O pensamento faz bem desta quinzena é de Juan Mairena. Boa leitura!

Artigos, resenhas e crônicas do cotidiano
O pensamento faz bem desta quinzena é de Juan Mairena. Boa leitura!


A publicação da semana traz reflexões sobre o disco Aos vivos, de Chico César, que completa 30 anos de lançamento em 2025.
Há 30 anos passei um bom período ouvindo quase diariamente o disco de Chico César, Aos vivos. Do CD saía um som tão realista, que quando eu fechava os olhos parecia que Chico César estava na mesma sala que eu, tocando um violão vertiginosamente, tal era a qualidade daquela tecnologia na época.
Sei que nos anos 1990, muitas pessoas, que gostavam de música, eram apaixonadas por sons graves de alta fidelidade e não davam tanta atenção aos recursos técnicos do CD, pois eram adeptas dos sulcos encravados no velho bolachão, o LP, mesmo com os ruídos que a tecnologia trazia.
Mas a prova de que o som que saía daquele CD era de excelente qualidade foi a visita de uma vizinha que foi nos visitar e que, curiosamente, perguntou se eu sabia tocar violão. Pois é, do lado de fora do apartamento, a impressão da vizinha era parecida com a minha: havia alguém no apartamento tocando violão sem parar.
Quanto às músicas em si, Aos vivos fazia uma revisitação à música popular brasileira, reverenciando o cancioneiro popular por meio da ressignificação de ícones como Jackson do Pandeiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil e por aí vai…
O interessante era que a revisitação tinha identidade própria, em cada música havia um João Bosco, um Luiz Gonzaga, mas com o jeito de ser de Chico César.
Aquelas imagens de Chico César no disco me traziam uma imagem mística e misteriosa de Buda. Chico César nos convidava a transcender por meio da música, o disco era uma viagem única em um mergulho harmonioso pelas ondas das melodias culturais brasileiras.
Os temas eram uma encenação à parte. Chico César toca poeticamente, com os pés bem fincados no chão, registrando nas letras temas como o racismo, as desigualdades sociais, as questões de gênero, mostrando que arte e política dão uma boa feijoada filosófica.
Voltei a ouvir Aos vivos 30 anos depois com uma sensação de saudosismo e renovação. Quanto ao som do violão? Continua o mesmo, provocando nossos ouvidos e nos convidando a continuar nossa viagem de cultivo à sensibilidade em mundo cheio de motivos para roubar nossa atenção .
Até a próxima!
Dados da obra
O quê? Aos vivos {CD}
Quando? 1995
De quem é? Chico César
Alguém mais? Lenine Lanny Gordin (guitarrista)
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Se não se acha graça em reler várias vezes um livro, decerto, é inútil lê-lo.
Oscar Wilde, em Estética – ensaios sobre arte e cultura, p. 20.

Estava na Faculdade de Educação da UFBA, esperando a hora de iniciar a reunião com o grupo de pesquisa, quando resolvi passar na loja da Editora da UFBA (Edufba) para passar o tempo.
O interesse inicial era vasculhar textos sobre educação, mas para minha surpresa encontrei o livro Os algoritmos e nós, do professor Paulo Nuno Vicente, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova Lisboa (Portugal).
O livro está escrito em português de Portugal, mas isto não impede a leitura fluida do texto. Em Os algoritmos e nós, o professor Nuno faz uma apreciação antropológica e social dos algoritmos, por meio de uma escrita leve e bem organizada.
A introdução é um convite à reflexão sobre as implicações sociais dos usos dos algoritmos na vida em sociedade. Depois o autor busca, sem abusar de termos técnicos, tecer comentários sobre os modos de existência dos algoritmos, trazendo as especificidades desses códigos computacionais, em uma abordagem que articula a face técnica e a face cultural desses objetos próprios do século XXI.
Nuno também faz um breviário da história dos algoritmos, com um jeito não enfadonho e sistematizando os principais marcos de construção desse que é um dos maiores bens construídos pela humanidade.
O livro levanta um elenco de situações sociotécnicas vão sendo discutidas durante a escrita da obra, trazendo esclarecimentos sobre questões como predição, opacidade, vigilância, coleta de dados, assimetria social, política, diversão, vieses e outros assuntos, ajudando os leitores a entender um tema tão atual para compreensão da vida cotidiana no século XXI.
Apesar da linguagem leve e organizada, Nuno não perde o rigor da narrativa e presenteia o leitor com informações fundamentais sobre esses inventos técnicos que fazem parte do dia a dia de todos nós.
O mais: entrei na livraria com um objetivo e, no acaso, sem interferências algorítmicas, encontrei um livro cuja leitura tanto me enriqueceu e me levou para outros rumos.
É hora de o leitor conhecer Nuno por ele mesmo!
A autocracia corresponde, nesses casos há uma racionalização assimétrica do poder social: os cidadãos são diminuídos na sua capacidade de ação e reinterpretados como instâncias de procedimento algorítmico. O mesmo é dizer: os cidadãos reduzem-se ao maquinal. Daqui decorre que a adoção de procedimentos algocráticos no seio das organizações transforma a natureza das instituições: não se trata apenas da adoção de um novo sistema informático, mas da modelação de novo exame de gestão.
Nuno, 2023, p. 66-67
Até a prp
Mediados por milênios e convertidos a oráculos digitais, procuramos nos sistemas algorítmicos a segurança que os antigos encontravam nas práticas ancestrais de artes divinatórias. Desejamos mudar o mundo assente na previsão do futuro, fonte de adicionais garantias em tempos conturbados, enquanto desviamos o olhar do que essa ambição faz de nós, enquanto sociedade, no tempo presente.
Nuno, 2023, p. 90

Uma pessoa em nosso tempo pode pertencer aos meios cultos sem nunca ter pensado no destino humano como os gregos pensaram, ou nunca ter contemplado as constelações visíveis nas diferentes estações. Ela só conhece a via-láctea reproduzida nos livros e se crê superior aos pastores da Ásia que contemplavam estrelas. E se acha superior aos que trabalham com as mãos ou cultivam a terra, pois ela própria se diz uma pessoa cultivada.
Ecléa Bosi, em Cultura e desenraizamento, em Cultura brasileira – temas e situações, organização de Alfredo Bosi, p. 18

Ligações entre os Doces Bárbaros e o Axé
Quem influenciou quem na música da Bahia? Os Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa) foram seguidos pelos novos músicos baianos dos anos 1970-1980 ou os novos músicos baianos dos anos 1970-1980 foram seguidos pelos Doces Bárbaros?
É uma questão difícil de ser respondida. O que sei é que há muitos traços da nova música produzida na Bahia nos anos 1970-1980 e também há muitos traços nas músicas criadas e interpretadas por Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil naquele período.
Maria Bethânia sempre esteve próxima da música produzida no Recôncavo Baiano e das manifestações aproximadas com as matrizes religiosas afro-brasileiras. Não à toa, ela gravou Reconvexo, de Caetano Veloso, e Salve as Folhas, de Ildásio Tavares e Gerônimo, registros artísticos onde se percebem os nítidos traços da música baiana produzida na época.
Caetano Veloso e Gilberto Gil construíram canções fundamentais naquele período como, Marcha da tietagem, Filhos de Gandhi, Afoxé, de Gilberto Gil, e Atrás do trio elétrico e Badauê, de Caetano Veloso. Os dois compositores viveram muitos momentos nos desfiles das agremiações do carnaval da Bahia do período 1970-1980. Já vi Caetano Veloso em cima dos trios do Baiana System e Cortejo Afro. Gilberto Gil já andou muito pelas ruas de Salvador cantando com os Filhos de Gandhi. Gilberto Gil já cantou nos palcos do Ilê Aiyê, e Caetano Veloso foi intérprete de uma música do primeiro disco do Ilê.
Já Gal Costa lançou o icônico disco álbum Plural (RCA, 1990), com músicas como Salvador não inerte (Bobôco e Beto Jamaica), Ladeira do Pelô (Betão), Brilho de beleza (Nego Tenga) e Zanzando (Carlinhos Brown).
Haja fôlego para tanto intercâmbio!
O que sei e vivi foi testemunhar um casamento harmonioso e cheio de criatividade entre os Doces Bárbaros e os artistas do Axé Music.
Até a próxima parada!
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Uma arqueologia da cultura africana no Brasil
Nos textos aqui criados está evidente uma preocupação em resgatar no movimento Axé Music as influências de matrizes africanas sobre a cultura baiana. É nada melhor do que trazer um pouco da produção fonográfica dos blocos afros e afoxés que tão bem fizeram uma arqueologia da cultura africana que foi ressignificada dentro da cultura baiana. O primeiro registro que traremos aqui é o do álbum Núbia Axum Etiópia, do Olodum. Vamos lá?
Um dos propósitos dos blocos afros desde os momentos iniciais em que foram concebidos era de cultivar a ideia de coletivismo entre os integrantes das agremiações afro-baianas, e isto ficou evidente no álbum Núbia Axum Etiópia, lançado em 1988 pela Continental. Era o ano dos 100 anos da promulgação da Lei Áurea, em que as desigualdades de toda ordem ainda continuavam atravessando a sociedade brasileira e que lutar ainda era preciso, segundo os princípios filosóficos do Olodum.
Para o leitor ter uma noção do sentido de coletividade no Olodum, Núbia Axum Etiópia foi construído envolto de contribuições de vários músicos, cantores e compositores, que produziram uma obra de arte com os olhos na África, em um ritmo que cruzada os sons afro-brasileiros com os da cultura jamaicana também, outra cultura que ressignificou a cultura africana.
No encarte do álbum, uma mensagem para os ouvintes, demonstrando o quanto de compromisso político havia nos artistas comprometidos com a música afro-baiana:
“Este disco é dedicado a Nelson Mandela, ao Movimento Negro Brasileiro, ao Maciel-Pelourinho, a Socialista Etiópia, a força e luz do Rastafarismo, a João Rodrigues da Silva (+), a nossa luta contra o racismo no mundo, contra o apartheid, pela paz mundial e contra todas as formas de guerra.”
Grupo Cultural Olodum
Ainda sobre a coletividade, além dos cantores e compositores, a banda do Olodum tinha como instrumentistas mestre Neguinho do Samba, na regência e nos timbales, Mapia, Dedezinho, Melo, Carranca e Nelson na marcação II, Fernando Macaé e Coroa na Marcação I, Long-Dong na caixa, Memeu, Ivan e Roseval no repique, Cristina Rodrigues, Alice, Euzébio Cardoso, Nego e Germano no coro, e Bira Reis, Euzébio Cardoso e Felipe Cavalieri nos efeitos (metais).
Para dar um gostinho do disco, trazemos abaixo um pouco dos conteúdos da letras, para o leitor se deliciar:
“O povo trazido do seio da África
Fez o Pelourinho virar páginas
Trouxeram o primeiro, o segundo e terceiro
E foram tantas cabeças que não sei contar a a a…
(..)
Espalharam o negro no mundo intereiro
Para, para para nos enganar á á á
(...)
Vai Olodum e ensina esse povo a lutar
Com seu canto forte Olodum
Esses guetos precisam acabar”
Em um outro momento:
“Aids se expandiu
E o terror já domina o Brasil
Faz denúncia Olodum Pelourinho
E lá vou eu..”
Querem saber quem eram os intérpretes e compositores de Núbia Axum Etiópia, gente?
| Música | Intérprete | Compositor |
| Olodum cosmopolita | Tonho Matéria | Tonho Matéria e Rey Zulu |
| Ranavalona (Bravuras malgaxes) | Beto do Carmo | Marcelo Gentil e Julinho |
| Olodum, a banda do Pelô | Beto do Carmo | Jaguaracy Esseerre |
| O poder da trindade | Betão | Betão e Jamoliva |
| Influências egípcias | Nêgo | Ademário |
| Etiópia mundo negro | Bira Reis | Bira Reis |
| Denúncia | Lazinho | Tita Lopes e Lazinho |
| Tempos de criança | Germano | Germano |
| Lutar é preciso | Valmir Brito | Caj Carlão |
| Negra luta | Valmir Brito | Marcelo Gentil e Bobôco |
| Protesto Olodum | Betão | Tatau |
| Banda reggae Olodum ritmos | Neguinho do Samba | Neguinho do Samba |
Até a próxima parada!
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Entre o elétrico e o percussivo no carnaval da Bahia
O movimento Axé Music sofre influência sobremaneira do intercâmbio entre a música de base eletrônica, via guitarra, principalmente guitarra baiana, e os elementos percussivos cujos ritmos eram oriundos da África.
Neste sentido, os Novos Baianos têm papel fundamental nessa mistura, pois foi nos primeiros acordes da guitarra de Pepeu Gomes e nas vozes de Paulinho Boca de Cantor, Baby do Brasil, inicialmente conhecida como Baby Consuelo, e Moraes Moreira, que os primeiros trios elétricos foram aos poucos desfilando ao som de vozes e instrumentos eletrônicos e percussivos.
Os Novos Baianos, apesar de pioneiros em jogar uma banda comum em um trio elétrico, não chegaram a gravar um álbum dedicado ao carnaval da Bahia, mas as experimentações deles em cima do trio elétrico influenciaram muito a efusão de bandas de Axé Music no carnaval baiano durante anos 1980-1990.
Quanto à efusão de cantores em cima de trios elétricos, misturando tudo, do galope ao baião, do frevo ao reggae, do samba de roda ao samba-reggae, é preciso destacar os trabalhos do Armandinho, Dodô e Osmar, registrados nos álbuns Eletrizando o Brasil, com participação especial de Moraes Moreira (Music Color, 1983) e Aí eu liguei o rádio (RCA, 1987), dois trabalhos fundamentais para quem deseja entender a transição dos trios elétricos de alto falantes para os trios elétricos com as modernas caixas de som que produziam um som de alta fidelidade. Nos dois trabalhos, é possível perceber o trânsito dos artistas entre a influência do frevo pernambucano no carnaval da Bahia, para a ressignificação do Ijexá, resultando em vários tons musicais e dando nova forma à música baiana.
Naquele momento a cultura baiana não ficava mais presa aos acordes do frevo nem aos batuques das escolas de samba. A cultura baiana ressignificava não somente o frevo e o samba carioca, construindo identidade musical própria como também trazia para os círculos musicais baianos as sonoridades do reggae, do baião, do rock e do galope, tal qual se faz uma feijoada em uma cozinha baiana: tudo misturado, mesmo quando as dinâmicas sociais, raciais e econômicas da época não estivessem favoráveis para as mudanças que se anunciaram naquela época.
Até a próxima parada!
Memórias do Axé Music - número 5
Ligações entre os Doces Bárbaros e o Axé
Quem influenciou quem na música da Bahia? Os Doces Bárbaros foram seguidos pelos novos músicos baianos dos anos 1970-1980 ou os novos músicos baianos dos anos 1970-1980 foram seguidos pelos Doces Bárbaros?
É uma questão difícil de ser respondida. O que sei é que há muitos traços da nova música produzida na Bahia nos anos 1970-1980 e também há muitos traços nas músicas criadas e interpretadas por Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil naquele período.
Maria Bethânia sempre esteve próxima da música produzida no Recôncavo Baiano e das manifestações aproximadas com as matrizes religiosas afro-brasileiras. Não à toa, ela gravou Reconvexo, de Caetano Veloso, e Salve as Folhas, de Ildásio Tavares e Gerônimo, registros artísticos onde se percebem os nítidos traços da música baiana produzida na época.
Caetano Veloso e Gilberto Gil construíram canções fundamentais naquele período como, Marcha da tietagem, Filhos de Gandhi, Afoxé, de Gilberto Gil, e Atrás do trio elétrico e Badauê, de Caetano Veloso. Os dois compositores viveram muitos momentos nos desfiles das agremiações do carnaval da Bahia do período 1970-1980. Já vi Caetano Veloso em cima dos trios do Baiana System e Cortejo Afro. Gilberto Gil já andou muito pelas ruas de Salvador cantando com os Filhos de Gandhi. Gilberto Gil já cantou nos palcos do Ilê Aiyê, e Caetano Veloso foi intérprete de uma música do primeiro disco do Ilê.
Já Gal Costa lançou o icônico disco álbum Plural (RCA, 1990), com músicas como Salvador não inerte (Bobôco e Beto Jamaica), Ladeira do Pelô (Betão), Brilho de beleza (Nego Tenga) e Zanzando (Carlinhos Brown).
Haja fôlego para tanto intercâmbio!
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Revisitando as origens do Axé Music
O mito do herói perpassa diversos âmbitos de nossa cultura e já é costume eleger alguma personalidade como principal protagonista de eventos históricos no Brasil. E isto não seria diferente com o movimento Axé Music muitas vezes é apresentado exaltando-se a figura de algum herói, ou pai ou mãe ou rei ou e rainha...
Mas revisitando o Axé é possível trazer elementos históricos relevantes que levaram ao surgimento desse movimento cultural tão relevante, criado no final do século XX, em que fica evidenciada a força do coletivo na elaboração desse construto cultural.
Vamos lá?
Duas dimensões foram fundamentais para a criação coletiva desse movimento cultural afro-baiano: a primeira foi a música de base percussiva com forte influência do candomblé da Bahia, o Ijexá, vertente de música elaborada pelos blocos de afoxé tem origem afro-brasileira e foi muito cantado e divulgado pelos Filhos de Gandhy, entidade carnavalesca criada em 1949. Por sinal, amanhã, 18 de fevereiro, o Gandhy completará 76 anos de existência.
O instrumento musical que impulsiona o afoxé é o agogô com aquela sonoridade metalizada que libera sons agudos, regendo os tons graves dos demais instrumentos percussivos, fazendo as pessoas dançarem de forma lenta e sincronizada, em uma caminhada em estado de meditação.
Na saída do Gandhy sempre há um ritual de religião afrocentrada que funciona como um pedido à transcendência para que haja paz nos dias de carnaval.
O Gandhy é uma uma agremiação popular, nascida no seio da labuta dos trabalhadores do porto de Salvador. É o som do Gandhy que vai influenciar a batida afro de Gilberto Gil, inicialmente, e direcionar boa parte das composições de Moraes Moreira quando este se relacionava com o carnaval da Bahia.
A segunda dimensão constitutiva do movimento Axé foi a influência das tecnologias, inicialmente eletrônicas, depois, computacionais, que iriam dar origem ao que nós conhecemos hoje como trio elétrico (1950) e à criação de um instrumento musical genuinamente brasileiro: a guitarra baiana. Dodô, o eletrotécnico, e Osmar, o metalúrgico, montaram um palco em um automóvel e até hoje o trio elétrico circula mundo afora divulgando a cultura da Bahia.
Foi a junção da pegada eletrizante de Dodô e Osmar com a pegada dos ritmos afro-baianos que serviu de sustentáculo para o que denominamos de Axé Music. É bom lembrar que Moraes Moreira foi o primeiro cantor de trio elétrico, ou seja, o primeiro cantor a ter a ideia de pôr voz nas engrenagens do trio elétrico. E Moraes Moreira não estava sozinho, pois com ele havia as companhias da turma de Armandinho, Dodô e Osmar e dos Novos Baianos. Estes contribuíram ainda com as vozes de Baby do Brasil, a primeira voz feminina a ser ouvida em um trio, e as sofisticadas participações de Paulinho Boca de Cantor e Pepeu Gomes.
Além do Trio de Dodô e Osmar, que depois passou a ser Armandinho Dodô e Osmar, havia os trios Marajós, Tapajós, Novos Bárbaros dentre outros, que deram impulso e renovaram a forma de fazer música na Bahia, indo além de música para ser tocada somente no carnaval.
Houve algumas construções sui generis de trios elétricos como o Caetanave, em homenagem a Caetano Veloso, e o Saborosa, pertencente a uma fábrica de bebidas alcoólicas. Houve trio elétrico em forma de crocodilo e em forma de embarcação marítima. Houve trio com piano junto com guitarra baiana e houve trio que soltava perfume para os foliões. Foi a partir desses iniciadores inventivos que surgiram trios elétricos cada vez mais sofisticados, alguns destes pertencentes a celebridades do Axé Music como Durval Lelys, Chiclete com Banana, Ivete Sangalo e por aí vai…
Tive a oportunidade de dançar atrás do trio elétrico de Luiz Gonzaga, um momento ímpar em minha vida de folião e de assistir aos primeiros shows dos Novos Baianos em plena praça Castro Alves, em Salvador.
Os novos trios surgidos a partir da década de 1980 vão aos poucos trocando as antigas cornetas por caixas de som equipadas com alto-falantes de alta fidelidade.
É bom lembrar que os custos de construção de trios elétricos são muito altos, fator este que impediu que os blocos afros e afoxés tivessem acesso a essas tecnologias logo no início. As agremiações de origens africanas tinham de alugar trios elétricos, muitas vezes com estrutura tecnológica antiga, o que as prejudicaram nos desfiles durante muitos anos, pois na hora dos desfiles as referidas agremiações eram ofuscadas pelas luzes e pelas potências dos trios elétricos pertencentes ao empresariado detentor do capital. Um bloco como o Ilê Aiyê só foi ter acesso a um trio elétrico próprio mais de 30 anos depois de ter sido criado.
Observe o leitor que nós estamos tratando de cultura, e cultura não é só festa. Cultura é trabalho, cultura é tecnologia, cultura é arte, cultura é relação social. E o trio elétrico, ao mesmo tempo que servia como instrumento de fomentação da alegria, era também usado como instrumento de produção de desigualdades. O leitor pode ter uma noção do relacionamento entre os blocos de trio e os blocos de percussão (samba, afro e afoxé) ouvindo a música Macuxi muita onda (Eu sou negão) do Cantor Gerônimo Santana (1987), que narra um pouco a questão aqui relatada.
Continuando, em 1982 o Chiclete com Banana lançou o disco Traz os Montes, pois naquela época as bandas de música já se juntavam aos donos dos blocos de carnaval, em uma parceria econômica que dura até hoje, e lançavam discos de alcance regional. Houve um disco com uma música que teve muita repercussão nos dias de momo em Salvador, o álbum Brilhaê, do cantor e compositor Lui Muritiba, que tinha uma música com o mesmo nome do título do álbum.
Gente, tive o prazer de desfilar no Brilhaê em 1982 e foram momentos inesquecíveis de música e dança. No trio havia um jogo de luzes cujos raios eram jogados sobre os foliões que usavam um macacão branco. Pela primeira vez vi efeitos especiais a céu aberto, que maravilha. Lui Muritiba tinha influência do forró, frevo, reggae e da marchinha, o que deixava a galera em delírio carnavalesco.
Um outro fator significativo para a ascensão do Axé Music foi a criação de blocos afros nos meados dos anos 1970. O Ilê Aiyê, influenciado pelos afoxés, blocos de índios (indígenas) e blocos de percussão, ressignificou as batidas dos tambores e instaurou uma linguagem própria nos ritmos do carnaval baiano. O Olodum retraduziu as batidas do Ilê Aiyê, incorporando o reggae na música baiana, juntamente com o bloco afro Muzenza, que vinha do bairro da Liberdade para o centro de Salvador, espalhando uma mistura de protesto e alegria durante a festa momesca. Já o Malê de Balê construiu africanidades por meio da dança, e o Badauê elevou a tradição dos afoxés sintonizado com as batidas dos blocos afros.
É no Olodum que vai ser criado um ritmo genuinamente baiano, o samba-reggae, sob a batuta do mestre Antonio Luiz Alves de Souza, mais conhecido como Neguinho do Samba. O samba-reggae impactou artistas como Paul Simon e Michael Jackson que vieram ao Brasil para fazer intercâmbio musical com a comunidade criativa do Pelourinho. Foi muito bonito ver Michael Jackson em movimentos sincopados deslizar nas ruas do Pelourinho sob o ritmo do samba-reggae, assim como foi maravilhoso ouvir em um disco de Paul Simon as experimentações que ele fizera ao dialogar com a música produzida por Neguinho do Samba.
É nessa caminhada em movimentos paralelos de inovações tecnológicas e misturas de instrumentos musicais percussivos com eletrônicos que começam a surgir músicos que ressignificavam todas aquelas influências, dando novos rumos à música produzida na Bahia.
E foi a WR, de Wesley Rangel, que deu suporte para gravações das músicas dos artistas locais de Salvador, em uma naquela época em que os cantores tinham de se dirigir ao eixo Rio-São Paulo para gravar e fazer marketing da produção artística baiana. A partir de então formou-se uma comunidade de músicos que se relacionavam com o público brasileiro sem precisar ir morar no Rio de Janeiro ou São Paulo.
Chegamos a meados de 1985, quando a população brasileira percebe que há um movimento cultural relevante oriundo da Bahia, com identidade própria e produtora de vários ritmos. O ano de 1985 representa um marco na música brasileira, mas é bom lembrar que 1985 é a ponta de um iceberg cujas profundezas ainda há muito o que pesquisar e contar.
E quem deu apoio para aquele povo que surgia naquela época?
Os Novos Baianos se tornaram mais baianos a partir do momento que subiram em trios elétricos e se fundiram com os músicos que aqui moravam, de um lado. Do outro lado, Os Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa) participaram, dando muito apoio ao movimento, ao gravar músicas dos novos compositores, desfilar nos dias de carnaval em blocos afros e afoxés ou ao levar os novos músicos com eles nas excursões músicas que eles faziam Brasil afora. Foi uma ajuda silenciosa, muitas vezes, aqui e ali, mas que contribuiu muito para a continuidade do movimento.
De movimento cultural reconhecido no Brasil, o Axé Music percorreu o mundo e recebeu visitas de personalidades ilustres como Michael Jackson, David Byrne, Paul Simon, Jimmy Cliff, Judith Butler dentre outros.
É muita coisa para contar, ah, cansei…
Pois é, leitor, seria injusto nomear reis e rainhas quando muitas mentes criativas deram vida a esse movimento que em 2025 completa 40 anos.
Aguardem as próximas publicações e até a próxima!
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