
Enquanto eu estava escrevendo este texto no Google Docs, a tecnologia de inteligência artificial da Alphabet, Gemini, emitia a mensagem “Escreva com o Gemini – “CRTL-G”. Ao hesitar sobre o que escrever, apareceu a mensagem: “Me ajude a escrever Alt+W”.
Basta tentar produzir conteúdo dentro de plataformas digitais que vamos nos deparar com diversos tipos de objetos técnicos adjetivados de “inteligentes” (inteligência artificial, agente inteligente, chatbot etc.), que tentam construir conhecimento no lugar de nós, humanos.
No menu do aplicativo Google Doc, o sistema de inteligência artificial generativa Gemini é construído com uma interface com as seguintes opções: “a) Criar um novo documento; b) Adicionar um novo texto; c) Refinar o texto selecionado; d) Fazer outra pergunta”. Tudo isto a partir de um processo técnico cujo objetivo é construir algoritmicamente conteúdos no lugar de nós humanos. O pensador Ted Striphas (em 2015) chama esse processo de cultura do algoritmo, situação em que deixamos que o nosso poder de construir coisas seja sublimado, dando lugar a recursos técnicos de computação para processar o que antes os humanos construíam.
É bom frisar que na segunda metade do século XX, o filósofo da ciência brasileiro Álvaro Vieira Pinto já discutia o processo de outorga às tecnologias de afazeres que antes eram realizados por humanos. Vide os ensaios: A evolução das máquinas e a liberação das energias humanas (p. 80-90) e O homem e o significado das máquinas “criadoras” e “pensantes” (p. 90-100), na obra O conceito de tecnologia – volume I. Percebe-se que a discussão sobre o assunto não é nova e ainda há muito o que se debater sobre o tema.
Nessa jornada de interação constante com tecnologias computacionais, durante o uso do aplicativo de processamento de textos, há uma estrela de quatro pontos do Gemini que me persegue o tempo todo. Ao passar o mouse sobre a estrela, o sistema aumenta a visualização na tela com a frase: “Descreva as mudanças que você quer fazer”. Quando seleciono um trecho do texto, a estrelinha informa: “Aprimorar o conteúdo selecionado com o Gemini”.
Indo direto para a plataforma do Gemini há mensagens como: “Olá, como posso ajudar você” “Peça ao Gemini”, “Ajude-me a aprender”, “Melhore o meu dia”, “Gere imagem de IA”, “Traduzir”, “Ajude-me com codificação”, “Analise os dados” e “Melhore o texto”, como forma de fazer o internauta se relacionar com o objeto técnico na produção de conhecimentos de toda ordem. São sentenças cativantes, que podem nos levar a deixar de produzir conhecimentos a partir de nossa própria capacidade de existir na vida.
No Canvas não é diferente: somos recebidos na página inicial com a mensagem: “O que vamos criar hoje?” e dentro do prompt há uma outra mensagem com a seguinte sentença: “Descreva sua ideia e eu vou dar vida a ela”.
Quando acesso um site em língua estrangeira, por exemplo, há um pop up no browser que me pergunta se desejo traduzir para o português brasileiro o texto contido na página. Da mesma forma acontece quando acesso uma mensagem em língua estrangeira no aplicativo GMAIL: “Parece que esta mensagem está em inglês – Traduza para o português”. Isto pode nos deixar cada vez mais preguiçosos quanto à nossa capacidade de criar e construir objetos culturais criativos e inovadores.
E esse envolvimento e sedução continua: no buscador Google, outra mensagem aparece durante a interação mediada: “Visão geral criada por IA”. Neste caso, o aplicativo apresenta a versão da Alphabet sobre o significado do conteúdo buscado, por meio de resumos, paráfrases e pequenas narrativas, com base em fontes externas localizadas na internet. Antes eu tinha acesso direto aos conteúdos que eu estava procurando, agora há um sistema entre mim e os conteúdos, que sumariza o que eu deveria ler, impedindo, muitas vezes, a iniciativa do cidadão de ir diretamente à página original para interagir com os conteúdos.
No aplicativo ChatGPT, da OpenAI, a saudação inicial é “Pergunte alguma coisa”. As tecnologias de conversação entre humanos e objetos técnicos têm ficado cada vez mais sofisticadas, o que leva as pessoas a usarem esses objetos como se fossem oráculos capazes de responder sobre todo tipo de conhecimento.
Na plataforma WordPress, espaço que utilizo para produzir conteúdos e expressar minha opinião sobre coisas da vida, me deparo com a mensagem: “Editar com IA”. Que dizer, agora não preciso mais pensar sobre como fazer uma postagem, é só pedir para a tecnologia de IA o que desejo escrever, que um texto será processado computacionalmente para mim.
A plataforma Colab (Alphabet), usada por quem deseja programar, não é diferente. No processo de criação de códigos, o sistema intervém de forma intermitente se antecipando quanto à construção de blocos de códigos, gerando a mensagem: “Comece a programar ou gere código com IA”, incentivando o candidato a programador a deixar o objeto técnico realizar a tarefa.
No Notebook LM da Alphabet, a página inicial traz as mensagens: “Entenda qualquer assunto” – “Seu parceiro de pesquisa e análise, baseado nas informações em que você confia e criado com os modelos mais recentes do Gemini” – “Seu parceiro de pesquisa com tecnologia de IA”. Na plataforma digital, o estudante “não precisa” mais fazer resumos ou sistematização de conteúdos de textos diversos. A proposta da plataforma é “facilitar” ações do cidadão quanto a estudar melhor, organizar as ideias ou mesmo se inspirar para novas ideias. Pergunta: como o cidadão vai aprender dessa forma, recebendo tantas soluções prontas durante o ato de estudar?
É muito bom interagir com essas tecnologias, mas precisamos ficar atentos a esse processo de midiatização dessas tecnologias, em que se você não sabe usar estará perdido e fora do mercado, mas perdidos e mais perdidos estarão os cidadãos que no futuro não possam pensar por si próprios como condição essencial para viver em sociedade.
Outro ponto interessante é que, por mais que essas tecnologias simulem o humano na forma como elas se apresentam para nós, ainda somos diferentes das formas tecnológicas. Somos feitos de carne e osso. Como dizia Edgar Morin, somos seres complexos, que até hoje nos construímos como humanos mediante um processo dialógico de razão e emoção. Somos passíveis de erros, pois a vida é incerta. E por mais que utilizemos nossa capacidade de fazer análises probabilísticas, ainda não conseguimos computar tudo que há de indeterminado no humano.
É bom lembrar que os objetos, os sistemas e os ambientes técnicos não são humanos em si; eles foram construídos por humanos. Então há muito do humano nesses objetos. Os objetos, quando nós interagimos com eles, não têm sentimentos, tal qual os humanos constróem nas diversas relações sociais cotidianas, mas eles podem mobilizar sentimentos e influenciar nos modos de viver em sociedade. Vide as diversas situações de cancelamentos e discursos de ódio que são inicializadas por esses aparatos técnicos; vide também as diversas mobilizações e viralizações para o bem da sociedade que ocorrem na internet inicializadas também por objetos, sistemas e ambientes técnicos. Portanto é preciso muito cuidado para não tratar o que é construído por humanos como se humanos fossem (antropomorfização das tecnologias), pois as tecnologias são ambivalentes, lógicas e contraditórias ao mesmo tempo, por serem fruto da criação humana.
Essas tecnologias estão onipresentes na vida cotidiana e com todos esses recursos disponíveis, pergunto novamente: quando o cidadão interagente vai pensar por si próprio ao utilizar essas aplicações?
Até a próxima!
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Um pouco de teoria
- MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Trad. Maria ALEXANDRE; Maria SAMPAIO. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2010.
- PINTO, Álvaro. O conceito de tecnologia, volume I. Rio de Janeiro, RJ: . , 2005.
- STRIPHAS, Ted. Algorithmic culture. European Journal of Cultural Studies, p. 395–412, 2015. Disponível em: <https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1367549415577392>. Acesso em: 28 jun. 2018.
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