Eu não sou empreendedor – sou trabalhador

Eu não sou empreendedor - sou trabalhador
Eu não sou empreendedor – sou trabalhador

Tomei consciência da minha condição de trabalhador quando tinha 16 anos. Estava eu no meio do ensino médio e ainda não sabia que tipo de atividade desejava realizar na vida futura. 

Naquela época havia uns cursos a distância, por meio de correspondências, organizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Dentre as muitas possibilidades de curso disponíveis descobri o curso Legislação Trabalhista que tinha como propósito educar as pessoas sobre os direitos e os deveres nas relações trabalhistas entre trabalhadores e patrões.

Depois de alguns dias de espera, recebi em casa um pequeno livro com informações preciosas que iriam mudar a forma como eu iria lidar com a minha jornada como trabalhador. Aquele livro fez parte da minha pequena biblioteca durante muitos anos.

A  partir daqueles ensinamentos, decidi que não trabalharia muito tempo sem carteira assinada e que acompanharia para verificar se as empresas estavam recolhendo as obrigações sociais fruto das relações de trabalho em que eu estivesse envolvido. Não deu outra: 36 anos depois, com muito esforço, consegui me aposentar, tendo os meus direitos trabalhistas, na maioria das vezes, respeitados.

Hoje há um incentivo para que as pessoas não mais se considerem trabalhadoras, mas sim empreendedoras, com a mídia abarrotando os noticiários com reportagens direcionadas às classes menos favorecidas com conteúdos para a formação de uma mentalidade empreendedora. É empreendedorismo para os pobres, é  empreendedorismo para os jovens, é empreendedorismo para os  idosos, é empreendedorismo para as mulheres, é empreendedorismo para os afrodescendentes, e por aí vai…

Empreendedor, na  maioria das vezes, é o homem solitário, que deseja vencer sozinho, ganhar o mundo e se assemelhar aos mais ricos. O leitor deve ter achado a afirmação anterior muito pesada, não? É preciso considerar  que  todo humano tem potencialidade de ser empreendedor de alguma coisa motivado por situações diversas. No processo de escravização no Brasil, por exemplo, os  afrodescendentes foram obrigados a se tornarem empreendedores (não era este o termo utilizado na época), porque os donos do poder não queriam conceder os direitos de cidadania à população brasileira descendente de africanos. Disto surgiu uma legião de baianas de acarajé, vendedores de picolé, caixeiros-viajantes, empregadas domésticas etc., todos trabalhadores que tiveram de criar novas formas de se inserir na economia, porque lhes faltavam os direitos sociais e políticos básicos, como acesso à educação, a voto, a áreas de lazer, à saúde, dentre outros fatores.

Note o leitor, que não há mais discussões na mídia sobre as possibilidades e as limitações da atividade cooperativa, onde os humanos podem se juntar para alcançar objetivos comuns, construindo para si um conjunto de direitos vinculados à boa educação, saúde, sociabilidade e lazer. É como se a palavra cooperação fosse retirada do dicionário e inserida a palavra da vez: empreendedorismo.

Vou fazer aqui uma simulação sobre a carreira de um empreendedor jovem quanto à vida futura: se uma pessoa firmar-se como microempreendedora e obtiver o equivalente a quatro salários mínimos de renda mensal será obrigada a recolher para seguridade social o equivalente a R$ 82,05 e só terá direito a uma aposentadoria de R$ 1.621,00, ou seja, na aposentadoria haverá uma diminuição nos rendimentos de pelo menos 75% dos ganhos mensais (R$ 6.484,00 – 1.621,00 = R$ 4863,00), uma perda considerável. Se ficar doente, o valor a receber será também de R$1.621,00 por mês.

Esse mesmo empreendedor se fosse um trabalhador com carteira de trabalho assinada, recolheria R$ 710,00 por mês de INSS, se continuar recolhendo ininterruptamente por 40 anos provavelmente terá direito a uma aposentadoria mensal no valor em torno de R$ 6.400,00. E mais: se a empresa empregadora recolher o valor mensal de FGTS, esse trabalhador terá uma poupança de pelo menos 240.000,00(calcule 8% da renda mensal x 480 meses, para saber o valor exato sem correção monetária).

Mas o empreendedor pode alegar que  tem condições de poupar parte das rendas mensais e ter valores equivalentes ou maiores do que os recebidos pelos trabalhadores legalmente contratados. É preciso ressaltar que vivemos em uma cultura com tendência ao consumo, em que é muito difícil se dedicar à poupança quando há  múltiplas possibilidades de usos do dinheiro. O desafio é criar uma cultura de atuária, ou seja, esses empreendedores aprenderem a não só pensar no presente, mas analisar a própria situação econômico-financeira ao longo do tempo: passado-presente-futuro, sabendo lidar emocionalmente com o consumo: uma questão psíquica e social ao mesmo tempo.

Empreendedor não tem FGTS, uma forma de poupança, mesmo que pequena. O direito social garantido a um empreendedor está circunscrita a um salário mínimo. Há ainda a ilusão de que ser empreendedor é sinal de conquistar autonomia, de não se submeter a um patrão, mas para empreender, a escala de trabalho é sete por zero, 24 horas por dia, isto mesmo: quem empreende não pode parar e, conforme a midiatização do empreendedorismo, é preciso não perder nenhuma oportunidade de negócio, ou seja, o processo de submissão continua bem parecido com o processo de relações trabalhistas, só que sob bases legais diferentes, com bem menos garantias sociais.

Sobre o espírito empreendedor: sempre tive em mim a vontade de descobrir novas coisas, ter iniciativas. Quando precisei me arriscar, me arrisquei, pois precisava sobreviver, mas havia uma margem mínima de segurança quanto aos direitos trabalhistas, caso algum problema surgisse. Construí uma carreira tendo como identidade o ser trabalhador e sempre me considerei um empreendedor, mas a identidade de trabalhador sempre esteve na frente da identidade de ser um empreendedor. 

Empreender para mim sempre foi uma atitude, não uma instituição, uma forma  pré-determinada de viver. E contrariando uma música popular em que o intérprete declara não querer ser marinheiro, mas sim capitão, posso dizer com tranquilidade que eu não sou empreendedor, sou trabalhador.

Viva o dia do trabalhador e até a próxima!

…..

…..

Navegue+

…..

…..

…..


Descubra mais sobre Canal EPraxe

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Publicado por Cleonilton Souza

Educador nas áreas de educação, tecnologias e linguagens.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *