
Trabalho licenciado com Creative Commons![]()
Artigos, resenhas e crônicas do cotidiano

Vivemos a era do big data, da internet das coisas e da inteligência artificial, que solicita novas formas de aprendizagem, mas ainda não resolvemos uma questão crucial de nossa civilização que era para ser razoavelmente solucionada no século XX, que é a do analfabetismo, ou seja, deveríamos ser uma civilização em que todos tivessem condições de ler e escrever com fluência, no entanto…
Interessante notar que, segundo o IBGE (2019), ainda temos no país 11 milhões de pessoas, com idade acima de 15 anos, na situação de analfabetas.
Mas a sociedade brasileira não cansa de lutar contra o analfabetismo e vez por outra aparece uma luz no fim do túnel. Uma dessas luzes de esperança é o Glossário Ceale – termos de alfabetização, leitura e escrita para educadores, que traz um acervo de termos sobre o universo da alfabetização. O Glossário foi organizado e é mantido pelo Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), vinculado à Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O trabalho do Ceale se destina aos educadores do ensino fundamental, mas ao visitar o Glossário, percebe-se que a iniciativa pode contribuir para a formação de profissionais de outras áreas do conhecimento que tenham como horizonte trabalhar para a melhoria do nível de educação no Brasil.
A preocupação do Ceale é reunir o que há de atual e pertinente sobre a alfabetização. Para os organizadores do Glossário, “(…) vários conceitos, procedimentos e práticas que foram se disseminando no mundo acadêmico e na prática pedagógica estão dispersos em diferentes materiais. Daí a necessidade e o desafio da recolha e da reunião dessas reflexões, organizadas em um Glossário.” (CEALE, 2014. Apresentação do Glossário, p. 2).
O Glossário Ceale é um projeto multidisciplinar, pois abrange contribuições de diversas áreas do conhecimento, como tecnologia da informação, psicolinguística, sociologia, e outros campos do saber, tendo como ponto central a alfabetização. O documento está organizado de maneira hipertextual, oferecendo ao leitor possibilidades de ampliar conhecimentos sobre o tema a partir das referenciações contidas no final das conceituações de cada verbete.
A obra foi elaborada com a ajuda de pensadores brasileiros e internacionais que há anos vêm se dedicando à educação, à pesquisa e à extensão em assuntos relacionados à educação alfabetizadora.
O Ceale é uma contribuição significativa para quem se dedica aos estudos de educação e linguagem, se constituindo como um patrimônio cultural brasileiro, feito com muitas mãos e muitas cabeças.
Até a próxima!
O que é? Glossário Ceale – termos de alfabetização, leitura e escrita para educadores
Quem é o responsável? Ceale, Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita
Quem organizou? Isabel Frade, Maria da Graça Ferreira da Costa Val e Maria das Graças de Castro Bregunci
Onde acesso? Glossário Ceale

Li o relatório Cognitive Warfare, que foi solicitado pela Otan, sobre os novos recursos de guerra que estão sendo inventados e, desconfiam, já estão sendo utilizados nos contextos de guerras entre as nações do mundo.
O texto é bem informativo e traz alguns conceitos sobre guerra cognitiva, a nova arma de dominação, que se utiliza de estudos transdisciplinares de áreas do conhecimento como a da neurociência, tecnologia da informação, sociologia, economia e outras mais para criar estratégias de domínio por meio do controle do comportamento humano. O texto é bem elucidativo, mas, ao mesmo tempo, é assustador, pois demonstra como as ciências em geral estão sendo usadas para afastar cada vez mais os humanos dos humanos.
Uma pena que o relatório só apresente problemas da guerra cognitiva a partir dos países que são de posição contrária a da Otan, não apresentando como as nações em geral, do ocidente ou do oriente, estão, de maneira crescente, se dedicando a políticas científicas que sustentam guerras. De qualquer forma vale a leitura do relatório, mas procurando saber quem fala e em quais circunstâncias ocorrem as produções discursivas.
Até a próxima!
Trabalho licenciado com Creative Commons![]()
Contatos
E-mail✉ Orcid ✅ Lattes ⏹ Instagram 😀 Spotify 💽

O desejo de ter um aparelho com múltiplas funcionalidades é antigo. Quem não se lembra do canivete suíço, cheio de funções ou do antigo três em um, aquele equipamento de som, que trazia embutidas as funções de gravador de fitas, rádio FM e toca-discos? Houve ainda a tentativa de criar um aparelho com diversas funções para a cozinha, o multiprocessador, mas o equipamento não caiu no gosto dos donos e donas de casa.
Mas aí aparece o smartphone com cada dia mais funções: espelho, relógio, scanner, máquina fotográfica, filmadora, régua, gravador de áudio, modem, telefone (????), mesa de desenho, teclado, microfone, karaokê, calendário, mensageiro, cronômetro, agenda, despertador, depósito de arquivos, museu, álbum de fotos, tábua de escrita, televisão, rádio FM. Opa, opa, chega! Realmente o smartphone é um equipamento de múltiplas faces.
Já percebeu como esse aparelhinho não nos dá trégua? Ela rouba de nós a atenção das pessoas mais próximas, pode nos acordar de madrugada, com a voz do nosso chefe, perguntando porque ainda estamos dormindo ou até mesmo pode entregar a todo mundo um momento íntimo que não desejaríamos que alguém mais soubesse.
Pois é, o smartphone invadiu a vida cotidiana e cada dia se transforma em momento de aventura e descobertas sobre como conviver com esse equipamento tão íntimo.
Quanto ao canivete suíço? Ainda tenho os dois no armário de casa, mas cada vez os uso menos. Algum dia abandonaremos o smartphone por gadget mais novo?
Até a próxima!
Trabalho licenciado com Creative Commons![]()
Contatos
E-mail✉ Orcid ✅ Lattes ⏹ Instagram 😀 Spotify 💽

É muito comum as pessoas sugerirem para nós a leitura ou a audição de uma música. Nossa vida é rodeada de indicações: visitar um parque inaugurado recentemente ou ir ao cinema assistir ao filme do momento. O que seria de nós se não fossem as recomendações?
Nas artes temos os críticos da cultura, comentando filmes, livros e quadros de pintura; na academia temos os comentadores, que fazem apreciações sobre os pensadores originários de alguma teoria. E assim a vida anda.
Mas o século XXI trouxe muitas surpresas para a vida cotidiana, como a possibilidade de a gente receber recomendações de objetos técnicos.
Você usa GPS com frequência? Já notou como esse objeto cada vez mais faz parte do nosso dia a dia? Fico impressionado quando uso uma rota alternativa que não faz parte da base de dados do GPS, e o aplicativo, “todo preocupado”, lança muitos alertas na tela, relatando o erro que cometi. O que dizer das plataformas pagas de vídeo? É uma longa lista de recomendações: “Em alta”, “Dramas emocionantes”, “Só na Plataforma“, “Filmes independentes”, “Favoritos da crítica”, “Histórias reais” e por aí vai. Ainda há itens de menu como “surpreenda-me”, prontos para buscar novas indicações para o espectador.
E as recomendações não param por aí: quando procuro alguma informação no sistema de busca, sou surpreendido com várias peças publicitárias que vão se acumulando na tela em forma de pop up. Diante de tamanha onda de recomendações mediadas por algoritmos, haja fôlego para o cidadão comum lidar com essa situação, pois muito do que esses objetos técnicos nos oferecem como recomendação não é percebido como recomendação, muito menos é percebido pelo cidadão comum como uma recomendação automática, que é baseada nos rastros dos comportamentos que toda gente vai deixando nos grandes servidores de empresas de mídias sociais e mecanismos de busca.
E assim toda gente vai vivendo, de recomendação em recomendação, só que agora, as recomendações não são realizadas somente por humanos como eram antes; agora humanos e não humanos indicam e direcionam o que os demais humanos precisam fazer.
Há muito o que aprender dentro deste novo mundo de recomendações, em que não conseguimos identificar o sujeito que está sugerindo o que devemos ler, escrever, escutar, falar e pensar. Haja desafios!
Até a próxima!
Trabalho licenciado com Creative Commons![]()
Contatos
E-mail✉ Orcid ✅ Lattes ⏹ Instagram 😀 Spotify 💽

Quando fui ver Medida Provisória, assisti a um vídeo, antes do filme, com pequenas entrevistas de pessoas relatando quais filmes impactaram a vida delas.
Em um dos vídeos, Lázaro Ramos dizia que o filme que o impactou foi Corra (2017), que trata das relações raciais a partir da perspectiva do terror. Não por acaso, Medida provisória se insere em uma linha parecida com a do filme estadunidense e discute as questões raciais brasileiras com uma pitada de terror também.
Medida provisória conta a história dos brasileiros que, em um contexto fictício, são obrigados a deixar o Brasil, para voltar para o continente africano, como uma forma de reparação, isto na perspectiva de quem planejou a emigração obrigatória. A partir de tal celeuma, as pessoas entram em conflitos diversos quanto ao direito de ficar no Brasil ou deixar o país.
Mas Medida provisória não se utiliza do terror ou do suspense ou mesmo do drama para contar a referida história. No caso, os organizadores do filme optaram pela tragicomédia, um gênero cinematográfico misto, fazendo o enredo ser conduzido ora por momentos de humor ora por momentos de terror. Alguns poderão até classificar o filme como uma ficção científica distópica, mas Medida provisória está posto para provocar terror mesmo, para desestabilizar as opiniões e rediscutir as assimetrias das relações raciais no Brasil, inserindo na trama momentos de ironia.
Durante o filme fiquei observando as reações das pessoas. Algumas delas riam das cenas trágicas, como se estivessem naqueles filmes estadunidenses de comédia que fazem paródia de filmes de terror. Fiquei pensando se a proposta de Medida provisória era de proporcionar reflexões sobre um tema tão complexo de nossa sociedade ou fazer as pessoas simplesmente se divertirem. Mas eu precisaria assistir ao filme mais vezes e observar as reações de mais pessoas quanto aos momentos trágicos para verificar que tipo de reações ocorreriam, o que não vem ao caso.
Quanto a mim, fiquei impactado com o filme, mesmo já tendo experienciado situações ali contidas ou ter sido testemunha de muitos momentos em que as relações raciais no Brasil não eram tão amistosas Fiquei a pensar o quanto ainda será preciso caminhar para que a sociedade brasileira diminua as assimetrias e as desigualdades nas relações raciais.
O que sei é que Medida provisória é como se fosse um verbo conjugado no futuro do presente. As questões estão lá em ficção, em um futuro distópico, mas elas estão acontecendo no dia a dia das pessoas nas terras brasileiras. A distopia é aqui e agora.
Mas cada um tem a própria sensibilidade quanto a assistir ao filme e reagir aos momentos de terror e de humor propostos na obra cinematográfica.
O filme é inspirado na peça Namíbia, não!, do ator e escritor baiano Aldri Anunciação, que também participou do filme como ator e contribuiu na construção do roteiro.
Um ponto positivo na distribuição do filme foi que os organizadores conseguiram lançar Medida provisória simultaneamente em dez municípios baianos (Feira de Santana, Ibicaraí, Ilhéus, Itabuna, Juazeiro, Jequié, Salvador, Santo Antônio de Jesus, Serrinha e Vitória da Conquista). Para um filme brasileiro, dirigido por um baiano, isso é um motivo para comemorar.
Até a próxima!
Sobre a obra
O que é? Medida provisória {filme} De onde é? Brasil Quanto tempo/ 1: 34 min Quem dirigiu? Lázaro Ramos Quem foram os atores? Taís Araújo, Alfred Enoch, Seu Jorge Quem mais participou do filme? Aldri Anunciação, Renata Sorrah, Adriana Esteves, Emicida e Jéssica Ellen

Texto..
O livro Aula de Português – encontro & interação estava guardado na estante havia tempo. Folheava páginas, relia as orelhas e capa de fundo e nada! Até que por questão de trabalho, tive de lê-lo para entender melhor umas questões que estava estudando.
Eu sabia da qualidade do livro, mas sempre postergava a leitura, até que as obrigações laborais fizeram com que a obra se transformasse em primeira prioridade de leitura e pesquisa. Isto já deve ter acontecido também com você, caro leitor.
Quando, enfim, comecei a leitura do texto, fui arrebatado por um processo de ler, anotar, reler, olhar para a minha realidade de escrita e consultar outros livros para ampliar conhecimentos.
O livro foi escrito pela professora e pesquisadora Irandé Antunes Ela é professora aposentada da Universidade Federal de Pernambuco e docente da Universidade Estadual do Ceará. Pois é, ela não para.
Aula de Português é um trabalho conversacional sobre o processo de escuta, escrita, fala e leitura, uma aproximação com a língua portuguesa na inteireza. O texto busca criar em nós autonomia na interação textual, fazendo a gente refletir sobre as dinâmicas do ensino e da aprendizagem da língua materna.
O livro é um misto de abordagem teórica com narração de experiências, provocando debates de questões da língua portuguesa e apontando as implicações pedagógicas das referidas questões. Nos textos o leitor navega pelas ondas da oralidade, da escrita, da leitura e da gramática, mergulhando em um trabalho que prima pelo rigor, mas não deixa escapar momentos de prazer.
A professora Irandé é enfática em sinalizar a necessidade de se aprender a construção textual na prática da revisão em conjunto com a elaboração da escrita, um ponto de destaque no livro, pois o comentário sobre a atividade de revisão às vezes fica sublimado em muitos textos tradicionais sobre a produção, escrita e leitura de textos.
O livro estabelece uma subversão da ordem: em vez de a gramática ser o centro da aprendizagem do Português, os usos da língua, nas mais diversas situações comunicativas, passam a ser central. E claro, há um olhar atento sobre as interações conversacionais, nas formas de construção linguística das camadas privilegiadas na sociedade, mas a autora não deixa de salientar a importância de estarmos atentos às demais variedades de produção na língua portuguesa.
A aprendizagem da variação linguística das classes prestigiadas se torna imprescindível, pois as decisões tomadas a partir das referidas classes, em termos de linguagem, influenciam a vida cotidiana das pessoas nos diversos aspectos econômicos, artísticos, sociais e educacionais, ou seja, todos precisamos entender como o poder funciona.
Irandé se posiciona contra as aulas de Português que optam por trabalhar exclusivamente com nomenclaturas e classificações enfadonhas que, cada vez mais, distanciam os aprendentes dos usos efetivos da língua. Para a autora é necessário criar outros modos de interagir em sala de aula a fim de que as pessoas se desenvolvam nos usos da língua.
No livro A professora Irandé discute práticas que poderiam ser utilizadas em sala de aula, com enfoque nas situações de uso na vida social, o que faz da obra um texto que discute por meio de atravessamentos a teoria e a prática.
Aula de Português é um livro técnico e político. Técnico por explorar as especificidades de usos da língua, tratando das implicações pedagógicas da educação voltada para a linguagem; é político por trazer uma visão de educação comprometida em combater as diversas formas de desigualdades próprias das relações de poder exercidas por meio da língua.
Aulas de Português é uma obra para ser lida por todos: cidadãos, dirigentes, pais, educadores e políticos que estejam imbuídos de contribuir para melhorar a vida em sociedade.
Até a próxima!
O que é? Aula de Português - encontro & interação {livro}
Quem escreveu? Irandé Antunes
É de qual editora? Parábola
Em que ano foi lançado? 2003
A apresentação do livro é de quem? Carlos Alberto Faraco