Encantos do Axé – Missinho

Encantos do Axé: Missinho
Continuar lendo “Encantos do Axé – Missinho”

Memórias do Axé Music – capítulo 2

EPraxe – Cultura & Cotidiano

Revisitando as origens do Axé Music


O mito do herói perpassa diversos âmbitos de nossa cultura e já é costume eleger alguma personalidade como principal protagonista de eventos históricos no Brasil. E isto não seria diferente com o movimento Axé Music muitas vezes é apresentado exaltando-se a figura de algum herói, ou pai ou mãe ou rei ou e rainha...
Mas revisitando o Axé é possível trazer elementos históricos relevantes que levaram ao surgimento desse movimento cultural tão relevante, criado no final do século XX, em que fica evidenciada a força do coletivo na elaboração desse construto cultural. 
Vamos lá?
Duas dimensões foram fundamentais para a criação coletiva desse movimento cultural afro-baiano: a primeira foi a música de base percussiva com forte influência do candomblé da Bahia, o Ijexá, vertente de música elaborada pelos blocos de afoxé tem origem afro-brasileira e foi muito cantado e divulgado pelos Filhos de Gandhy, entidade carnavalesca criada em 1949. Por sinal, amanhã, 18 de fevereiro, o Gandhy completará 76 anos de existência.
O instrumento musical que impulsiona o afoxé é o agogô com aquela sonoridade metalizada que libera sons agudos, regendo os tons graves dos demais instrumentos percussivos, fazendo as pessoas dançarem de forma lenta e sincronizada, em uma caminhada em estado de meditação.
Na saída do Gandhy sempre há um ritual de religião afrocentrada que funciona como um pedido à transcendência para que haja paz nos dias de carnaval.
O Gandhy é uma uma agremiação popular, nascida no seio da labuta dos trabalhadores do porto de Salvador. É o som do Gandhy que vai influenciar a batida afro de Gilberto Gil, inicialmente, e direcionar boa parte das composições de Moraes Moreira quando este se relacionava com o carnaval da Bahia.
A segunda dimensão constitutiva do movimento Axé foi a influência das tecnologias, inicialmente eletrônicas, depois, computacionais, que iriam dar origem ao que nós conhecemos hoje como trio elétrico (1950) e à criação de um instrumento musical genuinamente brasileiro: a guitarra baiana. Dodô, o eletrotécnico, e Osmar, o metalúrgico, montaram um palco em um automóvel e até hoje o trio elétrico circula mundo afora divulgando a cultura da Bahia.
Foi a junção da pegada eletrizante de Dodô e Osmar com a pegada dos ritmos afro-baianos que serviu de sustentáculo para o que denominamos de Axé Music. É bom lembrar que Moraes Moreira foi o primeiro cantor de trio elétrico, ou seja, o primeiro cantor a ter a ideia de pôr voz nas engrenagens do trio elétrico. E Moraes Moreira não estava sozinho, pois com ele havia as companhias da turma de Armandinho, Dodô e Osmar e dos Novos Baianos. Estes contribuíram ainda com as vozes de Baby do Brasil, a primeira voz feminina a ser ouvida em um trio, e as sofisticadas participações de Paulinho Boca de Cantor e Pepeu Gomes.
Além do Trio de Dodô e Osmar, que depois passou a ser Armandinho Dodô e Osmar, havia os trios Marajós, Tapajós, Novos Bárbaros dentre outros, que deram impulso e renovaram a forma de fazer música na Bahia, indo além de música para ser tocada somente no carnaval.
Houve algumas construções sui generis de trios elétricos como o Caetanave, em homenagem a Caetano Veloso, e o Saborosa, pertencente a uma fábrica de bebidas alcoólicas. Houve trio elétrico em forma de crocodilo e em forma de embarcação marítima. Houve trio com piano junto com guitarra baiana e houve trio que soltava perfume para os foliões. Foi a partir desses iniciadores inventivos que surgiram trios elétricos cada vez mais sofisticados, alguns destes pertencentes a celebridades do Axé Music como Durval Lelys, Chiclete com Banana, Ivete Sangalo e por aí vai…
Tive a oportunidade de dançar atrás do trio elétrico de Luiz Gonzaga, um momento ímpar em minha vida de folião e de assistir aos primeiros shows dos Novos Baianos em plena praça Castro Alves, em Salvador.
Os novos trios surgidos a partir da década de 1980 vão aos poucos trocando as antigas cornetas por caixas de som equipadas com alto-falantes de alta fidelidade.
É bom lembrar que os custos de construção de trios elétricos são muito altos, fator este que impediu que os blocos afros e afoxés tivessem acesso a essas tecnologias logo no início. As agremiações de origens africanas tinham de alugar trios elétricos, muitas vezes com estrutura tecnológica antiga, o que as prejudicaram nos desfiles durante muitos anos, pois na hora dos desfiles as referidas agremiações eram ofuscadas pelas luzes e pelas potências dos trios elétricos pertencentes ao empresariado detentor do capital. Um bloco como o Ilê Aiyê só foi ter acesso a um trio elétrico próprio mais de 30 anos depois de ter sido criado.
Observe o leitor que nós estamos tratando de cultura, e cultura não é só festa. Cultura é trabalho, cultura é tecnologia, cultura é arte, cultura é relação social. E o trio elétrico, ao mesmo tempo que servia como instrumento de fomentação da alegria, era também usado como instrumento de produção de desigualdades. O leitor pode ter uma noção do relacionamento entre os blocos de trio e os blocos de percussão (samba, afro e afoxé) ouvindo a música Macuxi muita onda (Eu sou negão) do Cantor Gerônimo Santana (1987), que narra um pouco a questão aqui relatada.
Continuando, em 1982 o Chiclete com Banana lançou o disco Traz os Montes, pois naquela época as bandas de música já se juntavam aos donos dos blocos de carnaval, em uma parceria econômica que dura até hoje, e lançavam discos de alcance regional. Houve um disco com uma música que teve muita repercussão nos dias de momo em Salvador, o álbum Brilhaê, do cantor e compositor Lui Muritiba, que tinha uma música com o mesmo nome do título do álbum.
Gente, tive o prazer de desfilar no Brilhaê em 1982 e foram momentos inesquecíveis de música e dança. No trio havia um jogo de luzes cujos raios eram jogados sobre os foliões que usavam um macacão branco. Pela primeira vez vi efeitos especiais a céu aberto, que maravilha. Lui Muritiba tinha influência do forró, frevo, reggae e da marchinha, o que deixava a galera em delírio carnavalesco.
Um outro fator significativo para a ascensão do Axé Music foi a criação de blocos afros nos meados dos anos 1970. O Ilê Aiyê, influenciado pelos afoxés, blocos de índios (indígenas) e blocos de percussão, ressignificou as batidas dos tambores e instaurou uma linguagem própria nos ritmos do carnaval baiano. O Olodum retraduziu as batidas do Ilê Aiyê, incorporando o reggae na música baiana, juntamente com o bloco afro Muzenza, que vinha do bairro da Liberdade para o centro de Salvador, espalhando uma mistura de protesto e alegria durante a festa momesca. Já o Malê de Balê construiu africanidades por meio da dança, e o Badauê elevou a tradição dos afoxés sintonizado com as batidas dos blocos afros.
É no Olodum que vai ser criado um ritmo genuinamente baiano, o samba-reggae, sob a batuta do mestre Antonio Luiz Alves de Souza, mais conhecido como Neguinho do Samba. O samba-reggae impactou artistas como Paul Simon e Michael Jackson que vieram ao Brasil para fazer intercâmbio musical com a comunidade criativa do Pelourinho. Foi muito bonito ver Michael Jackson em movimentos sincopados deslizar nas ruas do Pelourinho sob o ritmo do samba-reggae, assim como foi maravilhoso ouvir em um disco de Paul Simon as experimentações que ele fizera ao dialogar com a música produzida por Neguinho do Samba.
É nessa caminhada em movimentos paralelos de inovações tecnológicas e misturas de instrumentos musicais percussivos com eletrônicos que começam a surgir músicos que ressignificavam todas aquelas influências, dando novos rumos à música produzida na Bahia.
E foi a WR, de Wesley Rangel, que deu suporte para gravações das músicas dos artistas locais de Salvador, em uma naquela época em que os cantores tinham de se dirigir ao eixo Rio-São Paulo para gravar e fazer marketing da produção artística baiana. A partir de então formou-se uma comunidade de músicos que se relacionavam com o público brasileiro sem precisar ir morar no Rio de Janeiro ou São Paulo.
Chegamos a meados de 1985, quando a população brasileira percebe que há um movimento cultural relevante oriundo da Bahia, com identidade própria e produtora de vários ritmos. O ano de 1985 representa um marco na música brasileira, mas é bom lembrar que 1985 é a ponta de um iceberg cujas profundezas ainda há muito o que pesquisar e contar.
E quem deu apoio para aquele povo que surgia naquela época?
Os Novos Baianos se tornaram mais baianos a partir do momento que subiram em trios elétricos e se fundiram com os músicos que aqui moravam, de um lado. Do outro lado, Os Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa) participaram, dando muito apoio ao movimento, ao gravar músicas dos novos compositores, desfilar nos dias de carnaval em blocos afros e afoxés ou ao levar os novos músicos com eles nas excursões músicas que eles faziam Brasil afora. Foi uma ajuda silenciosa, muitas vezes, aqui e ali, mas que contribuiu muito para a continuidade do movimento.
De movimento cultural reconhecido no Brasil, o Axé Music percorreu o mundo e recebeu visitas de personalidades ilustres como Michael Jackson, David Byrne, Paul Simon, Jimmy Cliff, Judith Butler dentre outros.
É muita coisa para contar, ah, cansei…
Pois é, leitor, seria injusto nomear reis e rainhas quando muitas mentes criativas deram vida a esse movimento que em 2025 completa 40 anos.
Aguardem as próximas publicações e até a próxima!
Creative Commons License 
Licença Creative Commons
Leia+


O pensamento faz bem com Arlindo Machado

Pensar faz bem!
Pensar faz bem com Arlindo Machado
Continuar lendo “O pensamento faz bem com Arlindo Machado”

Memórias do Axé Music – capítulo 1

Cotas & Cidadania

Em 2025, o movimento cultural Axé Music completa 40 anos de existência. O movimento foi significativo para uma virada cultural nas formas de fazer arte e organizar o carnaval da Bahia. E é preciso conversar sobre isto.

Chamamos Axé Music de movimento cultural, por ser o Axé um processo organizado por vários autores, como artistas, produtores musicais, empresários, designers, engenheiros, entidades governamentais e religiosas, enfim, um movimento coletivo que alterou toda a produção cultural da cidade do Salvador durante a década de 1980.
Alguns pontos importantes de mudança na cultura musical ocasionada com o Axé Music foi a da formação de um público específico de apreciadores daquele tipo de música dentro de Salvador, junto com a não necessidade de os músicos saírem da Bahia para gravar discos no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, ou seja, o movimento ajudou na criação de uma economia própria. Além disto surgiu com o movimento um grupo significativo de compositores e instrumentistas que passaram a viver da música oriunda do Axé.
Houve também mudanças culturais na forma como as pessoas se fantasiavam no carnaval, com a presença cada vez mais forte de elementos da cultura afro-brasileira nas indumentárias das pessoas tanto no período do carnaval quanto em outras épocas do ano.
Devido à importância do movimento para a cultura baiana, dedicaremos espaço aqui no EPraxe para descrever o que vivenciamos com a cultura do Axé Music, compartilhando algumas produções musicais com influências mais explícitas da cultura de origem africana.
Aviso ao leitor: os textos que serão escritos são frutos de uma experiência de 40 anos de vida imerso no movimento Axé Music, e como relato de experiência de um indivíduo tem limitações, haverá faltas e incompletudes no que aqui for relatado, e o leitor tem a liberdade de complementar mais informações caso assim ache necessário.
Os textos feitos para a série 40 anos de Axé estão sendo elaborados de forma prazerosa, pois a cada escrita há uma nova audição dos álbuns que aqui serão comentados, um momento ímpar de vivência da escrita.
Se prepare e até a próxima!

Creative Commons License 
Licença Creative Commons

O Reggae invadiu a Bahia

Cecília Amado vem se dedicando ao cinema há algum tempo. O leitor lembra do filme de ficção Capitães da Areia, uma adaptação do romance de Jorge Amado? Mas Cecília Amado…

Continuar…

Lições do futebol na Bahia

Depois de 51 anos de existência, o Atlético de Alagoinhas, Bahia, conseguiu o título de campeão baiano. Um feito difícil de ser alcançado no campeonato baiano, em que tem, historicamente,…

Continuar…

Leia+

O pensamento faz bem André Raabe et al

Pensar faz bem!
Pensar faz bem!
Continuar lendo “O pensamento faz bem André Raabe et al”

Flusser em uma autobiografia filosófica

Flusser em uma autobiografia filosófica
Flusser em uma autobiografia filosófica

Terminei em 31 de dezembro passado a leitura de Bodenlos – uma autobiografia filosófica, de Vilém Flusser.

Em Bodenlos, Flusser escreve sobre si de olho na questão do “sem fundamento”, não ter chão e mover-se pelas entranhas das incertezas frente à construção de uma base filosófica.

A obra começa com Monólogo, onde Flusser vagueia por assuntos díspares, versando pela ideia da falta de fundamento, ou seja, a consciência de que somos seres de conhecimento e de desconhecimento, partindo para discutir as formas como a realidade brasileira se constrói, indo parar na controversa discussão sobre o nazismo. Haja fôlego para tanta diversidade temática.

Em um segundo momento, Flusser escreve sobre Diálogo, em que trata das conversações que estabeleceu durante a vida com gente como Alex Bloch, Guimarães Rosa, Dora Ferreira da Silva e Miguel Reale, por exemplo, e outros artistas e pensadores. As discussões são atravessadas por literatura, estética, educação, filosofia e ciências. São conversações radiantes, em que o filósofo ensina e aprende com as pelejas do bom debate.

Na terceira parte, Discurso, Flusser faz um depoimento do próprio processo de atuação como educador, abordando a construção de duas experiências pedagógicas: as aulas sobre Teoria da comunicação e sobre Filosofia da ciência.

Na última parte, chamada de Reflexões, Flusser trata da questão da pátria, tema caro à existência do autor, e dos relacionamentos com a juventude nos diversos encontros que estabeleceu na vivência acadêmica; por último, o autor trata do relacionamento que teve com a cidade de Praga, refletindo sobre a própria existência como um humano navegante, adotante de muitas pátrias e línguas. 

Bodenlos é o testamento filosófico de Flusser. É um texto múltiplo, bem ao estilo dos ensaios, gênero discursivo que o autor mais utilizou para a construção de um arcabouço teórico denso, apesar da preocupação do filósofo com a questão da falta de fundamento que pode atravessar o processo de produção de conhecimento.

Ler Bodenlos foi uma aventura filosófica, um encontro prazeroso com a arte de pensar. Haveria melhor texto para finalizar as leituras de 2024?

Até a próxima!

Continuar lendo “Flusser em uma autobiografia filosófica”

O pensamento faz bem com Vilém Flusser – Inquietações

Pensar faz bem!
Pensar faz bem!
Continuar lendo “O pensamento faz bem com Vilém Flusser – Inquietações”

A construção da cidadania brasileira e os sistemas de cotas

Cotas & Cidadania
Cotas & Cidadania

O Brasil foi formado por meio da inserção de muitos sistemas de cotas, políticas estas historicamente construídas para produção de desigualdades.

Vejamos: que dizer dos colonizadores portugueses que aqui chegaram e foram beneficiados por meio de cotas de latifúndios, o que resultou em um dos sistemas de aprofundamento de desigualdades mais severos de apropriação de bens públicos? E não parou por aí: anos mais tarde o Estado brasileiro iria criar o sistema de cotas das Entradas e Bandeiras, o qual um grupo seleto de exploradores iria se apropriar de mais terras, negando aos povos originários viver nas regiões onde eles nasceram.
E no século XX não foi diferente, quando o Estado brasileiro concedeu novas cotas de terras e de trabalho aos imigrantes europeus que aqui chegavam, deixando para trás toda uma comunidade de origem africana sem terras quando esta era a maior produtora de riquezas do país.
E o que dizer da cota da aparência? Ainda persiste no Brasil um sistema rígido de cotas para as pessoas que a sociedade considera como bem afeiçoada: pele clara, cabelos lisos, olhos claros, fechando as portas do mercado de trabalho para quem não se enquadre em tal perfil.
E a cota da amizade? Aquela em que as pessoas concedem benefícios para os amigos e parentes, impedindo os que não têm proximidade com os grupos de poder fiquem mais distantes ainda das oportunidades de trabalho.
E as cotas étnicas, de possibilitar que pessoas de determinadas origens ganhem mais do que outras devido às diferenças de cor da pele, orientação sexual, origem social ou gênero?
Para equilibrar esse estado de cotas existentes no Brasil, foi necessário criar políticas sociais para dar acesso às pessoas menos favorecidas a direitos básicos de cidadania, como trabalho, educação e saúde.
Historicamente faço parte do grupo dos desfavorecidos deste país e tive de passar parte da vida custeando minha educação com a força de muito trabalho.
Foi somente em 2019, aos 56 anos, que pude participar de processo seletivo para o doutorado em Educação da Universidade Federal da Bahia, o qual fui aprovado por meio do sistema de cotas destinado aos afrodescendentes. Vamos detalhar este itinerário?
Estudei em escola pública no ensino médio e na infância vivi dentro de um quadro de pobreza, como a maioria dos brasileiros.
Aos 19 anos fui trabalhar em uma cidade distante de Salvador, Bahia, e tive de adiar o sonho de fazer um curso superior para melhorar a condição socioeconômica da família.
Entrei na universidade aos 24 anos. A instituição era particular e não havia políticas públicas para ajudar financeiramente os cidadãos trabalhadores que precisavam estudar, ao não se o cidadão tomasse empréstimo para pagar quando se formasse, o que deixou muitos brasileiros endividados ao terminarem o curso de graduação.
Passei cinco anos e meio em uma licenciatura e só tive alívio financeiro no último semestre do curso, pois só faltava uma disciplina (hoje se chama componente curricular), e a instituição de educação não cobrou mensalidades naquele semestre.
Aos 46 anos, pude pagar novamente por um curso de mestrado em uma instituição particular, o que foi um diferencial na minha vida de trabalhador.
Da licenciatura até o mestrado, fiz cinco cursos de especialização, pois era a maneira plausível de eu continuar estudando durante a noite e conseguir melhorias financeiras para manutenção da família e para custear a própria educação. Mesmo depois de ter terminado o mestrado ainda tive de fazer um novo curso de especialização, pois o trabalho assim o exigia, e novas despesas tiveram de ser realizadas.
Enquanto eu gastava dinheiro em mensalidades e compras de materiais de estudos (livros, LP, DVD, revistas, idas ao cinema ou ao teatro, para aprender mais), testemunhei muitos colegas de trabalho formarem um bom patrimônio econômico-financeiro e usarem o dinheiro para entretenimentos diversos. O que gastei em educação daria para comprar hoje uns três ou quatro carros compactos ou um imóvel razoável em uma cidade como Salvador, mas, sem arrependimentos, investir em educação.
Nos quatro anos no doutorado, aprendi muito e participei de muitas atividades como auxiliar na organização e coordenação de seminários, escrever textos sobre ciência para os meios de comunicação de massa, produzir pesquisa e fazer comunicação científica nos meios acadêmicos. Quer dizer, o dinheiro que o Estado brasileiro investiu em minha formação durante o doutorado, foi sendo devolvido à sociedade brasileira, durante o próprio curso, na forma de produção e difusão de conhecimento. Por meio do sistema Lattes, o leitor poderá consultar o currículo e verificar os detalhes da produção feita.
E mais: concluí o curso nove meses antes do prazo regulamentar exigido para conclusão de um curso em nível de doutorado, o que já facilitou a entrada na pós-graduação de um novo estudante.
A realidade que experienciei não foi igual em relação aos pretos, pretas e pobres que estavam cursando a pós-graduação, pois durante a permanência no doutorado, percebi que muitos estudantes tinham dificuldades de continuar os estudos, por causa de pouco dinheiro para custear alimentação, estadia, material de estudos e viagens acadêmicas. As bolsas eram poucas, com valores muito baixos e ainda sem reajustes, o que sinalizava que o sistema de cotas ainda precisava se aperfeiçoar.
A partir do pequeno relato, posso testemunhar para o leitor que a política de cotas nas instituições de educação superior é algo revolucionário para a diminuição das desigualdades neste país. É um meio plausível de construção da cidadania para uma parte significativa de cidadãos, que de algum modo se encontram em situação de vulnerabilidade. E hoje tenho orgulho de afirmar: entrei por meio de cotas, sim, e é preciso que mais cidadãos e cidadãs se beneficiem desse tipo de política social.
Até a próxima!

Creative Commons License 
Licença Creative Commons

Gil na Academia

Gilberto Gil soube utilizar com maestria a régua e o compasso na construção de uma jornada artística, política e intelectual de tirar o fôlego. Ele produziu célebres canções para o…

Continuar…

Leia+

Um novo ano com 2025 realizações

2025 motivos para sonhar e realizar no novo ano!
2025 motivos para sonhar e realizar no novo ano!
Continuar lendo “Um novo ano com 2025 realizações”

O pensamento faz bem com Ecléa Bosi

Pensar faz bem!
Pensar faz bem com Ecléa Bosi
Continuar lendo “O pensamento faz bem com Ecléa Bosi”

Ilê Aiyê – uma caminhada de 50 anos

Ilê Aiyê – uma caminhada de 50 anos

O largo do Campo Grande (também conhecido como praça Dois de Julho), em Salvador, estava lotado de gente esperando para ver os desfiles do Afro Fashion Day Estilistas e Modelos!. O evento completou dez anos de existência e, a cada ano, a audiência só aumenta. Só de ver aquela multidão desejosa de assistir ao Evento já me senti feliz.

Mas eu estava muito dividido porque naquela mesma noite de primeiro de novembro de 2024, a Concha Acústica, espaço de entretenimento em Salvador, também estava lotada de gente para celebrar os 50 anos de existência do Ilê Aiyê, uma instituição multicultural, que trabalha cotidianamente para a inserção dos afrodescendentes na economia, educação, lazer, artes e tudo que possa aproximar os descendentes de africanos da cidadania brasileira.
Ao me dirigir do Campo Grande para a Concha Acústica, vi passar um jovem negro, cabelos encaracolados, de óculos, com uma camisa multicolorida. Alguém tocou no braço do rapaz e disse que o pessoal da filmagem já havia chegado, pensando que ele estava ali para trabalhar.
O rapaz é jornalista e trabalha em uma emissora de televisão local. No meio da escadaria que leva à Concha, notei que o jornalista se encontrou com umas cinco pessoas e ao olhar com mais cuidado para o grupo, percebi que eram todos jornalistas da emissora. Eles estavam muito radiantes em ir ao show de 50 anos do Ilê e mais radiante estava eu por ver a juventude negra ocupando espaços no jornalismo baiano.
O motivo da felicidade não foi à toa, pois há 50 anos quando o Ilê se organizou e foi para as ruas do carnaval da Bahia, a recepção dos meios de comunicação não foi tão afetuosa, pois a instituição recém-criada inaugurava uma forma diferenciada de fazer política no carnaval da Bahia, chamando a atenção para os processos de racismo e discriminação existentes em relação aos negros ou como diriam Caetano Veloso e Gilberto Gil, os quase brancos e os quase pretos.
Pois é, só em ver aqueles jovens no momento de folga irem assistir ao show do Ilê demonstra uma significativa mudança nas relações sociais dentro da Bahia, como a de termos afrodescendentes trabalhando na imprensa local e ainda valorizando as produções culturais afrocentradas.
O show de 50 anos fez uma retrospectiva musical da história da Instituição e contou com a participação especial de Daniela Mercury, BaianaSystem, Carlinhos Brown, Beto Jamaica, Aloísio Menezes, Orquestra Afrosinfônica, Amanda Maria e Matilde Charles: como é diversa a produção artística deste povo?
Cantei, dancei e refleti sobre os últimos 50 anos de minha vida, atravessados pela existência de entidades como o Ilê Aiyê, que por meio da arte, da educação e do trabalho estimulam o desenvolvimento da estima coletiva dos descendentes dos povos africanos. Durante a festa meu corpo virou linguagem e minha alma resplandeceu. “Valeu, Zumbi!” - “Ah, se não fosse o Ilê Aiyê”.
Até a próxima!

Creative Commons License 
Licença Creative Commons

Gil na Academia

Gilberto Gil soube utilizar com maestria a régua e o compasso na construção de uma jornada artística, política e intelectual de tirar o fôlego. Ele produziu célebres canções para o…

Continuar…

Leia+

O pensamento faz bem com John Thompson II

Pensar faz bem!
O pensamento faz bem com John Thompson II

A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculadas à cultura e ao cotidiano. Os textos Pensar faz bem! são frutos das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de John Thompson.
Boas reflexões!

Continuar lendo “O pensamento faz bem com John Thompson II”