Olhares sobre a cidade de São Salvador

Olhares sobre a cidade de São Salvador

Reunir uma lituana, um mexicano, um português, um caboverdense, uma francesa e um alemão em uma série televisiva para falar sobre Salvador é algo instigante, ainda mais quando  os estrangeiros não são atores profissionais. Este foi o grande desafio dos organizadores da série Destino: Salvador, ao trazer olhares plurais sobre a cidade secular que carrega em si todo um legado de tradição da cultura africana.

Na série temas como homossexualidade, relações entre pais e filhos, morte, mundo do box e religião se entecruzam, criando seis histórias sobre a natureza humana frente às convivências com o outro. O resultado? Um trabalho leve e gostoso de observar.

Os olhares estrangeiros têm muito a dizer sobre nós próprios, e abrir-se para esses visões externas do mundo sobre nós traz consequências para a forma como vamos reelaborando a nossa cultura e ressignificando a nossa cultura. As histórias de Destino: Salvador tratam do cotidiano de uma cidade cheia de contrastes por meio de situações inusitadas, que vão arrebatando os destinos dos envolvidos e oferecendo outras formas de ver o mundo.

Decidi assistir à série um pouco desconfiado, receoso de encontrar discursos engessados sobre as especificidades da cultura soteropolitana, mas, a cada história, fui descobrindo outras óticas para conhecer e reconhecer a riqueza cultural da capital baiana, frente a histórias de indivíduos que se prestaram a viver e conviver em Salvador. Destino: Salvador é construída no formato de histórias curtas, mediante enredos diversificados, onde a unidade temática se direciona para a formação identitária do que seja Salvador.

A série é composta de seis histórias, com a mediação de um estrangeiro em cada narrativa. No último capítulo há um pequeno relato dos bastidores da série, em que os atores estrangeiros puderam se pronunciar sobre vivências em terras estrangeiras, junto com depoimentos sobre a primeira experiência de seres atores: uma viagem sobre terras estrangeiras.

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Dora Kaufman

Pensar faz bem com Dora Kaufman
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Os desafios de educar frente às transformações tecnológicas

Os desafios de educar frente às transformações tecnológicas

Nos últimos dias de janeiro de 2023, a mídia brasileira propagou de forma intensa notícias sobre a inteligência artificial ChatGPT, capaz de conversar com os humanos e produzir textos, os quais ficaria difícil identificar quem escreveu a mensagem, se um ente humano ou um objeto técnico. A referida tecnologia foi lançada em novembro de 2022 pela empresa estadunidense OpenAI.

O tom de surpresa sobre o assunto e as iniciativas de curiosidades para testar conversações no sistema de inteligência dão a impressão para a sociedade em geral de que esse tipo de tecnologia surgiu agora e precisamos nos preparar em termos de trabalho, educação, economia e sociabilidade para um mundo que abruptamente se instalou na vida cotidiana. Ora, as soluções tecnológicas de interação linguística produzidas pela referida inteligência artificial vêm sendo testadas e apresentadas para a sociedade há décadas. 

Trata-se em linhas gerais do que no meio tecnocientífico se denomina de Processamento de Linguagem Natural, uma área do saber humano que se utiliza de diversos referenciais das ciências para produzir objetos técnicos capazes de estabelecer comunicação via linguagem humana nas interações entre as pessoas e as máquinas. 

No dia a dia é possível perceber a presença dessas tecnologias, como, por exemplo, na hora em que o cidadão está escrevendo um documento, e a aplicação corrige simultaneamente o texto nos aspectos de ortografia, regência, colocação e concordância. 

Faz algum tempo que existem aplicações que traduzem pequenos textos, com certo apuro técnico, e que não se percebe com tanta facilidade se a tradução foi feita por um humano ou um não humano. Outra situação bem típica são os sistemas de inteligência que leem em voz alta os textos escritos de livros eletrônicos (e-books)

E o que dizer dos sistemas de atendimento eletrônico em sites que tentam compreender o que os humanos desejam em pequenas conversações? Todas essas formas de tecnologias vêm se aprimorando nos últimos 50 anos e são cada vez mais comuns no dia a dia. 

E como ficam educadores, comunicadores, advogados e demais profissionais diante dessa situação tão corriqueira? Ficarão cada dia mais surpresos com as novidades e imobilizados diante dessas invenções que influenciam cada vez mais a vida das pessoas? Serão vítimas das circunstâncias? 

A sociedade precisa reagir a essas mudanças, propondo novas formas de educar o humano para o mundo presente, cada vez mais mediado pelos diversos aparatos técnicos. Educar a sociedade em um mundo imerso em transformações tecnológicas é um desafio do presente e não do futuro.

Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde [impresso], seção Tempo Presente, Salvador, Bahia,  21 de fevereiro de 2023.

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Charles Wright Mills

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Nos tempos dos cartões telefônicos

Nos tempos dos cartões telefônicos

Antes de existir a internet, as conversações a distância eram mais por telefone, mas nem todo mundo podia ter o aparelho em casa e o jeito era usar telefones públicos. E para usar o telefone público a pessoa tinha de comprar um cartão telefônico. Os cartões acompanhavam a gente nas carteiras de documentos e nas bolsas. Antes dos cartões ainda havia as fichas telefônicas, mas não vamos tão longe assim na linha do tempo.

Os cartões vinham com carga única, com uma quantidade de créditos para a pessoa fazer alguns minutos de ligações; após o término da carga, o jeito era comprar outro cartão. Naquele tempo muita gente gostava de colecionar cartões, pois estes traziam ilustrações com temas bem interessantes. As figuras que trago neste post é de um cartão cujo tema era horóscopo, assunto que atiçava o imaginário de muito adolescente, e de adulto também.

Os telefones públicos tinham muita serventia, pois em alguns casos atendiam uma comunidade inteira, tanto para fazer quanto para receber ligação. De certa forma o telefone público potencialmente propiciava um espírito de solidariedade entre os cidadãos, pois quando alguém atendia a ligação em um desses telefones, buscava encontrar o destinatário da ligação, preocupado para que o outro não perdesse a mensagem. Mas não era só de solidariedade que potencialmente os telefones públicos serviam. Muita gente gostava de fazer trote, sem se identificar, ou mesmo fazer ligação a cobrar para economizar com compra de cartão telefônico.

Encontrei o cartão das imagens aqui postadas dentro de um livro que foi lançado em 2001, período já de transição de usos entre telefones fixos e telefones celulares. 

Hoje as pessoas quase não usam mais telefones fixos, e os telefones públicos estão quase desaparecidos, uma mudança de cultura técnica. Cada vez mais a telefonia tem se personalizado, e os smartphones são de usos individuais. São os novos tempos!

Fico feliz por ter vivido todos esses tempos: o tempo em que não havia telefone em casa; o tempo em que usei bastante cartão em telefones públicos; o tempo em que adquiri o primeiro telefone fixo; o tempo em que utilizei o primeiro telefone celular; o contentamento de fazer a primeira ligação por vídeo. E por aí vai.

Em cada tempo aqui relatado, as interações com a telefonia se transformavam, e eu me transformava também. O smartphone hoje fica próximo do meu corpo o tempo inteiro, já não é mais desligado, não lembro mais dos números dos telefones das pessoas conhecidas, pois tudo está guardado na memória daquele objeto técnico.

E os cartões de telefone? Ora, eles fazem parte da boa memória, da saudade, da nostalgia.

Até a próxima!


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Pensar faz bem com Pedro Demo

Pensar faz bem com Pedro Demo - Pesquisa
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Três coisas para fazer na Bahia antes do carnaval

Bahia - carnavalizar
Bahia – carnavalizar

Antes de começar o carnaval da Bahia, um conjunto de rituais é realizado até a chegada dos dias de Momo. Não será possível listar todas as atividades culturais possíveis de se fazer entre os meses de dezembro e fevereiro antecedentes às festas carnavalescas, em Salvador, mas é possível registrar impressões sobre três grandes eventos que precedem a maior festa popular da Bahia.

O primeiro dos três acontece na segunda quinta-feira do mês de janeiro: a Lavagem do Bonfim. Para cumprir bem o ritual da festa, é  preciso fazer uma caminhada de mais ou menos 16 KM, de ida e volta entre o bairro do Comércio e o do Bonfim na secular capital baiana. Eis aí um ritual de diversidade: há pessoas que vão participar da corrida que acontece todo ano antes da caminhada; outras vão tomar uma cervejinha; há as que são devotas, e o itinerário é todo espiritualidade; há as que vão trabalhar, pois na primeira capital do país, a vida nunca foi fácil para a gente pobre do lugar. Ao chegar à igreja do Bonfim, o caminhante encontra religiosos de origem afro-brasileira em gestos de acolhimento, fazendo bênçãos para os que desejam interagir com as energias transcendentais dos descendentes dos povos do continente africano.

A Lavagem do Bonfim não é somente um evento de festa e culto à felicidade, mas se constitui como um movimento de resistência, resistência contra todas as formas de opressão e de impedimentos sociais, econômicos, artísticos e religiosos, aos quais os negros tiveram de passar ao longo da história do Brasil, a fim de se firmarem como uma das culturas de formação do país. Leitor, busque mais informações sobre isto.

Depois do Bonfim, uma boa pedida é ir à Noite da Beleza Negra, evento organizado pelo bloco afro Ilê Aiyê, cujo propósito é discutir com a sociedade brasileira, por meio da festa, os diversos aspectos da cultura afro-brasileira, tratando com mais ênfase a questão da estética produzida pelo povo negro da Bahia. É imperdível. Quando vou ao evento, evito tirar fotos para não perder nenhum instante daqueles movimentos estéticos tão singulares. As fotos? Estão impregnadas em minha retina, e os sons estão gravados na memória de minha existência.

E para abrir caminhos de paz e confraternização não só para o carnaval, mas também para o ano inteiro, gosto de ir à festa de Iemanjá, outro momento festivo-religioso, em que posso ver aquela gente em adoração transcendental diante do mar, fazendo reverências ao mistério e ao infinito.

A festa de Iemanjá é uma festa também política, de transgressão, pois é lá que o povo negro interage com uma imagem de uma santa branca, cujo especto cultural e religioso tem origem na cultura de origem africana também.

Festas como a do Bonfim e a de Iemanjá conclamam todas as pessoas para o cultivo do ecumenismo, para a trans-religião, uma prática festivo-espiritual que não aparta, mas se preocupa em juntar as pessoas.

Após uma jornada desta, a gente está iniciado em algumas coisas da Bahia e pode ir para a festa de Momo, para carnavalizar, carnavalizar no sentido de subverter as ordens que nos levam para o caos, as desigualdades e o desamor. Carnavalizar imaginando outros mundos possíveis.

Até a próxima!


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Pensar faz bem – Clifford Geertz

Pensar faz bem - Solange Barros
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Releitura no final do ano

Final de ano com releitura
Final de ano com releitura

Faltando menos de dez dias para o final do ano, resolvi reler Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios, de Charles Wright Mills, um reencontro agradável com um pensamento ágil sobre as coisas da sociologia e da formação do intelectual da área de ciências sociais. Observei que da primeira leitura ficou impregnado em mim o estilo direto, objetivo do autor, que se dirige ao povo que deseja se enveredar no trabalho cotidiano de pesquisa, mostrando os pontos fundamentais da prática e da teoria de pesquisa em ciências sociais.

Charles Mills é elucidativo ao abordar ideias originais como a imaginação sociológica e o artesanato intelectual e vai demonstrando como ele foi-se construindo como pesquisador na área nos sucessivos embates entre a teoria e a prática. Se o leitor espera que eu explicite aqui o que o autor pensa sobre imaginação sociológica e artesanato intelectual está enganado. Aconselho a ler o livro, pois seria um pecado tirar o prazer de quem ler a obra saber como o autor se organiza como pesquisador.

Se na primeira vez adotei um itinerário linear de leitura, nesta segunda oportunidade, iniciei com o capítulo O que significa ser um intelectual?, depois fui ao capítulo A promessa, passando logo após para O homem no centro: o designer, descendo a leitura das páginas para o texto O ideal do artesanato, até chegar ao início do livro com o texto Sobre o artesanato intelectual, ensaio que dá nome à obra. Os ensaios são independentes, mas se cruzam, dando uma noção de totalidade ao que está sendo discutido no livro: o trabalho intelectual do sociólogo. O livro traz a possibilidade de o leitor escolher a forma como vai dialogar com o pensamento do autor, não havendo problema sobre em qual ordem a leitura será feita.

Um capítulo à parte no livro é o da Introdução: sociologia e a arte da manutenção de motocicletas, feita pelo pesquisador brasileiro Celso Castro, um momento ímpar, em que o leitor conhece um pouco da biografia de Mills. Quer saber o porquê de o título ter o termo motocicletas? Nem vou te dizer, leitor.

Apesar de o texto ser direcionado a pesquisadores, principalmente aos iniciantes, considero a leitura apropriada para uma gama muito maior de público-leitor  e recomendaria  a leitura cuidadosa do livro a professores da educação básica de qualquer área do conhecimento, pois aprender a pesquisar é um processo que ajudaria bastante na formação das crianças e adolescentes do ensino fundamental e médio.

Com esta leitura, finalizei o ano de 2022, renovado para 2023. Para terminar, fiquei intrigado com alguns pensamentos de Mills, os quais replico abaixo.

Até a próxima!


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Charles Wright Mills por ele próprio

Não acho que é demais dizer que o intelectual político é alguém que exige de si formulações claras de posição política. Ele não pode ser precipitado; quando tem de fazê-lo, isso o que constrange. Ele leva a sério o que experimenta e o que diz a respeito. Se sua tarefa é formular planos de ação, é também lutar por uma compensação metódica da realidade, pois tal compreensão deve ser obtida para que a qualidade de seus planos de ação corresponda a seus padrões auto-impostos (sic). Página. 90

O trabalho do artesão é a mola mestra da única vida que ele conhece; ele não foge do trabalho numa esfera separada do lazer; leva para suas horas de ócio os valores e qualidades desenvolvidos empregados em suas horas de trabalho. Sua conversa em momentos de lazer gira em torno do trabalho; seus amigos seguem as mesmas linhas de trabalho que ele, e partilham uma infinidade de sentimento e pensamento. Página 62.

Para superar a prosa acadêmica temos de superar primeiro a pose acadêmica. Página 50.

Pensar faz bem – Clifford Geertz

Pensar faz bem - Clifford Geertz
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O EPraxe no túnel do tempo em 2022

O EPraxe no túnel do tempo
O EPraxe no túnel do tempo

A passagem por 2022 foi muito intensa, e a gente não pode deixar de olhar para o passado e observar o que fizemos. Desta forma, apresentamos para os leitores doze textos publicados no nosso site no ano passado como uma pequena retrospectiva.
Muitas aprendizagens e muito para construir em 2023!


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Pensar faz bem – Italo Marconi

Pensar faz bem - Italo Marconi
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