Este trabalho está sob licença Creative Commons CC BY NC SA 4.0. A licença permite que outras pessoas e instituições remixem, adaptem e criem a partir do próprio trabalho para fins não comerciais, desde que atribuam a este site o devido crédito e que licenciem as novas criações sob termos idênticos ao aqui licenciado.
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Os livros têm vida própria. Eles ficam escondidos nas estantes nos espreitando. Alguns deles são teimosos e esperam por nós para serem lidos durante toda a vida se for preciso.
Esses livros que esperam a vida toda são aqueles desprezados por nós. Os que ficam dentro de caixas escuras e baús antigos, ou até mesmo estão disponíveis na parte principal da estante, mas parecem a nós como transparentes, imperceptíveis.
Por isso tudo devemos de vez em quando dedicar um tempo a procurar esses objetos mal amados e incompreendidos por nós. É bom lembrar que a tarefa de procurar objetos que a gente despreza é algo terrível, maçante e tedioso.
Às vezes não lemos esses livros por falta de experiência de leitura ou má formação intelectual, o que nos leva a um afastamento sistemático desses objetos.
Foram com base em motivos como os listados acima que adquiri livros e passei anos sem lê-los, até décadas.
Nos próximos parágrafos vou trazer alguns relatos sobre livros que eram essenciais para minha leitura e formação, mas que ficaram abandonados nas estantes, esperando o milagre do meu olhar.
Livros abandonados
A escrita, há futuro para a escrita?, de Vilém Flusser – este livro traz uma reflexão sobre a capacidade humana de construção simbólica, um olhar diferenciado sobre uma das maiores invenções da humanidade, a escrita. Meu pecado na hora de lê-lo foi restringir a compreensão inicial do texto a uma análise somente restrita à escrita, quando o texto avança sobre a construção simbólica do humano muito além do código escrito.
Cultura e materialismo, de Raymond Williams – Cultura é um conjunto de ensaios sobre a contemporaneidade na perspectiva da crítica cultural materialista. Fiquei limitado na leitura no âmbito exclusivo da literatura e deixei de perceber como o autor fazia uma análise profunda das relações culturais do século XX.
As teorias da cibercultura, de Francisco Rüdiger – aqui o autor constrói um panorama vigoroso sobre o contexto filosófico em torno da ideia de cibercultura. Começava a ler e parava, em um ciclo interminável. Quando voltei definitivamente ao texto, reli os trechos já antes analisados e parti para uma compreensão mais consistente do que seria esses construtos culturais atravessados por tecnologias da informação e comunicação no ambiente da internet.
Cultura da interface, de Steven Johnson, é um olhar minucioso sobre as diversas faces a que o humano está exposto ao interagir com os objetos técnicos. O texto demonstra como a construção das interfaces gráficas contribuíram para o que existe hoje de convivência entre humanos e não humanos e como esse contexto altera a forma como os humanos vivem na atualidade.
Já o livro que mais demorei de ler foi Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis – um romance-testamento sobre as intrigantes relações culturais construídas no século XIX na sociedade brasileira. Eu tinha medo de conhecer os meandros da sociedade brasileira daquela época, motivo pelo qual, a leitura demorou mais de 14 anos para ser concluída.
Por fim, listo neste grupo Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, um livro-testamento do educador brasileiro, em que ele busca uma comunicação aberta com a sociedade sobre pressupostos de uma educação como prática da liberdade, sinalizando as gêneses das relações assimétricas de poder no âmbito da educação. Ler Paulo Freire não é fácil, pois ele nos incita o tempo todo a olhar para o que estamos teorizando, assim como nos provoca em torno das práticas que desenvolvemos no dia a dia.
Hoje os livros acima se tornaram referenciais de leitura para mim e ocupam lugares especiais na estante de casa. Digo mais: eles são fontes de releitura e cada vez que os leio, reaprendo alguma coisa para minha formação.
Caro leitor, fique atento aos livros que estão em casa abandonados. Visite sua estante novamente, abra aquela caixa guardada em um cômodo da casa, pois lá poderá estar adormecido algum tesouro de leitura te esperando.
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Ana Davenga, Dudu-Querença, Maria, Salinda, Luamanda, Cida, Zaíta, Di Lixão, Lumbiá, Kimbá, Ardoca, Naíta e Dorvi são alguns dos personagens que povoam o imaginário das histórias de Conceição Evaristo em Olhos D’água, uma espécie de tratado sociológico-literário do ser afrodescendente em sociedades assimétricas como a brasileira.
No livro a multiplicidade do feminino negro se esvai, brota e emerge em temas como aborto, estupro, fome, dor e desejo. Nas narrativas o corpo e a alma dos negros assumem lugares de fala ainda não explorados e se expressam em narrativas que atravessam exercício da sexualidade, seja de âmbito hétero ou homossexual, afinal de contas o corpo tem necessidade de se manifestar tanto quanto a alma.
E é esse corpo que transmite à alma os sofrimentos oriundos da maternidade que não pode ser vivenciada em plenitude, ou o trabalho desmedido atrás de uma renda para sobreviver em uma sociedade desigual. Do corpo também emerge a violência que insiste em jogar os pobres na corda bamba entre a vida e a morte em um jogo nervoso à mercê da miséria cotidiana. Esse mesmo corpo é levado para a prostituição até ficar de frente com a miséria desmedida.
Seu moço, é muita história!
O corpo carrega histórias e leva em si marcas da infância à velhice, em um estado de repetição, que parece nunca terminar. Mas é esse mesmo corpo que diz à alma, que é preciso não perder a esperança, subverter o medo e resistir ao tempo das intempéries.
Dentro desse mosaico de circunstâncias, Conceição Evaristo escreve para não morrer de fome, escreve para eternizar-se no registro e não perecer ante às adversidades.
Olhos D’água é uma narrativa construída sob múltiplas vozes e fluxos de pensamentos em interação, pois “A gente combinamos de não morrer!”, mesmo quando “A morte brinca com balas gatilhos de meninos.” (p. 99). Ao ler Evaristo o pensamento vagueia, mas não fica perdido, pois há muito o que se constituir neste mundo, e a literatura pode nos ajudar nesta empreitada.
Vou terminar esta resenha passeando pelo conto Ayoluwa, a alegria do nosso povo, que envereda sobre as dores do viver: “Com a ida de nossos mais velhos ficamos mais desamparados ainda. E o que dizer para os nossos jovens, a não ser as nossas tristezas?”, mas há busca de recursos internos e coletivos de construção da esperança: “A partir daquele momento, não houve quem não fosse fecundado pela esperança.” A esperança não nos é dada, ela é conquistada a cada intempérie da vida. A esperança é um estado dinâmico de cópula que subverte a dor e se transforma em prazer experimentado. E a resposta para os óbices da vida vem “quando a dor vem encostar-se a nós, enquanto um olho chora, o outro espia o tempo procurando solução.”. Desta forma podemos nos aproximar do fim das histórias de Evaristo como se fosse um recomeço de existência, resistência e luta, para encher os olhos de vida.
Até a próxima!
Conceição Evaristo por ela mesma
Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam um debocha do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam as salivar sonho de comida.Olhos D’água, p. 16
Nuzinho. Bonito o Davenga vestido com a pele que Deus lhe deu. Uma pele negra, esticada, lisinha, brilhosa.Ana Davenga, p. 23
Habituou-se à morte como uma forma de vida.Dudu-Querença, p. 34
Uma coisa estava lá dentro da barriga dela e ia crescer, crescer até um dia arrebentar no mundo. Não, ela não queria, precisava se ver livre daquilo.Maria, p. 44
Não ia matá-la, não ia cometer suicídio. Mas ia disputar ferrenhamente os filhos.Beijo na face, p. 57
O amor é terra morta?
O amor é terremoto?
O amor não cabe em um corpo?
O amor é tempo de paciência?
O amor comporta variantes sentimentos? Luamanda, p. 60-63
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Desde setembro de 2006 que me aventuro pelo mundo da escrita na Internet e ao completar 15 anos de luta com e contra a palavra, considero fundamental usar este momento para rememorar, voltar ao passado e revisitar o processo de escritura.
Um pouco desta rememoração o leitor poderá acessar nos textos que escolhi como ilustradores deste período de luta!
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Estou realizando pesquisa em nível de doutorado na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia sobre mediações algorítmicas na internet no âmbito da educação e durante o primeiro semestre de 2021, realizei o trabalho teórico denominado Conceitos-chave em Vilém Flusser para entendimento dos algoritmos computacionais. No trabalho são discutidos os conceitos Prescrições, Imagem técnica, Aparelho, Decifrações, Códigos digitais e Transcodificação.
O trabalho foi apresentado no VII COMCULT, Congresso Internacional de Comunicação e Cultura, evento on-line, realizado de 13 a 17 de setembro de 2021, na mesa de discussão sobre Aspectos da Automação.
Para o leitor ter uma ideia do que foi apresentado no COMCULT, trago abaixo alguns argumentos da pesquisa, que foram defendidos durante o encontro.
No âmbito das ciências da computação, o algoritmo é concebido como conjunto sequencial de passos para atingir um objetivo ou resolver um problema, mas a realidade vem mostrando que esse conceito restrito à computação não dá conta da multiplicidade de significações que esse objeto técnico pode proporcionar. Diante desta questão, elaborei um mapeamento bibliográfico, com base em Vilém Flusser, para ajudar na compreensão dos algoritmos computacionais.
No mapeamento, verifiquei que, no início do século XXI, pesquisadores buscaram estudar os algoritmos em perspectivas que iam além da análise técnica desses objetos culturais. Entre os estudiosos Claire Wardle pesquisou os algoritmos no âmbito da desordem da informação; já Ted Striphas pesquisou os algoritmos a partir da ideia de cultura algorítmica, ou seja, o processo de cada vez mais os humanos delegarem a objetos técnicos as atividades antes realizadas pelos humanos, e Tarleton Gillespie estudou a relevância dos algoritmos, tendo em conta especificidades como construção lógico-discursiva desses objetos e o processo de outorga de decisões aos algoritmos quanto ao que seja relevante para o humano saber.
Se já existe um conjunto de reflexões a respeito dos algoritmos, haveria necessidade de se debruçar sobre os conceitos de Flusser para estudar esse objeto técnico? Esta foi uma questão desafiadora para a construção da pesquisa.
O primeiro conceito que analisei foi o de Imagem técnica. Flusser considera que as imagens técnicas são componentes culturais de uma fase pós-histórica da existência humana, posterior às imagens tradicionais e ao processo da escrita.
Elas são produzidas por aparelhos e “aparelhos são objetos do mundo pós-industrial, para o qual ainda não dispomos de categorias adequadas” (Flusser, em A escrita) para estudar.
Flusser denomina de Prescrições o gesto humano de se comunicar com os objetos técnicos: o ato de programar.
Flusser desenvolve também o conceito de Decifrações como o gesto de tentar decodificar os objetos técnicos. Nas decifrações, podemos agir comentando, o qual ele denominava de o Desdobrar Cauteloso, podemos agir de maneira alinhada à lógica do código, que ele denominava de o Sobrevoar Precipitado, ou podemos exercer uma atitude crítica diante da decifração do código, o qual ele denominava de o Farejar Desconfiado.
Os novos códigos eram denominados por Flusser de Códigos Digitais. Para ele, “Os códigos são considerados digitais por simularem a função de atribuir sentidos do que antes era realizado pelo cérebro humano”, (Flusser, em A escrita).
Por fim, Flusser desenvolve o conceito de Transcodificação. Segundo ele, “Um método crítico completamente diferente é aqui imprescindível, a saber, aquele que é designado, de maneira aproximada, pelo conceito de “análise de sistemas”, (Flusser, em A escrita). Flusser entende a transcodificação como uma nova experiência espaço-temporal, que exigirá de nós novas aprendizagens.
Com os conceitos de Flusser, é possível verificar aproximações entre o filósofo e os pesquisadores do início do século XXI que se debruçaram sobre o advento dos algoritmos. E mais: a contribuição filosófica de Vilém Flusser pode incentivar estudos futuros sobre a relação do humano com a técnica, em um mundo mediado por códigos digitais.
Os textos de Flusser que serviram de base para a pesquisa foram os livros O mundo codificado, Filosofia da caixa preta, A escrita, O universo da imagem técnicas e o artigo A sociedade alfanumérica.
Em linhas gerais estas foram as ideias discutidas no Congresso. Caso deseje ter acesso ao conteúdo integral da pesquisa teórica realizada sobre o pensamento de Vilém Flusser, visite o site do Congresso.
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De 13 a 17 de setembro de 2021, a Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP) realizará o VII Congresso Internacional de Comunicação e Cultura (VII Comcult), na modalidade on-line. O evento será dedicado a discutir o pensamento filosófico de Vilém Flusser, pensador de origem tcheca que viveu no Brasil durante 30 anos.
O evento é conduzido sob múltiplas parcerias como o Arquivo Vilém Flusser São Paulo, o Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia – CISC e o Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica – PUC/SP.
O evento trará para debate questões relacionadas às dimensões de Imagem e Imaginação; Artifício, Artefato, Artimanha; Aspectos da Automação; Diálogo, Discurso e o Outro na Comunicação; Tem, a escrita, futuro?; Filosofia e Inteligência Brasileira; Do espaço; Modelos mudam.
O evento é de âmbito internacional e tem entre os participantes pesquisadores como Mikhail Aleksandrovich Stepanov, da Saint-Petersburg State University of Industrial Technology and Design, Breno Onetto Muñoz, da Universidad Austral de Chile, Maren Hartmann, da Universität der Künste Berlin, dentre outros.
Estarei no evento no Grupo de Trabalho Aspectos da Automação, sob a coordenação dos pesquisadores Coordenação Anahí Alejandra Ré e Agustín Berti, professores da Universidade de Córdoba, Argentina, discutindo parte de pesquisa de doutorado a respeito de Conceitos-chave em Vilém Flusser para entendimento dos algoritmos computacionais.
Visite o site da VII Comcult para obter mais informações.
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Setembro deste ano é o mês em que Paulo Freire faria 100 anos se estivesse vivo. Fiquei pensando como eu poderia externar o que aprendi com o grande educador brasileiro. Veio então a ideia de escolher um livro do filósofo da educação brasileira como testemunho de leitura que contribuiu para minha formação como educador.
Espero que gostem.
Trabalhei com alfabetização de jovens e adultos de 1994 a 2008 e durante aquele tempo mergulhei na obra de Paulo Freire para conhecer melhor o posicionamento filosófico do educador brasileiro. Na verdade eu desconfiava do que Paulo Freire escrevia e parti para articular o que o autor defendia em termos de ideias sobre a educação cidadã e o que a prática cotidiana me diria.
Quanto mais eu lia Paulo Freire, mais eu voltava para a prática renovado, quanto mais eu lia Paulo Freire, mais eu tinha necessidade de conhecer outros autores das diversas áreas do saber humano. Foi a dimensão da desconfiança que me fez não ter Paulo Freire como dogma, o que me fez buscar competência técnica em áreas como pedagogia, psicologia, sociologia, matemática, linguística, geografia, estatística, história, tecnologia, tudo isto para poder alfabetizar adultos.
E foi a busca da competência técnica, aquela sensação de que eu sempre sabia menos, que eu era um ser incompleto, inconcluso e inacabado, que desenvolveu em mim um compromisso político com a educação, um compromisso político contra todas as formas de desigualdades sociais.
Dos livros produzidos por Freire, o que mais trabalhei na alfabetização de adultos foi A importância do ato de ler em três artigos que se completam. É um livro de escrita breve, mas de muita densidade.
O primeiro elemento que me chamou a atenção foi o artigo A importância do ato de ler (p. 19-31), por ser um texto que discute a questão da aprendizagem de quem se educa, seja educador ou educando, e como o processo de aprender vai se construindo entre a leitura do que está escrito e do que a vida nos proporciona. No artigo aprendi o quanto é vital, no processo de leitura, estabelecer um diálogo com quem produziu a escrita.
O segundo momento do livro que considero marcante é o que trata da questão do ato de estudar, nas páginas 72-76. Ora, o ato de estudar não se restringe ao momento em que a pessoa está na escola, mas se estende a todos tempos e lugares onde interagimos com nós próprios, com as outras pessoas, com o ambiente e com os meios técnicos disponíveis. No início do texto, Freire cria uma ilustração para indicar especificidades necessárias para quem se dedica aos estudos, pensar, planejar, aplicar, viver e avaliar a realidade.
Por fim, há um pensamento que me persegue desde quando tive o primeiro contato com a obra:
Ninguém ignora tudo.
Ninguém sabe tudo.
Todos nós sabemos alguma coisa.
Todos nós ignoramos alguma coisa. (p. 82)
Este pensamento me mobilizou para rever tudo o que eu fazia em educação:
Que estou dizendo aos educandos?
Que estou fazendo quando estou com os educandos?
Que estou dizendo e fazendo quando não estou com os educandos?
Estas são perguntas cruciais que permeiam a minha jornada de educador. Paulo Freire chamava isto de coerência entre a teoria e a prática. No trabalho que faço como educador necessito dessa coerência de que fala Paulo Freire, principalmente quanto à questão do conhecimento, pois sempre há coisas para eu aprender, assim como há experiências pelas quais vivi e que poderão servir para a mediação social na sala de aula.
É este o legado da concepção de Paulo Freire que tanto me afetou profissionalmente. Era preciso comungar com vocês, nos 100 anos de existência de Freire, um pensamento tão singular para a formação da cultura brasileira.
E a práxis pedagógica, do que a gente faz e do que a gente pensa, não é fácil de ser vivenciada, é um desafio, desafio que pude experimentar durante os 12 anos com alfabetização de jovens e adultos, onde tive de aprender no dia a dia o quanto as pessoas sabiam, o quanto eu sabia ou desconhecia.