
Refazenda (1975), de Gilberto Gil, completa 50 anos de lançado em 2025, e eu preciso viajar em lembranças, para recuperar momentos bem vívidos de minha existência sob a influência dessa obra gilbertiana.
Minha mãe olhava pela janela para o infinito, aguardando a chegada do meu pai com algumas compras, para a família usufruir de alguns momentos felizes naquele Natal do final da década de 1970.
Já eram 19 horas, quando meu pai chegava em casa, com um saco na cabeça com as compras para a ceia natalina, e o tempo estava bastante curto para preparar a refeição daquele dia singular.
Sobre o saco de compras, havia dois discos de vinil, e um deles era uma coletânea de Gilberto Gil, com algumas músicas consideradas clássicos do cantor.
Enquanto o pessoal tirava os ingredientes do saco de compras, eu peguei o disco de Gil e pedi permissão ao meu pai para colocar o vinil na radiola da família.
Minha interação com a obra de Gil se construiu na adolescência por meio da escuta, anos antes, do disco Refavela, na casa de um tio, uns dois anos antes, e com as escutas nas ondas do rádio.
Foi pelos rádios que entre o final da década de 1970 e início da década de 1980, a trilogia Refazenda, Refavela e Realce foram refinando meu gosto musical. O rádio era um meio fundamental na formação das pessoas quando o assunto era música popular brasileira.
De Refazenda a memória se abre com Tenho Sede, um jeito simples de falar de amor, que tocava meu coração adolescente à procura de se encontrar com o outro que havia em mim sob formas simbolizadas. Ela foi outra canção que muito me tocou muito, pois ficava extasiado em sentir como um jogo de palavras podia criar tanto significado e mobilizar tantas sensações
Com Jeca Total me aproximei das questões políticas, em uma melodia que parecia misturar sons de uma banda marcial com os rudimentos de um misto de reggae e baião.
O contato com Retiros Espirituais foi por meio da leitura de um livro da coleção Literatura Comentada, da editora Abril. Gil tinha na expressão musical uma veia espiritual encantadora, que me mobilizava ir ao encontro da transcendência.
Há muito de mim em Lamento Sertanejo. Até hoje, mesmo sendo pessoa de cidade grande, ainda tenho necessidade de estar em lugares pequenos, distante do alvoroço das metrópoles. Solidão é algo doloroso, mas necessário.
Com Refazenda, música-título do disco, parece que estou assistindo a uma narrativa épica, feita pela natureza, onde os sentidos vão me guiando pelo que há de belo no que não está em mim, mas que permanece comigo.
E foi assim que esse disco foi atravessando minha vida, de forma perene, em cinco, dez, 15, 50 anos…
Enquanto Refazenda faz 50 anos, vou revivendo e refazendo estes de 50 anos, ressignificando meu existir.
Até a próxima!
Dados da obra
O que é? Refazenda [LP]
De quem é? Gilberto Gil
Quando foi lançado? 1975
Quais são as músicas? Ela, Tenho Sede, Refazenda, Pai e Mãe, Jeca Total, Essa é Pra Tocar no Rádio, Ê, Povo, ê, Retiros Espirituais, O Rouxinol, Lamento Sertanejo e Meditação.
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