
Em tempos que só se discute inteligência artificial, é preciso discutir a inteligência humana Cleonilton Souza
Tive contato com o livro A inteligência da complexidade, de Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne, no início dos anos 2000. Na época eu precisava estudar filosofia em Educação, e a discussão sobre pensamento de Edgar Morin era pertinente para debater a formação de profissionais de educação.
A leitura foi espaçada: um capítulo hoje, um trecho de interesse amanhã. E assim o livro foi ficando na prateleira por mais de 20 anos me esperando para reiniciarmos o diálogo científico-filosófico.
Chegamos a 2026 envoltos em debates recorrentes sobre tecnologias de inteligência artificial em que o processamento computacional se torna cada vez mais evidente em relação ao debate sobre a inteligência humana.
Até a primeira metade do século XX, a palavra inteligência quase não necessitava de um termo gramatical complementar, pois era possível pensar inicialmente em inteligência como inteligência humana. Hoje a palavra inteligência se bifurca e exige dois complementos: inteligência humana e inteligência artificial. São duas racionalidades que coexistem e ressignificam os valores atribuídos ao termo inteligência.
Foi em meio a estas duas racionalidades que senti que era necessário me debruçar sobre a inteligência humana, o que levou à revisitação do pensamento de Edgar Morin sobre o assunto.
Voltei à estante de casa então para novos diálogos com Edgar Morin. Foi assim que folheei livros como Ciência com consciência, Ética, A cabeça bem-feita e, claro, A inteligência da complexidade.
Em A inteligência da complexidade, Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne trafegam por uma compreensão diferente do mundo em relação à visão tradicionalmente conhecida dos postulados de visões embasadas na perspectiva positivista de fazer ciência, em que o mundo é concebido por meio das ideias de ordem, separação e razão com mais proeminência.
Na concepção de um mundo formado de fenômenos complexos, a posição da ciência assume outros modos de interagir com o mundo. Disto resulta o que os autores denominam pensamento da complexidade, cujos pilares são construídos a partir dos princípios dialógico, de união de noções antagônicas e indissociáveis, de recursão em que produtos e efeitos são, ao mesmo tempo, produtores e causadores daquilo que é produzido, e hologramático, em que o todo está na parte, e a parte está no todo. Dada a densidade do assunto, sugiro que o leitor vá direto à fonte para interagir melhor com a questão.
Em tempos de pensamento único, de supervalorização da racionalidade, em que o pensamento lógico-matemático fica cada vez mais evidente quando se discute o destino de uma humanidade envolta por uma multiplicidade de tecnologias computacionais, em especial, tecnologias de inteligência artificial, debater questões como a incerteza, as contradições, torna-se fundamental. E as contribuições de Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne sobre o assunto se convertem como relevantes para os modos de vida que estamos construindo durante o século XXI.
Quanto ao processo de releitura, estou me revigorando com os textos de Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne. Só que agora com uma leitura mais aprofundada em relação às leituras parciais que fui realizando nos últimos 20 anos.
Até a próxima!
…..
Dados da obra
O que é? A inteligência da complexidade [livro]
Qual escreveu? Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne
Quem traduziu? Nurimar Maria Falci
Quem editou? Peirópolis
Quando foi lançado? 2000
Leia+ sobre Edgar Morin
…..
…..
- A complexidade da inteligênciaO texto EPraxe desta semana é sobre o livro de Edgar Morin e Jean-Louis Le Moigne: A inteligência da complexidade. Boa leitura!
- A praça não é mais do povo e nem o céu é dos pássarosO texto EPraxe desta semana é sobre usos das praças públicas. Boa leitura!
- A arte de cultivar memóriasO texto EPraxe desta semana aborda a construção das memórias, elemento essencial de nossa existência. Boa leitura!
…..
Os materiais produzidos no EPraxe têm baixo nível de interferência de inteligência artificial. Na construção dos textos são utilizados LibreOffice, Google Docs, Word ou o editor do WordPress. Na construção de imagens são utilizados os aplicativos Canva, Keynote ou PowerPoint. As fotos são editadas com o aplicativo Google Fotos ou Fotos (Apple). Em alguns quadros, são utilizados comandos de formatação HTML e scripts em Python.
…..
Algoritmos Aprendizagem Artes Axé Music Bahia Cinema Ciência Comunicação Conhecimento Criatividade Cultura Design Edgar Morin Educação EPraxe Escrita Filosofia História Inteligência Artificial Internet Lazer Leitura Linguagens Literatura Mercado Música Noam Chomsky Organização Pandemia Paulo Freire Pedagogia Pensamento Pesquisa Podcast Poesia Política Práxis Raymond Williams Resenhas Sociedade Tecnologia Tecnologias Trabalho Vida Cotidiana Vilém Flusser
Descubra mais sobre EPraxe - Cultura & Cotidiano
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.