Um período de releituras para 2026

Releituras em 2026
Releituras 2026

Ao encerrar um ano, as pessoas criam, geralmente, expectativas na busca de novidades para o ano vindouro, esperando construir uma jornada diferente em relação aos anos anteriores.

Pensando nisso separei umas leituras para 2026, só que não será uma leitura convencional, na verdade serão releituras, pois neste processo de buscar o novo a gente termina por acumular muitas leituras e se esquece de cultivar a leitura profunda em relação aos textos que porventura tivemos oportunidade de ler.
Entre as releituras está o livro do psicólogo Carl Jung, Psicologia do inconsciente, pois na época em que o li, percebi mudanças significativas no modo como eu lidava com a minha existência.
Um outro livro que se incorporou a minha expectativa é Análise do discurso digital, de Marie-Anne Paveau, por tratar de um tema que me é caro e que venho fazendo nos últimos anos quando participamos cotidianamente de comunicações mediadas por muitas tecnologias, o que resultou em uma forma própria de usar a linguagem humana.
Por falar em discurso, Vilém Flusser abalou minha forma de observar a maneira como o humano se comunica quando escreveu A escrita: há futuro para a escrita?, se tornando assim uma releitura fundamental.
Toda vez que releio textos de Paulo Freire fico muito incomodado sobre as coisas que estou refletindo e o que estou fazendo com as respectivas reflexões. Disto resultou a vontade de rever a obra Por uma pedagogia da pergunta, do filósofo da educação.
Ainda pensando em educação, peguei na estante para releitura o livro A estrutura do discurso pedagógico, de Basílio Bernstein. Bernstein, no texto, mergulha nas profundezas dos discursos que se apropriam de outros discursos para produzir aprendizagem, uma reflexão rara sobre Educação e Linguagem.
Não vou encher este texto com referências: há outras leituras mais para revisitação e quem sabe eu não venha a compartilhar outras revisitações durante o próximo ano.
E que venha 2026 e que seja realmente um ano de releituras.
Até daqui a pouco, pois 2026 está chegando…

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O pensamento faz bem com Kate Crawford

Pensar faz bem com Kate Crawford
Pensar faz bem com Kate Crawford

A inteligência artificial não é uma técnica computacional objetiva, universal ou neutra, capaz de fazer determinações sem interferência de seres humanos. Seus sistemas estão inseridos em mundos sociais, políticos, culturais e econômicos, são moldados por pessoas, instituições e imperativos que determinam o que as IAs fazem e como o fazem. Elas são projetadas para discriminar, amplificar hierarquias e codificar classificações bastante limitadas. Quando aplicadas a contextos sociais como o policiamento, o sistema de justiça, a saúde pública e a educação, elas podem reproduzir, otimizar e amplificar desigualdades sociais existentes. Isso não acontece por acidente: os sistemas de IA são criados para ver e intervir no mundo de forma a beneficiar primariamente os Estados, as instituições e as corporações a serviço de quem estão. Nesse sentido, eles são expressões de poder que emergem de forças econômicas e políticas mais amplas, sendo criados para aumentar os lucros e centralizar o controle daqueles que os empreguem. Mas não é essa história da inteligência artificial que costuma ser contada.

Kate Crawford, em Atlas da IA: poder, política e os custos planetários da inteligência artificial, 2025, p. 247

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Desafios da educação no século XXI

Os avanços do capitalismo
Os avanços do capitalismo

A revista Perspectiva lançou o dossiê Tecnologias digitais e Educação: entre perturbações e desafios no início de dezembro de 2025. No dossiê há o artigo Os avanços do capitalismo (digital) no século XXI e a educação, de minha autoria e do professor Nelson Pretto. O artigo discute questões relacionadas à educação no contexto do início do século XXI, em que as relações sociotécnicas estão subordinadas a processos sustentados por códigos, dados e sensores. 

O texto é um convite para discutir um assunto de relevância para a época em que estamos vivendo, e o leitor poderá participar deste debate indo direto ao artigo e formulando as próprias reflexões.

Abaixo o resumo do artigo como um “aperitivo” para você, leitor, entrar na roda de conversa.

Resumo

Três   vertentes   epistêmico-metodológicas   de   construção   e   usos   de tecnologias (hardware e software) fundamentam as teorias e práticas sociais no início do século XXI. A primeira vertente se caracteriza pelo processo de  codificação  dos  diversos  objetos  técnicos  mediante  a  elaboração  de notações, via algoritmos, metadados, diagramas e modelos computacionais; a  segunda,  pela  rotulação  dos  entes,  e  dos  movimentos  destes  entes, animados    e    inanimados,    para    que    estes    sejam    mais    facilmente identificáveis;  a  terceira,  pela  produção  de  grandes  quantidades  de  dados sobre tudo o que acontece na Terra, transformando os referidos dados em insumos para produção de capital. A partir deste contexto, este trabalho se insere como atividade de cunho teórico, com base em fontes bibliográficas, de  construção  de  um  panorama  das  inter-relações  entre  educação  e sociedade,   quanto   aos   usos   sociais   das   tecnologias,   discutindo   as racionalidades técnicas sustentadas pelas ideias de construção de códigos, para  realizar  as  diversas  atividades  que  também  são  elaboradas  pelos humanos;   da   organização   de   memórias   artificiais,   dando   origem   à apropriação   de   enormes   quantidade   de   dados   por   grandes   empresas transnacionais;  da  catalogação  de  todos  os  entes  existentes  na  Terra, resultando em novas formas de sociabilidade e, em consequência, de novas formas  de  se  pensar  e  fazer  educação.  Os  resultados da  análise  teórica indicam  a  necessidade  de  realização  de  estudos  e  práticas  em  educação vinculados    ao    entendimento    dos    modos    de    existência    (ações    e significações)  produzidos  pela  racionalidade  técnica  que  afeta  a  forma como os humanos realizam sociabilidades no início do século XXI.

Até a próxima!

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Pensar faz bem com Mario Livio

Pensar faz bem com Mario Livio
Pensar faz bem com Mario Livio

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Pensar faz bem com Carl Jung

Pensar faz bem com Carl Gustav Jung
Pensar faz bem com Carl Gustav Jung

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Uma jornada de 27 noites

Uma jornada de 27 noites

No filme 27 noites uma mulher com idade acima de 80 anos é obrigada a ficar reclusa em uma casa de saúde. A reclusão dura 27 noites. Na trama os familiares da idosa a consideram em estado de demência e entram na justiça para que a mulher fique internada para avaliação.

Um perito é contratado para traçar o nível de sanidade da mulher e é quando inicia uma jornada de relações entre a cidadã e o profissional de saúde mental para que a idosa possa defender a tese de que ainda possui autonomia mental para continuar regendo a própria vida. A idosa é acusada de ter incapacidade para gerir as próprias finanças e de levar uma vida excêntrica buscando viver intensamente.

O filme 27 noites traduz para a arte as controvérsias relações políticas inerentes a todo tipo de família, ao tratar as nuances das relações de forças que há entre as pessoas quando o assunto é dinheiro.

No filme a voz do capital transita e interfere no modo como as pessoas constroem os próprios afetos, fazendo com que sentimentos como caridade e compaixão fiquem em segundo plano.

O gostoso da construção da personagem principal é que ela é idosa e se identifica como idosa, ou seja, uma pessoa que conseguiu viver mais que outras pessoas, compreende as próprias limitações e sabe aproveitar os próprios potenciais para viver melhor.

Até a próxima!

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Pensar faz bem com Immanuel Kant

Pensar faz bem com Immanuel Kant
Pensar faz bem com Immanuel Kant

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Outras histórias sobre o Brasil

Malês
Malês [filme]

Há cerca de 35 anos tive a oportunidade de ler Rebelião escrava no Brasil (1983), do cientista social João José Reis. A obra foi fundamental na minha vida de leitor, pois trazia levantamentos históricos sobre a insurreição de descendentes de africanos que eram escravizados no Brasil do século XIX.

Nunca tinha lido algo parecido sobre a história dos afrodescendentes no Brasil e a minha visão antes trazia a impressão de heroísmo de personagens como  princesa Isabel, uma suposta líder para a libertação dos escravizados na época. Também era confusa a minha visão sobre personalidades da história do Brasil como Domingos Jorge Velho, que nos livros didáticos de História parecia ser mais um herói do que um algoz da nossa historiografia.

Foi com os achados históricos do também professor João José Reis que busquei mais informações sobre História e fui, aos poucos, conhecendo a jornada contra a escravização e colonização que foi traçada por personagens negros durante a história da humanidade.

Daquela leitura veio a curiosidade de ler Palmares: Guerra dos Escravos, de Décio Freitas. De Freitas, passei à leitura de Spartacus, de Howard Fast (1959), continuando com Escrevo o que quero, de Steve Biko (1988), Cartas da prisão (1977) e Das Catatumbas (1978), de Frei Betto, e Lamarca, o capitão da guerrilha, de Emiliano José e Oldack Miranda (1985), todas estas leituras fundamentais para compreender melhor como são construídos os modos de opressão nas sociabilidades humanas.

E há poucos dias tive a oportunidade de assistir ao filme Malês, de Antônio Pitanga, uma obra que objetiva resgatar fatos históricos, que de alguma forma, não foram bem discutidos dentro do espaço escolar durante muitos anos, inclusive, por falta de documentação histórica para fundamentar os debates sobre o assunto.

Malês tem como uma das referências históricas principais o conjunto de pesquisa realizado pelo cientista social João José Reis, o que torna o filme não só um documento para diversão e fruição, mas se converte como elemento de rediscussão sobre a História do Brasil.

Pitanga e equipe buscaram ser mais fiéis possível às formas de sociabilidades vigentes na época, procurando retratar a cultura do Brasil escravocrata do século XIX a partir de elementos como a linguagem utilizada na época, a forma de se vestir das pessoas e os modos como as relações sociais aconteciam: uma surpreendente aula de história do Brasil fora do ambiente escolar e acadêmico.

Malês se desloca da academia para a sociedade, via construto artístico de forma singular, configurando-se como um jeito diferente de recontar a história dos afrodescendentes no Brasil.

Até a próxima!

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Pensar faz bem com Arlindo Machado 2

Pensar faz bem com Arlindo Machado 2
Pensar faz bem com Arlindo Machado 2

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Os irmãos multimodais

Os irmãos multimodais
Os irmãos multimodais

A Bahia possui um legado de interseções artísticas marcadas por amizades e fraternidades, como é o caso de Antônio Carlos e Jocafi e Os Doces Bárbaros (Gil, Bethânia, Gal e Caetano).

De forma mais abrangente há os afetos entre artistas baianos e não baianos, como entre Os Tribalistas (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown) e os Novos Baianos (Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Jorginho Gomes e  Didi Gomes (e ainda os ex-integrantes Luiz Galvão, Moraes Moreira, Dadi Carvalho, Baxinho, Bola Morais, Odair Cabeça de Poeta, Charles Negrita). E olha que os Novos Baianos eram filhos de João Gilberto e, no mínimo, primos dos Doces Bárbaros.

Os Novos Baianos ainda deram crias como a banda A Cor do Som (Mu Carvalho, Dadi Carvalho, Armandinho, Ary Dias, Gustavo Schroeter ( e os ex-integrantes Victor Biglione, Perinho Santana, Jorginho Gomes e Didi Gomes): é um legado atrás do outro, tal qual as pessoas quando estão atrás de um trio elétrico.

Os artistas acima criam um caldeirão de criatividade e não há como enquadrar essas irmandades em algum ritmo musical, tal a diversidade artística que foi gerada por esses pensadores da cultura brasileira.

É preciso lembrar de uma irmandade artística muito peculiar em relação aos registros mencionados acima. Trata-se dos três obás de Xangô: Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé. Estes trazem na irmandade uma pitada a mais de pimenta para melhorar um tempero criativo que atravessava as barreiras do visual, do escrito e do auditivo.

Explico-me melhor: os três mestres da cultura afro-baiana criaram um acervo artístico reconhecido mundialmente e ainda se ressignificaram ao criar entre si laços de amizade alicerçados em cooperação, carinho e muito amor.

E são as tais ressignificações que o leitor poderá apreciar ao assistir 3 obás de Xangô, com direção de Sérgio Machado, um documentário que mistura as belíssimas imagens de Carybé, com o cancioneiro de Dorival Caymmi e a poética da escrita de Jorge Amado.

Quando observo uma imagem feita por Carybé, escuto os sussurros da voz de Caymmi cantarolando  sem parar e invade em mim a poética de Jorge Amado, como se estivesse descrevendo aquelas imagens em forma de narrativas. 

Os três obás de Xangô eram unidos por diversos símbolos, como a labuta do ser artista, a busca pela transcendência e o compromisso com a gente do povo. Isto tudo fortaleceu o senso de amizade entre eles, o que resultou em um conjunto de artes multimodais formado pelas letras de Amado, a voz de Caymmi e as imagens de Carybé. É ver, ouvir e ler para crer.

Até a próxima!

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Pensar faz bem com Dorival Caymmi

Retirantes (Vida de Negro)
Pensar faz bem com Dorival Caymmi

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Lazzo Matumbi – o artista da multiplicidade

Lazzo Matumbi - o artista da multiplicidade
Lazzo Matumbi – o artista da multiplicidade

Não tive a oportunidade de ver Lazzo Matumbi arrastar o Ilê Aiyê no final dos anos 1970, uma pena. Conhecia Lazzo por meio dos comentários que eu ouvia aqui e ali. Foi com a música Do jeito que seu nego gosta, que iniciei a jornada de aprendizagem sobre a concepção musical do artista soteropolitano, um cantor de música afro-brasileira que intersecciona samba de roda, samba duro, samba-canção, afoxé, reggae, samba-reggae e por aí vai…

O grande ápice do meu encontro com a musicalidade de Lazzo foi em um dia de carnaval na Bahia. Lazzo desfilava na Avenida Sete, em Salvador, cantando samba-afro, reggae e samba de roda. Já contei esta história antes: eu estava na praça São Bento, junto da igreja de mesmo nome, quando o trio elétrico com Lazzo surgiu. Os foliões estavam quase parados, pois já havia passado da meia noite e aquela gente parecia muito exausta de tanto dançar prazerosamente.

De repente, um rapaz franzino, saiu correndo para o canto da avenida, pegou duas folhas enormes de coqueiro, adereço muito usado para enfeitar os carros alegóricos na época, e iniciou um balé afro muito bem sincronizado.

As pessoas atônitas já pensavam em correr, pensando que um tumulto iria iniciar, foi quando o dançarino abriu uma roda e começou a fazer movimentos refinados tal qual os pássaros fazem quando começam a voar. Os foliões não sabiam se dançavam reggae, samba de roda ou samba-afro, tal era a facilidade com que Lazzo desfilava de um ritmo para outro.

Em frente ao pequeno largo do São Bento, a terra tremeu em regozijo de paz e harmonia. Ali foi uma experiência fundamental para entender o quanto diversa era a música da Bahia na época.

Foi pelo menos uma hora de música e dança atrás do trio elétrico. Lazzo não sabia somente puxar a galera de bloco afro, também sabia puxar a multidão que vai atrás do trio elétrico. Foi a primeira vez que presenciei um cantor negro em cima de um trio, cantando música afro, fazendo as pessoas pensarem, dançarem e cantarem: momento mágico mesmo.

A partir daquele dia passei a ouvir com mais atenção o cantor e hoje quando ouço algum álbum de Lazzo, lembro daquele momento tão peculiar. Isto foi lá na década de 1980, e eu não lembro nem o dia e nem o ano. Só sei que vivi.

Ainda sobre Lazzo, na segunda-feira do dia primeiro de setembro deste ano, a TV Educativa da Bahia (TVE) transmitiu a nova temporada do TVE Entrevista, tendo como entrevistador o jornalista Bob Fernandes e como primeiro entrevistado Lazzo Matumbi.

A entrevista foi um registro de parte da história da Bahia dos anos 1970-2020, com Lazzo falando de forma desinibida sobre música e questões sociais. Lazzo está sempre com sorriso aberto, mas isto não o impede de tocar em fatos da recente história da Bahia e explicitar momentos de construção de desigualdades de toda ordem (social, racial, econômica, educacional etc.), narrativa feita a partir de fatos ocorridos na própria história de vida do artista.

No final da entrevista, Lazzo declama em forma de cantoria e ladainha a letra da música 14 de maio, uma obra de arte que contrapõe o senso comum de que música na Bahia se presta mais a remelexos e rebolados.

Ficamos por aqui e até a próxima!

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