Feminicídio

Notas nos jornais:

Ele me bateu com marreta
Até minha cabeça não aguentar mais!

Sinto culpa em tudo que faço
E nas mãos daquele rapaz não me satisfaço

Eles me espancaram sem parar
Diziam que se eu queria ser homem
Como homem teria de apanhar

Ela vestiu a máscara masculina
Para me bater por ciúmes de outra menina
Apanhei da cabeça aos pés
Fiquei perdida sem acolhimento e sem mulher

Os meninos se debruçaram sobre a menina
Era um, eram dois, eram três
Eram quatro, eram cinco, eram seis
Eram tantas extravagâncias
Que ela morreu sem esperança

Ele esbofeteou a esposa no primeiro dia
Ele espancou a esposa no segundo dia
Não houve ressureição no terceiro dia

Ela apanhava todo dia
Parecia canção de Melodia
Incomum era o povo que nada fazia

Ele não respeitou a distância mínima
Hoje, entre as sombras, minha alma vaga perdida
Mas todo este medo não vai tirar de mim a identidade feminina

Didática da Prática

Imagem da capa do livro Didática do ensino corporativo

A gente está acostumado a ler livros e fazer comentários de obras, que já são conhecidos no mercado. Resultado: a gente acaba compartilhando mais obras de autores que já têm posição destacada no mercado, relegando os pequenos autores, e os iniciantes, a posições de sombra na  cena editorial brasileira.
Com isto perdemos ensaístas de qualidade, poetas, romancistas, contistas, pesquisadores, que, por um motivo ou outro, não conseguiram se vincular aos grandes gestores da mídia impressa.
O Livro
Liduína Xavier e Cacilda Calado resolveram se sobrepor às ideias trazidas nos parágrafos anteriores e, como Dom Quixote e Sancho Pança, lançaram um livro na área educacional: Didática do Ensino Corporativo – Elementos – O ensino nas organizações. Elas não querem ficar na sombra e estão dispostas a compartilhar o que sabem.
Essas educadoras quixotescas saíram para campo, discutiram, escreveram, correram atrás de editores,  lançaram a obra e partiram para a venda de porta em porta. Estou aqui imaginando a dupla de Cervantes observando lá de cima e dizendo um ao outro que a jornada que eles fizeram rendeu frutos.
O livro traz fundamentos da educação praticada dentro das empresas. Primeiro as autoras navegam em suportes teóricos, dialogando um pouco sobre epistemologia e didática, depois trazem elementos didáticos que sustentam a prática de ensino, até chegar à educação corporativa.
As Autoras
A obra é fruto do dia a dia das autoras como educadoras corporativas, que atuam como selecionadoras de educadores, formadoras didáticas, planejadoras de ensino-aprendizagem e produtoras de textos educacionais.
Cacilda Calado é consultora de educação corporativa e dedicou boa parte da vida profissional ao desenvolvimento de soluções educacionais para áreas como auditoria, administração de empresas, além de educação, é claro.
Liduína Xavier é uma educadora plural, pois trabalha com consultoria educacional na formação de pessoas nas empresas e ainda escreve no Blog do Triunfo. Acha pouco: ela também participou de escrita de documento sobre história da educação corporativa de uma  empresa brasileira secular com atuação no âmbito internacional.

Cacilda
Lidu
De volta ao livro
Didática do Ensino Corporativo serve com motriz para incentivar outros autores a expressarem no papel a própria experiência profissional e assim compartilhar o que sabem com outros trabalhadores.
O livro, apesar de ter abordagem teórica, traz nas entrelinhas o que as educadoras aprenderam com as interlocuções com os educandos nas práticas cotidianas.
O que esperar de uma segunda edição do livro? a educação a distância tem se expandido nos últimos 20 anos dentro das organizações e  (quem sabe?) elas não poderiam apreciar os pontos relevantes e controversos desta modalidade de educação.
E você, leitor? Leia o texto também e escreva para elas.
E vivam os novos autores!
O que li? Didática do Ensino Corporativo – Elementos – O ensino nas organizações
Quem são as autoras? Liduína Benigno Xavier e Cacilda de Araújo Calado
Quando foi lançado? 2014
Qual a editora? Líber
Até a próxima!

Caixa de Engraxate


A caminhada

Era mais uma daquelas caminhadas matinais, quando vi no canto do jardim, na praça, uma caixa de engraxate.

Engraxates eram trabalhadores que lustravam sapatos. Eles eram parecidos com artesãos e deixavam os calçados de couro mais brilhantes e bonitos. Também a maioria deles era formada por profissionais autônomos, que empunhavam uma caixa nas costas e ia oferecendo os serviços aos cidadãos que passavam. Alguns profissionais tinham um certo status e possuíam uma cadeira feita exclusivamente para o serviço de engraxe.

Aquela caminhada me trouxe um sentimento de nostalgia e me pus a pensar sobre como mutantes são as profissões.

Mutações no Trabalho

Lembro que meu pai era alfaiate e costurava para muitas pessoas que desejam ter uma calça exclusiva. Com o tempo ele foi deixando a atividade, pois muitos clientes já não queriam mais exclusividade; o negócio da vez eram as roupas industrializadas. Com as mudanças, do ofício de alfaiate ele só fazia as calças dos filhos para estes usarem na escola.

Hoje já não se usa o termo alfaiate; as pessoas que costuram são chamadas de costureiras, e o fruto do trabalho de alguns é chamado de alta costura.

Já não se ouve mais falar em engraxates também. Em alguns hotéis ainda se acham máquinas de engraxar que ficam na portaria à disposição dos hóspedes. Em algumas repartições públicas há engraxates exclusivos para os funcionários lustrarem os sapatos (que luxo!).

Outra atividade que sofreu mudanças significativas foi a de cozinheiro. Opa! Desculpe os profissionais da área. Agora chamamos de Chef. A preparação da comida saiu da cozinha doméstica e foi parar nos estúdios de TV. Os chefs adotaram o marketing como competência de trabalho, assim como os costureiros, e vivem em disputas nos programas de apresentações televisivas.

Lembram do datilógrafo? Na década de 1980 os bons datilógrafos dominavam os escritórios. A onda das tecnologias da informação e comunicação (TIC) chegou, e os profissionais das máquinas de escrever deram lugar aos digitadores. Estes tiveram vida curta, cerca de 30 anos, e foram substituídos pelos profissionais dos sistemas “Office” e por tecnologias que capturam textos de material impresso e transformam vozes em documentos escritos eletrônicos. Globalizou.

Até medicina, engenharia e direito tiveram partes das atividades absorvidas por (TIC). Muitos médicos só conseguem apresentar diagnóstico depois da validação tecnológica; cálculos e cálculos são realizados por computadores de ponta; processos jurídicos são mapeados por sistemas de computação cognitiva.

Por falar em médico, antes quando alguém tinha dores nas costas, procurava um clínico geral; depois passaram a procurar um ortopedista; este era auxiliado por um fisioterapeuta; hoje quando a gente liga para uma clínica de ortopedia e solicita uma consulta, a atendente, um tanto preocupada, pergunta em  que ponto do corpo é a nossa dor, pois a ortopedia está ultraespecializada, e os profissionais só atendem por subáreas de especialização: ortopedia do ombro, da cervical, da vertebral, dos joelhos…

E o Futuro?

Aí eu volto pasmado para a caminhada do início do texto e lembro da caixa de engraxate; e me pergunto: onde está a pessoa que abandonou a própria ferramenta de trabalho? Como lidar com as permanentes transformações do mundo do trabalho? Que caminhos devemos trilhar para dar significado de vida a essa gente que viu a profissão se esvair no mercado do negócio e da mudança?

Voltei para casa, peguei escova e pasta de sapato e lustrei o velho e bom calçado, pensando no que permanece nas coisas que faço e o que terei de mudar para viver e sobreviver no mercado de trabalho.

Palavras e Imagens

Uma coisa é escrever sobre a necessidade de conhecer o mundo dos infográficos, outra é termos acesso a essa forma de produzir cultura no mundo atual. Pensando nisto, trouxemos como reflexão de hoje um comentário sobre o livro Infografia História e Projeto – Origens, conceitos, processos de design que modificou a forma da mídia mais tradicional da História.

A obra é de Ary Moraes, design especializado em infografia,  que nos apresenta um livro didático e de comunicação acessível a quem é leigo na área.

No texto encontramos um breve histórico da infografia, com relato dos primórdios dessa abordagem de comunicação nos nossos jornais dos séculos XIX e XX, até chegar à recriação dos jornais em formatos bem mais visuais que temos hoje.

Há também um apanhado sobre a prática da infografia, com descrição do processo de trabalho para se chegar à articulação entre escrita e imagem. Nesta parte do livro dá vontade de pegar papel, caneta e régua e construir um esboço de alguma ideia que passa por nossa cabeça.

Além de tudo isto, Moraes selecionou peças históricas, que nos ajuda a entender o processo de criação dos infográficos no Brasil. Excelente.

Para o final, Infografia História e Projeto traz uma reflexão sobre a atividade no Brasil e no mundo, buscando levar o leitor a pensar esse projeto de trabalho inserido no contexto da vida contemporânea.

O que poderia ser melhorado na obra? Bem que o livro poderia ter sido confeccionado em papel de melhor qualidade, pois os infográficos escolhidos possuem muitos detalhes, o que necessitaria de fotos mais nítidas. A obra também poderia ser colorida para o leitor ter noção da gama de possibilidade que um infográfico pode propiciar.
Caso não fosse possível fazer as modificações acima, o acervo de imagens poderia ser disponibilizado na WEB; assim os leitores aprenderiam mais com a diversidade de exemplares trazidos no livro.

Apesar de a escrita ser voltada para as pessoas que têm vínculo com a área de comunicação, em especial as da área de jornalismo, seria pertinente que os educadores dialogassem com o assunto, pois precisamos dar conta (em sala de aula e nos ambientes virtuais de aprendizagem) das mensagens multimodais criadas pelos homens, para assim favorecermos aprendizagens mais significativas.

O que eu li? Infografia História e Projeto
De quem é o texto? Ary Moraes
Quando o texto foi escrito? 2013
Quem editou o texto? Blucher
O que achei do texto? Excelente

Até a próxima!

Nêgo Roque e OQuadro

 Imagem do disco Nego Roque, OQuadro

Você acredita em destino? Pois é, percorri 473 KM de São José da Vitória (região cacaueira) a Salvador para ver os meninos de OQuadro na abertura do show de Édson Gomes, na Concha Acústica de Salvador. Que destino: saio da terra deles para ouvi-los em casa.

Os garotos são da região cacaueira, lá da cidade de São Jorge dos Ilhéus, e estão aí para mostrar muito mais que cravo e canela nas terras saudadas por Jorge Amado.

Se alguém me perguntasse que tipo de música eles cantam, eu diria que seria o pós-musical, que vai da batida dos tambores e cordas africanos aos toques da música de raiz do recôncavo baiano, passando pelo Punk, Rock e outras coisas mais.

Com eles pude perceber o quanto há de semelhanças entre o som africano moderno de Fela Kuti e os acordes sonantes de Santo Amaro da Purificação e Cachoeira, na Bahia. Eles são transversais e multirreferenciados.

O show teve como base o disco Nêgo Roque, uma obra para se ouvir, para se pensar e se sensibilizar. Mas não imagine uma sensibilidade confortável, só de prazer e alegria, mas uma sensibilidade que incomoda e desloca, pois eles nos convidam a olhar de novo o que está posto.

A maior parte da autoria das musicas é dos componentes da banda. São 12 letras reivindicatórias e afirmativas. Reivindicatórias por tratar de questões sociais das mais conhecidas e discutidas há muito no Brasil; afirmativa por criar identidade própria ao trazer Rock, Punk, Rap e Maculelê como arte multicolorida, que integra, mistura e cria o novo liberto.

Quanto aos sons, é difícil classificar a banda em tendência A ou B da música baiana, pois os garotos instauram um jeito diferenciado de fazer música na Bahia, que não é Axé, não é Samba, não é Chula.

E o que é a música de OQuadro? É preciso ouvi-los.

Jogo de Palavras

Olha o que o meninos estão dizendo

“Mesma cara mal lavada, mesma levada, obra superfaturada.
Mesma gente enganada, sem sobremesa, só marmelada,”

“Africa is not a country”

“O mesmo filme repetido entre o trabalho e o lar.
Vivendo a vida como um vinil de uma só track”

“Quem contradiz me diz
A verdade por um triz”

“Me diz quanto vale sua dor?
Me diz quanto vale seu amor?
Me diz quanto vale?
Nossa dor balança o chão da praça?
Nossa dor, me diz quanto vale?”

“Não rezo terço e nem bato continência,
Punhos fechado pelo amor é resistência.”

“Estudar cultura é dar firmeza nas linhas”

“Quem disse que meu povo não tem voz
Aumenta o volume”

“A verdade precisa de quem milite em nome dela”

“Que tenhamos a vista cansada de tanto ler”

“Dividir o pão é a verdadeira revolução factível”

“Não precisamos de uma mansão, precisamos de um lar”

A que assisti? Nêgo Roque
De quem foi o show? O quadro
Quando? 2018
Onde? Concha Acústica do Teatro Castro Alves
Quem produziu? Caderno Dois Produções (Projeto MPB Petrobras)
O que achei? Excelente!

Até a próxima!

Livros de Cabeceira

Imagem Livros de Cabeceira, do Autor

É difícil escolher livros de cabeceira. Na verdade nunca tive livros que me arrebatassem e virassem minha vida de cabeça para baixo. Tive sim livros que fizeram com que eu reavaliasse o mundo que me rodeava e reavaliasse minha postura diante dos novos contextos que se apresentavam.
O gosto pelo livro fez com que eu não me apegasse a narrativas únicas, mas aos vários olhares sobre a realidade.

Então livros de cabeceira são aquelas obras que trouxeram algo de significativo em um determinado momento de vida. Eles nem sempre são clássicos ou campões de venda, mas contribuíram para a minha formação como pessoa e como profissional.

Vamos conhecer algumas dessas maravilhas?

Capitães da Areia: durante o tempo de universidade não tive oportunidade de presenciar discussões sobre a obra de Jorge Amado. Era tudo silêncio na academia, até mesmo para demonstrar pontos de fragilidade do autor. Daí eu ter conhecido o autor pela curiosidade, pois gostava do estilo como ele escrevia.
Foi então que li Capitães da Areia. Aquelas imagens dos meninos na rua até hoje pairam na minha cabeça. Percebo que o mundo não mudou muito quanto à questão social da criança e do adolescente no Brasil.
Eu me via naquele enredo e vinham lembranças dos vizinhos que não conseguiram chegar à fase adulta. Eu vivia na rua com aquelas crianças e minha mãe dizia que não desejava que eu fosse um Capital da Areia. Aquilo era estranho, pois muitos deles eram meus amigos nas diversas brincadeiras de rua.
Com Jorge Amado a ficção se confrontou com a realidade: existia mesmo a verossimilhança. Capitães da Areia era uma história que fazia parte do meu cotidiano, do que vivi, do que sorri, do que sofri.

A hora da estrela: Macabéa me incomodou muito. Uma mulher nordestina, fora dos padrões de beleza, que se aventurara a viver longe da terra natal. Ela iria ser a empregada doméstica, sem cheiro, sem gosto, sem destino, sem graça, sem vida.
O que eu desejava ler era a narrativa de uma mulher forte, bonita, inteligente, mas Clarice Lispector soube ir ao ápice da arte da escrita ao nos ofertar uma personagem tão cotidiana, tão o mesmo do mesmo.

Triste fim de Policarpo Quaresma: se Macabéa me incomodou imagine Policarpo! Como um homem poderia gostar do Brasil com tanto fervor? Como sonhar e tentar viver um país melhor? Como convidar os outros brasileiros a celebrarem o país, mesmo numa realidade enfadonha e perversa como a que ele viveu? Lima Barreto jogou em mim um balde de água bem gelada. Com ele pude entender que abaixo das terras das palmeiras, havia formigas para nos incomodar.

Memórias Póstumas de Brás Cubas: que coragem de um homem, que depois de morto, escreve e despe-se. Despe-se de tudo, fica nu diante da sociedade; assume-se nos mais recônditos dos sentimentos mesquinhos. E goza, e fala, e ri sob o nosso olhar atônito de leitor à procura de um herói. Machado de Assis conseguiu construir um dos mais emblemáticos personagens do realismo brasileiro.

Crônica de uma morte anunciada: primeiro assistir ao filme e fiquei muito comovido com a história. Motivado pelo arrebato dos movimentos da tela, movi-me em direção ao livro: comunidade sabe que haverá um assassinato, mas ninguém se mexe para impedir o crime. Até hoje me pergunto: o que move as pessoas?
Crônica é como se fosse um tratado de sociologia que nos mostra os contraditórios dos homens e das mulheres que vivem em sociedade.
Também a obra é uma reviravolta psicológica no ato de criação literária ao instaurar a perspectiva das lutas internas do ser diante dos jogos sociais moldados pelos costumes e pelas tradições. Valeu Gabriel Garcia Marques!

Pensou que acabou? Aguarde!

Repente da Amizade

Houve um tempo em que eu era dó
Vagava de casa em casa atrás de uma amizade só

Até que um dia de ano novo, em um abraço bem apertado,
Descobri um amigo em ritmo desajeitado

Depois tive uma amizade despercebida
Havia encontros sem descanso
A gente lia e escrevia poemas para nosso espanto

Ah, também tive amigos passageiros
Ora! O importante eram os momentos vividos por inteiro

Até amigo ciumento tive de aprender a amar
Ele era silêncio nas conversas de bar
Mas quando todos saiam, ele desandava a confabular

Também tive amizade que demorou a começar
Mas quando iniciou desatinou a não terminar

Já tive amiga muito sincera
Mas quando estava comigo, era mais doce que Cinderela
Com ela aprendi a ver o mundo que passava pela janela
Como se desenhássemos uma aquarela

E vi nascer uma amizade cinematográfica
Para discutir sétima arte cena a cena
E a vida se passava como história de cinema

Certa vez vi minhas amigas chorarem na minha partida
Não sabia como era triste a despedida
Com elas descobri que a amizade rompe dias e lugares
Para acalmar tanta saudade

Perdi muita amizade frente à solidão
Por causa de um jeito muito machão
Fugia do feminino como o gato foge da maré
Mas te aviso, seu Moço:
Não perca a amizade de uma mulher!

Hoje conheço bem a solidão
Mas uso como remédio
Cultivar amizades no coração

Até a próxima!

Ritmos e Ritos Afro-Baianos

Um pouco de história da música afro-baiana

Imagem Mosaico da história da música afro-baiana

Minha pele é linguagem
E a leitura é toda sua
Jorge Portugal e Lazzo

Se tivesse de fazer uma fotografia da música afro-baiana dos últimos anos seria mais ou menos assim:

As Origens
A gente começaria com os Filhos de Gandhi, um tradicional afoxé de Salvador, que, centrado no agogô, influenciaria o Gil dos anos 1970 e o Moraes Moreira com vertente ijexá dos anos 1980.
Batatinha e Riachão souberam alinhar o cotidiano da Bahia com versos estilizados sob a harmonia do batuque, rediscutindo as origens do samba na Bahia.
Nesta gênese de precursores Dorival Caymmi proporcionou um som cadenciado, único, sobre o que a Bahia teria para mostrar ao mundo.
Os Tincõas vieram como um coral negro, fazendo aqueles cânticos inebriantes e nos convidando para a integração da mente, do corpo e do espírito.

Os Filhos
A partir dessa leitura de música e de mundo, surgiriam os blocos afros, que reivindicavam políticas afirmativas de autoria, identidade e celebração. Com Ilê Ayiê, apareceram agremiações como Olodum, Muzenza, Malê de Balê, Cortejo Afro, Badauê, Araketu e Timbalada.
Na fonte desta produção cultural intensiva nasceram músicos como Lazzo Matumbi, Édson Gomes, Dionorina, Gerônimo e Margarete Menezes.
Depois desta geração floresceram vozes como Virgínia Rodrigues, com o canto negro frente ao profano e ao sagrado; Juliana Ribeiro e Mariene de Castro que recuperaram as tradições do samba da velha Bahia; Saulo Fernandes que saiu de cima dos trios e viajou pelo samba-reggae e pelo ijexá; Larissa Luz, voz potente e navegante dos sons africanos, que despediu-se do samba-reggae e mergulhou no afro e no pop eletrônicos.
Se na década de 1980 os Novos Baianos fizeram a interação da Tropicália com os acordes da guitarra baiana, na década de 2010, o Baiana System apareceu dando novos tons à guitarra elétrica mais compacta, inventada na Bahia, criando um som transversal por meio de uma batida rítmica de Reggae, Rap e Rock, ao criar diálogos desconcertantes entre os Sounds Systems da Jamaica e as harmonias do trio elétrico.

As Interações
Toda essa produção cultural não se construiu sozinha: o ritmo afro-baiano dialogou com outras manifestações culturais além da espelhada no umbigo. Diversas parcerias surgiram nos anos 1980, como Margarete e David Byrne; Olodum e Lazzo com Jimmy Cliff; Olodum com Paul Simon e Michael Jackson.
Além desses intercâmbios, Robert Nesta Marley inspirou as criaturas e as criações do povo de diáspora, fomentando a interligação entre o samba e o reggae. Para quem quiser se inteirar dessa influência, consulte a obra de Gilberto Gil a partir dos anos 1980. Lá estão redesenhados funk, rock, reggae, samba e baião; todos esses ritmos reinventados sob a influência de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, João Gilberto e Bob Marley.

A Diversidade
Tudo isto denota uma característica marcante da música afro-baiana: a diversidade. Diversidade manifestada na consistente ligação entre essa expressão cultural e as religiões de matrizes africanas, por meio da apropriação dos diversos ritos político-culturais dos negros com o divino e com a vida terrena.
As criações musicais feitas na Bahia incorporaram os cânticos em saudação aos orixás, confrontando o sentido de alegria próprio dos povos de origem africana frente às desigualdades sociais existentes.
No caldeirão dessa diversidade, se tivesse de dar um nome à música afro-baiana, este seria refluxo. Refluxo no sentido de revirar, revolucionar, retomar e retornar, porque os movimentos nesta música são como redemoinhos, que, dependendo de onde a gente estiver, pode significar equilíbrio, como também desequilíbrio.

A Transversalidade
Existiram alguns músicos que de certa forma caminharam de forma transversal na música afro da Bahia, universalizando o ritmo dos cânticos e dos tambores.
João Gilberto foi o primeiro deles ao instaurar o criativo toque de cordas, dando nova face ao samba, que passaria, além da condição de samba de roda, à condição de samba-canção .
 Já Caetano e Gil fizeram antropofagia cultural ao misturar o rock, o rap, o funk e o reggae como expressões artístico-culturais transmutadas em samba samba-canção, bolsa nova e tudo o mais, traduzindo em novas harmonias o cancioneiro da música popular brasileira.
Os Novos Baianos, influenciados por João Gilberto, reinventaram as batidas do samba, introduzindo as cordas elétricas, ajudando na transformação do trio elétrico de instrumento de som utilizado para tocar marchas e frevos em uma máquina de múltiplos ritmos e acordes. Eles ajudam na propagação do carro de som inventado e compartilhado mundo afora por Armandinho, Dodô e Osmar, contribuindo para as novas identidades assumidas pelo carnaval da Bahia quanto à vertente tecnopercursiva.
Não podemos esquecer da proeminência das matriarcas Maria Bethânia e Gal Costa, que sempre dialogaram com a música de rua, com o recôncavo baiano e com as vivências cotidianas do povo, trazendo refinamentos para as canções que eram produzidas nos quintais da Bahia de todos os santos.

O Mercado
Precisamos falar de mercado: na década de 1980 insurgiu um grupamento musical alicerçado em gerência, negócios, finanças e marketing. Esses músicos se tornaram donos de trios elétricos, blocos de carnaval e camarotes; passaram a gravar discos com frequência e gerenciar apresentações em grandes espaços; alguns se tornaram vitrines em programas de auditório nas redes de televisão brasileira. Com eles a indústria cultural na Bahia ganhou novos rumos.
Dali saíram bandas centradas no samba, como Gera Samba, Terra Samba e Harmonia do Samba, e produções musicais difusas que misturavam ritmos que iam do galope ao samba de roda, do lundu ao reggae, do frevo ao samba-reggae. Luiz Caldas e banda Acordes Verdes, banda Reflexu’s, banda Mel, Carlinhos Brown, Daniela Mercury e Chiclete com Banana são alguns dos representantes dessa tendência da música baiana.
A partir desse pessoal surgiu uma cadeia econômico-produtiva, que resultou em numerosa gama de músicos desejosos de proeminência no cenário musical brasileiro. Mas isto pode ser tema de outro texto.

As composições
Por trás desse grupamento de diversos se escondiam compositores que elaboraram esse mosaico de percepções sobre os modos e hábitos dos negros da Bahia. Edil Pacheco, Paulo César Pinheiro, Capinan e Roberto Mendes são alguns dos homens de produção de escrita e harmonias musicais que sustentaram as vozes dos arautos que comungaram a estética dessa gente.
Junto a eles há uma multidão de letristas populares: homens comuns que iam aos ensaios dos blocos afros e afoxés e lá se descobriam criativos e criadores de uma nova forma de produzir cultura. Esses homens do povo nos mostraram a imagem do grande refluxo que é a produção da música afro-baiana.  Com eles a poesia e os acordes se transformariam em canções singulares e identitárias.

De tudo isto, ficou a imagem de uma produção artístico-político-cultural diversa e divergente, mas alinhada às matrizes de origem africana, que se olham e se refletem num cantar em forma de oração, em forma de dor, em forma de alegria: em busca de afirmação.

Até a próxima!

Cânticos Afro-Baianos

Não estou conseguindo escrever porque as lembranças daquele som inebriante me faz meditar e é uma viagem indescritível dos cantos afro-baianos de Os Tincoãs.

Estive no teatro Castro Alves e fiquei embevecido com as vozes dos remanescentes dessa banda que abriu os caminhos dos orixás para a música da Bahia de influência africana.
De Ilê Ayiê a Olodum, de Muzenza a Cortejo Afro, de Margarete Menezes e Carlinhos Brown a Saulo Fernandes: todos eles beberam da sabedoria espírito-cultural dos meninos de Cachoeira, Bahia.
Existe uma tríade na Bahia de expressão fortemente africana. Essa tríade está nas cidades de São Salvador, Santo Amaro e Cachoeira. Dessas cidades se ouve afoxé, samba de roda, samba duro, reggae e por aí vai…

No show, convidados especiais se revelaram amantes e amados do grupo de Cachoeira. Primeiro veio Ana Mammeto com a voz harmônica ao entoar um canto espiritual dos negros vindos da África; depois Saulo vem, canta e chora, e chora; Margarete Menezes surge em silêncio, solta a voz bem distante do microfone para que a potência do cantar não retire a harmonia daquele encontro; por fim as Quebradeiras de Itapuã trouxeram a alegria do samba de roda, no ritmo e nas vozes daquelas mulheres que retomam e mantêm a cultura da gente simples do povo. Isto é a beleza.
O bom dos Tincoãs é que eles unem o canto para o corpo com o cântico para o espírito. Eles produzem música para o físico e o metafísico: eu quero dançar, eu quero cantar, eu quero orar, eu quero saudar, eu quero silenciar.

Além do show havia um primoroso livro com fotos, depoimentos e entrevistas sobre o itinerário da banda nestes séculos XX e XXI. O livro veio acompanhado de três discos da banda. Haja coração!

E agora? Agora é hora do regozijo, da fruição, da escuta, da leitura, da dança e da oração.


A que assisti? Nós, Os Tincoãs
Onde foi? Teatro Castro Alves
De quem é a música? Vários Autores
Quem Organizou? Mateus Aleluia
Quando foi? 6 de dezembro de 2017
Quem produziu? Sanzala Artística e Cultural
O que eu achei do evento? Excelente!

Estou aposentado! E agora?

Em dezembro/2017 completará um ano que iniciei o processo formal de aposentadoria.
Gostaria de expressar esta vivência por meio de trechos de algumas músicas e pensamentos de autores consagrados.

1. “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”: amar é o que importa
2. “Nada melhor do que não fazer nada”: é hora de curtir mais a vida
3. “E sem o seu trabalho o homem não tem honra”: a aposentadoria não se opõe ao trabalho
4. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”: orgulho de ser aposentado
5. “Meus discos e livros e nada mais”: é hora de fazer mais coisas de que gosto
6. “Preciso aprender a só ser”: é preciso viver a aposentadoria
7. “Começaria tudo outra vez”: se precisar trabalhar voltarei com muito prazer
8.  “Amigo é coisa pra se guardar”: que coisa boa foram as amizades que fiz no trabalho
9.  “Don’t forget your history, Know your destiny”: preciso ter consciência de quem sou, para onde vou e de onde vim
10. “Quantas vezes eu pensei sair de casa, mas eu desisti”: é bom não perder os propósitos
11. “Palavras são erros, e os erros são meus”: como aprendi no mundo do trabalho!
12.  “Já está chegando a hora de ir”: é preciso saber partir
13. “Quero mais saúde”: é o princípio, o meio e o fim
14. “Você não sabe o quanto eu caminhei”: aposentadoria não é um benefício: é uma conquista!
15. “I have a dream”: o futuro nos espera

Os autores das ideias sãos: Renato Russo, Rita Lee e Roberto de Carvalho, Gonzaguinha, Gonzaguinha, Tavito e Zé Rodrix, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento e Fernando Brand, Bob Marley e Rita Marley, Roberto Carlos, Renato Russo, Roberto Carlos, Rita Lee e Roberto de Carvalho, Da Gama, Martin Luther King.

No mais: sem palavras!

Esse tal de Feedback

Avaliar com Feedback
No mundo corporativo é comum o uso da avaliação direta oral para proporcionar a melhoria de desempenho dos profissionais. É a atividade do feedback.
Feedback é um procedimento de atribuir juízo de valor no desempenho de uma pessoa, em um dado momento e lugar, comparando o desempenho esperado do avaliado, com um conjunto de critérios previamente acordado. Sendo o feedback uma atribuição de valor de desempenho de alguém, o avaliador tem a missão de descrever com mais precisão possível tal desempenho, fazendo interligações com os comportamentos esperados do educando para que este possa trabalhar de forma competente em novas situações profissionais.

Feedback e Emoções
No feedback o relacionamento entre avaliador e avaliado não é somente pela via cognitiva, pois existe um conjunto de manifestações emocionais, que irão conduzir, junto com o movimento racional, as interações entre quem educa e quem aprende.
Disto resulta um trabalho permanente do educador de buscar relacionamentos empáticos com as pessoas que estão sendo observadas. Relacionamento empático no sentido de compreender sentimentos, ideias e ações de outra pessoa; uma capacidade de interpretar comportamentos verbais e não verbais de comunicação de outra pessoa, com o intuito de promover aprendizagens diferenciadas para o trabalho.
Atitudes empáticas podem estabelecer laços de mútua confiança entre educador e educandos, contribuindo para relações mais amistosas de aprendizagens.
É bom lembrar que empatia é diferente de simpatia (impressão ou disposição favorável a alguém que se acabou de conhecer) e de antipatia (falta de afinidade ou incompatibilidade com uma pessoa), pois quando entramos no mundo da simpatia ou da antipatia, percorremos caminhos da passionalidade: estamos movidos pela paixão, e as coisas factíveis passam a não ser percebidas pelo avaliador.
Cuidados também deveremos ter com a apatia (indiferença, insensibilidade, falta de ânimo), que podem resultar em distanciamentos entre avaliadores e avaliados.


Imagem Feedback, do Autor



A comunicação no Feedback 
Durante os comentários que o avaliador faz sobre o desempenho do avaliado, é necessário que seja comentado o essencial, deixando espaços para o educando repensar a própria prática. Comentários prolongados e prolixos, depois depois de alguns minutos, fazem as pessoas perderem o foco do que está ouvindo, e o feedback poderá não ser mais efetivo. O essencial é produzir uma comunicação clara, coesa e adequada para o momento. Junte a isto tudo uma forma respeitosa e acolhedora de falar, sem perder o compromisso com a verdade do que você como avaliador pôde observar.

Feedback e Competências 
O feedback é para favorecer a melhoria das competências do trabalhador; então avaliamos o nível de desempenho de conhecimentos, habilidades e atitudes do educando, em relação às premissas estabelecidas na minuta do curso, o que for além disto estará fora dos propósitos do genuíno feedback.

Feedback do Educando
Em algumas situações de sala de aula, é usual os educandos fazerem feedbacks de si, pois tais comentários servem para os avaliadores observarem o nível de criticidade dos aprendizes. O problema é quando se solicita aos educandos que façam autoavaliação e não é explicado a eles alguns procedimentos básicos para se autoavaliar. Solicite que o educando faça comentários sobre as próprias percepções de aprendizagem da competência a ser desenvolvida e depois compare com os critérios de avaliação acordados.

Feedback e Subjetivismo
Há duas frases muito correntes nos meios empresarias sobre o feedback: “Feedback é um ato de amor” e “Feedback é uma doação”. Cuidado com frases que se repetem! Feedback é uma atividade de avaliação, que é utilizada no âmbito empresarial para promover a melhoria dos processos de trabalho e do desempenho das pessoas naquilo que elas realizam no cotidiano corporativo.
O feedback, como suporte para avaliação do trabalho, é uma forma de credenciamento para novas funções ou atribuições nas empresas. E isto traz em si a ideia de uma possível exclusão caso o trabalhador não alcance o nível esperado para o trabalho, o que pode significar um ato que resulte em dor para quem está sendo avaliado.
Vamos parafrasear as frases acima em uma ideia:  “Feedback é um ato comprometido com a verdade”? Por mais que as intenções sejam de amor e de doação, atribuir juízos sobre o desempenho de outrem conduz a um relacionamento dialético, em que amor e dor se entrelaçam em movimentos confluentes e contraditórios. Ademais, o compromisso com a verdade já é um sinal de amor.
Trabalhar com feedback não é simples nem é fácil. Exige esforço, dedicação e aprendizagem, pois é uma prática que interfere na vida profissional do educando, e interferir na trajetória do outro exige responsabilidade e compromisso ético com o crescimento do outro.

Até a próxima!

Uma visita ao museu da Diversidade

Um convite à diversidade

Imagem Mosaico da Diversidade

Era uma manhã de domingo de julho, quando resolvi sair do hotel e dar umas voltas no centro de São Paulo.

Fui para a praça da República e visitei a feira daquele lugar que acontece todos os finais de semana. Lá você encontra utensílios domésticos, itens para uso pessoal, obras de arte: excelente lugar para uma visitação demorada.
Desci a estação do metrô da República e me deparei com o Museu da Diversidade Sexual. Olhei desconfiado, cheio de curiosidade para conhecer. Confesso que fiquei pasmado.
Foi um passeio inusitado de novas informações sobre nós humanos, pois em uma área bastante modesta havia uma riqueza de depoimentos sobre construções da humanidade quanto à questão sexual.
Li depoimentos que me comoveram; apreciei obras de arte sobre uma cultura que faz parte do nosso dia a dia, mas que a gente fica cego, surdo e mudo.
O nosso pensamento único impede de apreciarmos as diversas manifestações artísticas quer em forma de música, quer de literatura ou de artes plásticas: um bem cultural da humanidade, de valor material e imaterial. Impede a nós também de observar com vão as nossas relações com as outras formas de existência humana.
Foi no aspecto da humanidade que fiquei mais comovido, pois nos depoimentos a gente começa a lembrar dos diversos noticiários de cerceamento da cidadania da pessoas que se concebem gêneros que vão além da concepção binária que criamos de perceber o mundo, nesse ato repetitivo do mais (+) e do menos (-). E aí nossa compreensão se esvazia quanto à existência do outro.
Terminei de ver aquelas fotos, os textos e os vídeos em comoção de quanto ainda preciso aprender quanto à convivência com os próximos e com os diferentes.
É aí que a gente percebe quanto o nosso discurso sobre diversidade ainda está longe de nossas atitudes cotidianas de Seres de Inclusão.
De resto é ir lá e ver. Conhecer e reconhecer.

Até a próxima!

Onde Estive? Museu da Diversidade Cultural
Onde fica? Na estação do metrô da praça da República, São Paulo, capital.
Quando foi? Julho/2017
Quem administra? Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo
O que eu achei do espaço? Um lugar para aprender mais sobre nós e os outros.