disse pilares culturais, pois hoje a humanidade usa cotidianamente os algoritmos, o big data e a internet das coisas como regentes da vida social, e precisamos aprender a lidar com tudo isto e utilizá-los da melhor maneira para o bem da humanidade.

É aqui que entram as empresas educadoras, que têm como propósito elevar o nível de formação dos trabalhadores. São empresas em que a cultura organizacional está embreada de educação, onde os espaços de trabalho são espontaneamente lugares de Aprendizagem Significativa.

O pilar que aqui denominamos coisas é a tomada de consciência de que o homem não é centro do mundo, ele não está só. Ele é um dos elementos do ecossistema no Universo. Os animais, os minerais e os vegetais agem sobre nós também. As coisas interagem entre si e sobre nós o tempo todo.

Há entre as coisas do ecossistema um elemento relevante na vida cotidiana que são os objetos técnicos que criamos para viver e sobreviver. Assim como agimos sobre eles, eles agem sobre nós. Por isto é possível falar em mundo das coisas, formado por esses diversos elementos que nos influenciam enquanto nós os influenciamos. Esta é a vida na terra. É uma vida de aprendizagem .

O que esperamos é lidar com empresas que não temem o espírito crítico dos trabalhadores, mas que se juntem aos trabalhadores sem medo de inovar e progredir. E melhor ainda: que essa coisa chamada empresa seja um elemento do ecossistema que favoreça a convivência entre a humanidade e as outras coisas.

Encerramento

Com estes argumentos espero que todos aqui possam pensar maneiras melhores de lidar com as dinâmicas culturais que envolvem educação e tecnologias.



Pensando com Audre Lorde

Pensar faz bem - com Audre Lorde
Pensar faz bem – com Audre Lorde

AmarElo – luzes no fim do túnel

AmarElo - é tudo para ontem
AmarElo – é tudo para ontem

O 2020 foi um ano atípico devido ao advento da pandemia. Mas isto não impediu que houvesse produção cultural criativa e necessária, tanto como entretenimento quanto como aprendizagem.
Este é o caso do documentário AmarElo, É tudo pra ontem, de Emicida, que trouxe um misto de making off do show e cenas panorâmicas da história brasileira a partir da visão das comunidades negras de descendência africana.
Para começar, o show teve o compromisso social de levar à sala do Theatro Municipal de São Paulo os cidadãos da periferia paulistana, para que estes pudessem conhecer e se aproximar de um patrimônio público, que deveria estar aberto para toda a população, mas se reveste como instrumento de controle de acesso das populações mais carentes da capital paulista, visto haver diversificados óbices para que as populações periféricas visitem aquele espaço cultural. Ponto para os organizadores!
O evento foi construído em três atos: Ato I – plantar; Ato II – regar; Ato III – colher. Por meio desse campo semântico do processo de plantação, os organizadores do documentário trazem uma narrativa que revela a jornada histórica de busca de libertação pela diferença e construção da identidade do povo negro que aportou no Brasil a partir do período colonial.
Há assim um resgate de momentos históricos junto com apresentação de personalidades que, de uma forma ou de outra, lutaram para a construção da nação brasileira, seja no mundo das artes, seja no mundo das ciências, seja no campo da discussão filosófica.
Assim o espectador explora momentos do Movimento Negro Unificado e faz aflorar personalidades negras relevantes para a cultura brasileira, como Lélia Gonzales, Abdias do Nascimento, Machado de Assis, Mario de Andrade, Wilson das Neves, Marielle Franco, dentre outros.
O documentário é uma aula de história, pois rediscute como determinados fatos sociais ficaram ofuscados em relação às contribuições das comunidades negras de origem africana, que ajudaram na construção da nação brasileira.
O que se espera é que esse tipo de iniciativa floresça aqui no país, e o Brasil ressignifique músicas como Querelas do Brasil, de Aldir Blanc, e possa gritar: O Brasil conhece o Brasil.
E precisamos disto para ontem!

Até a próxima!


Sobre a obra

O que é? AmarElo, é tudo para ontem
Quem dirigiu? Fred Ouro Preto
Quem apresentou? Emicida
De que ano foi? 2020
Onde assisto? Plataforma Netflix

Pensando com Donna Haraway

Pensar faz bem com Donna Haraway
Pensar faz bem com Donna Haraway

Pelo centenário de Paulo Freire

Pelo centenário de Paulo Freire
Pelo centenário de Paulo Freire

Assim como Machado de Assis está para a Literatura como um intelectual fundamental para a cultura brasileira, Paulo Freire está para a educação. Freire foi um ensaísta em essência. Escreveu com significantes livres e poéticos, articulando-os a significados tratados com rigorosidade, que o aproximava dos filósofos, dos cientistas e dos artistas. Ele foi um intelectual de múltiplas faces. Daí a dificuldade de classificá-lo a grupo de pensadores específicos.
Durante 2021, escreveremos sobre essas múltiplas faces de Freire, abordando assuntos ao qual Paulo Freire se vinculou durante a jornada aqui na terra como homem pensante e, acima de tudo, educador.
Desta forma teremos neste ano do centenário de Paulo Freire textos sobre a obra do grande ensaísta, abordando temas como ciências, filosofia, artes, comunicação, técnicas, alfabetização, educação, linguagem, política, dialética e dialogia, todos esses reportando a algum momento da vida intelectual do educador brasileiro.
Enquanto vocês aguardam os textos mensais, listamos abaixo os livros de Paulo Freire que servirão de base para os pequenos artigos que serão aqui lançados.

Não acreditem no que escreverei aqui nos próximos meses. Vá às fontes. Leia Paulo Freire.

Enquanto vocês aguardam os textos, listamos abaixo os livros de Paulo Freire que servirão de base para os pequenos artigos que serão aqui lançados.

Obra e editora
  • Paulo ao vivo, edições Loyola
  • Cartas à Cristina, Paz e Terra
  • Medo e ousadia, Paz e Terra
  • Pedagogia do Oprimido, Paz e Terra
  • Educação como prática da liberdade, Paz e Terra
  • A importância do ato de ler, Cortez
  • Educação e mudança, Paz e Terra
  • Pedagogia da Autonomia, Paz e Terra
  • Ação cultura para a liberdade, Paz e Terra
  • Por uma pedagogia da pergunta, Paz e Terra
  • Extensão e comunicação?, Paz e Terra

Pensando com Donna Haraway


Abraço no tempo enquanto ainda é tempo

Abraço no Tempo
Abraço no Tempo

Abraço no tempo enquanto ainda é tempo

Abraço no tempo é um encontro do teatro, a música, a poesia e a dança em um estado de cópula com o tempo. Em 45 minutos de deleite temos a oportunidade de deixar fluir o corpo, a mente e o espírito em um só tempo e lugar.

Abraço no tempo foi o presente que a comunidade do complexo de artes do Teatro Castro Alves (TCA) ofertou ao público como forma de refletir acerca da questão do tempo, em um encontro multicultural que reuniu as múltiplas faces da arte representadas pelo Balé do Teatro Castro Alves, Orquestra Sinfônica da Bahia e Caetano Veloso, inspirados nas manifestações artísticas de Caetano Veloso e Ludwig Beethoven.

Em uma sala escura a orquestra toca, enquanto em espaços abertos e semiabertos corpos dançantes criam a jornada de abraçar o tempo sob a aura de luzes naturais nos arredores das arquiteturas do TCA.

Nos espaços do prédio do complexo Castro Alves, a destreza de corpos que se movimentam em passos das diferenças sob a batuta de toques sincopados em busca de harmonia. 

Tudo isto dá uma sinergia ao espetáculo, fazendo a gente navegar nesse tempo sem medo do fim e vívido. A dança nos é ofertada como ato e meditação, observando a música em cópula com a dança, em uma mistura de corpos negros, brancos e de diversas tonalidades de cinza buscando as próprias almas em passos agitados como são os tempos que vivemos hoje: é um meditar diante de muito alvoroço.

Os músicos tocam enquanto dançam e dançam enquanto tocam, desencantando emoções em meio a uma técnica com tanto vigor e disciplina.

Eles são os dançarinos libertos que voam pelo chão e navegam no ar, deixando fluir novos corpos mudos cheios de sons.

Não é de estranhar que quem esteja assistindo se entregue em deleite e comece a cantarolar, na tentativa de imitar os instrumentos musicais daquele círculo escuro tão luminoso, ou ouse se levantar e viver a dança nos abraços no tempo. 

Até a próxima!


Sobre a obra

O que é? Abraço no tempo, espetáculo multiartístico
Quem dirigiu? Carlos Prazeres
Como foi o enredo? Em três atos: O passado é grave, O presente é nervoso e O futuro é aqui
De que ano foi? 2019
Onde assisto? Canal Youtube do TCA

Pensando com Neri Oxman

Pensar faz bem com Neri Oxman
Pensar faz bem com Neri Oxman

Mais+

Como posso começar 2021?

Imagem Ano 2021
Ano 2021

A gente começa o ano falando geralmente dos nossos sonhos e desejos para o futuro. A gente pede também energias positivas para que as coisas boas aconteçam e que o ano seja melhor ainda que o anterior.

Mas não é simples falar do futuro sem pensar no ano de 2020. Um ano controverso ao que parece para a maioria da população mundial.

Jamais pensei que iria passar dias em casa, recluso, ou mesmo que iria sair de máscara em plena Salvador com um vasilhame de álcool no bolso.

Durante a infância, em casa, com sete irmãos, pai e mãe, eu adorava ficar em casa: aquela casa minúscula, com pouca possibilidade de lazer. Tive de aprender a ficar em casa empurrado pelas desigualdades sociais que eram muito fortes nos anos 1970/1980. Mas agora as questões sociais haviam mudado, e eu estava novamente dentro de casa aprendendo mais sobre eu mesmo.

Outra coisa, nunca pensei que fosse tão cansativo passar mais de duas horas em videoconferências. Quando passava dos 90 minutos me sentia como o jogador cansado, com raiva de ter optado pelo futebol como carreira e desejoso que a partida acabasse. E olha que adoro tecnologias.

Vou parar por aqui!

O leitor percebeu que ainda estou em 2020, por este ano ter sido marcante em minha existência e eu preciso reelaborá-lo para continuar a jornada nesta vida.

Para 2021 ainda estou juntando os cacos, reorganizando a vida, sabendo que a vida individual está mais do que nunca entrelaçada à vida social.

Começo 2021 cheio de incertezas, isto é bom, pois as circunstâncias pedem buscas de novas perspectivas de vida.

Tudo isto volta ao título deste texto: Como começar 2021?

Com tudo que aconteceu em 2020, e aqui a gente não trouxe nem uma migalha do que aconteceu, o que posso vislumbrar para este ano é um pensamento e uma prática mais voltados para a humanidade, pois não há como se sentir feliz sozinho.

Continuamos na luta em 2021!



O ano de 2020 no EPraxe

O ano 2020 no EPraxe
O ano 2020 no EPraxe

O ano de 2020 foi desafiador. Não utilizarei outro adjetivo para não me entregar a um pessimismo que não ajudará a resolver os problemas sociais aos quais passamos neste ano.

Aqui no EPraxe enfrentamos os desafios mês a mês. E é o que o leitor poderá ler nos textos que sugerimos abaixo para você. É um texto para cada mês: de desafio a desafio.

Boa leitura!

Janeiro no EPraxeViagem, diversão e outras histórias – começamos o ano tocando em um assunto um pouco delicado: as viagens a trabalho. Viagem a trabalho é o mesmo que viagem para diversão?

Fevereiro no EPraxeÉ hora de compartilhar? – mais uma vez abordamos um assunto sensível e muito caro para muita gente: a questão do compartilhamento de dados na Internet. Veja lá o que pensamos sobre o assunto.

Março no EPraxeA condição de não saber e as tardes com Margueritte – neste texto nos entregamos à magia do cinema. A resenha é sobre um filme que fala de afetos e aprendizagem.

Abril no EPraxeDesigualdades digitais em tempos de pandemia – com a pandemia ficaram visíveis os graves problemas de desigualdades entre as pessoas que precisam usar a Internet. Este assunto precisa está na pauta de discussões do nosso cotidiano.

Maio no EPraxeCrises e desigualdades educacionais – continuamos discussões sobre o contexto da pandemia do Covid-19. Desta vez abordamos algumas consequências da pandemia sobre a educação.

Junho no EPraxeNo enxame – a convivência no mundo digital – o digital é assunto corrente no EPraxe. Desta vez a postagem foi uma resenha sobre o livro No Enxame: perspectivas do digital, de Byung-Chul Han.

Julho no EPraxeA desproteção social dos fazedores de artes – quase impossível ficar omisso às consequências trazidas pela pandemia do Coronavírus. Foi necessário explicitar alguns dos problemas que a classe artística brasileira tem enfrentado durante a pandemia.

Agosto no EPraxeAnseios – entre o pessoal e o político – sabe um livro gosto de ler. É Anseios: Raça, Gênero e Políticas Culturais. Leitura essencial para quem deseja discutir as questões sociais considerando multiplicas perspectivas do olhar.

Setembro no EPraxePaulo Freire por ele mesmo – em setembro de 2020 Paulo Freire completaria 99 anos de vida. Nada melhor do que homenagear o educador, trazendo algumas das reflexões filosóficas de Paulo em torno da educação.

Outubro no EPraxeQuando os ninhos não nos acolhem mais – Mildred é uma personagem do filme Um estranho no Ninho. Na série Ratched, ela assume o papel de protagonista. Muitas surpresas nessa série metalinguística.

Novembro no EPraxeNara Couto: linda e preta – beleza negra do Curuzu – muita gente imagina que a música baiana do século XXI está circunscrita ao “Axé Music”. Ledo engano!

Dezembro no EPraxeA reação de mãe Netinha – eis aqui uma crônica dos idos de 1970 na Bahia. É preciso compreender como vão-se construindo as relações sociais aqui no Brasil.

Até a próxima!


Dexter – entre a luz e a sombra

Dexter - entre a luz e a sombra
Dexter – entre a luz e a sombra

A gente está acostumado a comentar e categorizar como clássico produtos de filmes, discos e livros, o que geralmente não acontece quando o produto cultural vem da televisão, como as séries de TV.

Primeiro por que costumamos classificar a televisão como indústria cultural, o que acaba por nos afastar de produtos oriundos desse meio de comunicação de massa quando o assunto é arte. Depois por que estamos perdendo cada vez mais o gosto pelas narrativas longas, afinal de contas novelas e séries são elementos vinculados à sociedade de massa e acabam por serem taxados de produtos de consumo, distanciados das artes.

Mas obras como Dexter, Mad Men e Breaking Bad são ícones nesse tipo híbrido diferenciado de produção comercial com arte. Elas são as séries de TV de consumo, mas que buscam se aproximar dos produtos da chamada “arte”.

Mesmo que muitos não rotulem esses produtos culturais como obras de arte é necessário apreciá-los culturalmente, e é o que faremos nas próximas linhas comentando um pouco da série Dexter.

Dexter Morgan é um personagem controverso, pois possui uma dupla personalidade. Daquele tipo de O médico e o monstro, adaptado para o terceiro milênio.

De um lado Dexter é um analista forense muito bem reconhecido entre os pares. Casou e teve filho, ajudou na criação dos filhos da esposa; é um irmão solícito e quando pode participa das atividades de lazer com os colegas de trabalho.

Do outro lado, Dexter utiliza o conhecimento forense e o que aprendeu com o pai policial para assassinar pessoas. Os assassinatos são violentos e acompanhados por um ritual bem peculiar.
Em Dexter há múltiplos em um homem: filho adotivo, filho de mãe solteira, esposo, irmão, analista forense. Tudo isto existe na mesma pessoa, um ser que tem uma vida sob os contrastes de ser um homem subordinado aos acordos sociais e também ser um criminoso, justiceiro, um miliciano solitário, movido por causas interseccionadas entre o social e o intrapsíquico.

Quando nos encontramos com Dexter, ele já cometeu muitos crimes trágicos, de forma fria e calculista. Ele é o tipo de personagem que fascina muita gente que aprecia filmes de violência, mas a narrativa contempla bem mais coisas em Dexter do que a mera violência.

Para atrair o público, Dexter tem um motivo para agir com tanta violência: as pessoas que ele ataca são, geralmente, pessoas más, de comportamento desviantes. Na verdade, as vítimas possuem muitos pontos em comum com Dexter Morgan, mas o protagonista não vai contra as pessoas consideradas boas, ele só ataca os considerados desviados da sociedade. Essa opção de ir contra os maus faz com que Dexter seja compreendido de maneira diferente dos indivíduos da marginália e se torne uma espécie de “herói”.

Não devemos esquecer que existe dentro da narrativa estadunidense um conjunto de obras em torno de personagens justiceiros. Personagens que buscam fazer justiça com as próprias mãos, cabeças e corações.

Hoje, início de século XXI, provavelmente, a rede cinematográfica que distribui mais narrativas de super-heróis seja a estadunidense. Por aqui o leitor já começa a perceber que a narrativa é construída para que o espectador sempre perdoe as atrocidades de Dexter e fique comovido pelas motivações criadas pelo personagem. Dexter é um jogo psicológico muito bem organizado, que brinca o tempo todo com os valores do espectador.

Quando observado de perto, o espectador verá um homem sem amigos, solitário, de hábitos ordenados. Um homem que quando se esconde dos outros pode se ver em pleno florescimento.

Dexter sobrevive entre a demência e a sanidade. Ele precisa se curar, se conhecer mais; pensar e falar dos próprios segredos. Enfim, aprender a navegar entre a luz e a escuridão e educar os próprios sentimentos.

Interessante é observar durante a narrativa que quanto mais Dexter se aproxima dos próprios sentimentos mais o personagem se descobre como gente e mais o caos emerge como regulador da vida.

Mesmo a série tendo um personagem tão denso, é preciso ressaltar o papel de Deb Morgan, a personagem irmã de Dexter. Deb é uma mulher-homem. Ela travessa os gêneros. Ela adora dormir com os homens, mas não se deixa submeter ao patriarcal. Ela fala alto, xinga muito, usa roupas desajeitas.

Ao mesmo tempo ela deixa os sentimentos em transbordos, constituindo-se como uma personagem controversa, por não se deixar ser subjugada pela condição de ser mulher. Deb também precisa se encontrar. E é justamente essa busca que a faz uma personagem tão fascinante. Deb é uma coadjuvante de peso na história. A personagem mexe como nossos sentimentos: ela vai crescendo a cada capítulo.

Deb está na narrativa para provocar, tocar as pessoas. Deb é o caos e a organização ao mesmo tempo. No fundo é como se os dois personagens estivessem confabulando o tempo todo por meio das inconsciências. Daí de eles serem irmãos. Irmãos de criação, irmãos de convivência.

Pelo até aqui narrado, Dexter possui elementos suficientes para manter a atenção do espectador durante muitas temporadas. Talvez, você, leitor, possa captar mais coisas e trazer mais insumos para a gente aprender sobre as formas de narrativas dessa história desafiadora e assim podermos discutirmos mais sobre o fazer artístico destes nossos tempos.

Até a próxima!

Sobre a série

O que assistir? Dexter
O que é isso? Série de TV
Quem editou? Showtime
Quando aconteceu? 2006-2013
Mais alguma coisa? Existe possibilidade de haver nova temporada em 2021.