A escrita em garranchos

Garranchos de Cleonilton
Garranchos de Cleonilton
Por volta dos nove anos de idade, passei por momentos difíceis que afetaram toda a minha vida futura. Ainda na segunda unidade do chamado terceiro ano do antigo primário, recebi o boletim de avaliação e verifiquei que não tinha alcançado as notas mínimas para passar nas duas primeiras unidades e que corria o risco de não ser aprovado no ano letivo.
Duas questões eram impeditivas para eu estudar adequadamente: primeiro, eu adorava jogar figurinhas, e aquele vício me envolvia de tal modo, que não conseguia olhar de forma adequada para os estudos. A rotina era jogar, jogar, jogar…
A segunda questão se referia à forma como eu escrevia: as letras eram incompreensíveis e isto impedia que a professora pudesse ler as atividades escolares feitas por mim e fazer de forma efetiva a avaliação.
Levei o boletim para casa, e minha mãe ficou alvoroçada. Só falava no assunto. Dias depois ela foi à escola para conversar com a professora e ficou mais preocupada ainda com os comentários da professora, como falta de atenção, atrasos, não cumprimento do horário do intervalo, além da escrita que era incompreensível.
Naquele tempo as pessoas achavam que quem tinha letra incompreensível tinha problemas de desenvolvimento cognitivo e, em consequência , dificuldades para estudar. Até hoje a gente ainda encontra pessoas que fazem esse tipo de comentário, considerando as pessoas de letras incompreensíveis como pessoas menos inteligentes.
Após a conversa com a professora, minha mãe me matriculou em uma turma de alfabetização de crianças, que estavam atrasadas no desenvolvimento educacional. Fiquei muito chateado com a situação e questionei muito aquela decisão. Eu sabia ler e escrever com fluência, pois ajudava meus pais nos estudos a distância que eles faziam, tinha um desempenho razoável em Matemática e facilidade em estudar assuntos ligados à Geografia e à História. Minha mãe não quis saber: em poucos dias estava eu na escola no meio das crianças e adolescentes que ainda não haviam conseguido se alfabetizar. Como lidar com aquela situação?
Após alguns dias nas aulas de reforço, os meninos da turma descobriram que eu já frequentava a terceira séria e começaram a brincar rotineiramente com aquilo me chamando de “burro”. Foram dias de humilhação.
Consegui passar de ano, mas tive de estudar com a turma de quarta série considerada a mais fraca em termos de desempenho escolar. Naquele tempo a escola fazia separação entre os estudantes que tinham boas notas dos que tinham notas ruins. Os colegas da quarta série tinham em média 14 anos, e eu acabara de fazer dez. Eles eram muito danados, eram fortes e gostavam de brincar de briga: tempos difíceis aqueles; vivia fugindo de um e de outro o tempo todo. Com o passar das aulas, os colegas perceberam que eu tinha um bom desempenho escolar e diminuíram as ações violentas contra mim. Mas foi um ano muito difícil aquele.
No ginásio, voltei para as turmas dos meninos que tinham boas notas e fiquei menos exposto à violência comum que acontecem quando crianças menores ficam com adolescentes que gostam de brincar com coisas violentas, mas desde aquela época já achava que a classificação de estudantes por nível de conhecimento não fosse a saída adequada para a educação de crianças e adolescentes. Os meninos e meninas precisam ficar juntos e misturados, eles precisam ser incentivados a realizarem atividades cooperativas entre si, para que todos possam aprender juntos. Só tive a consciência disto depois que passei um ano longe dos meus colegas porque tinha obtido notas menores.
Fui para o segundo grau (ensino médio) e lá passei a escrever em letra de forma, para que a escrita fosse legível e eu não ficasse prejudicado nas notas durante as avaliações.
Ao entrar no mundo do trabalho, trabalhei com Contabilidade. Lá fui surpreendido de novo com a questão das letras incompreensíveis (os garranchos). Os colegas de trabalho tinham belas letras cursivas e preenchiam de forma ornamental as fichas de registros contábeis. Quando eu errava um registro, a forma como eu escrevia era muito evidenciada, e eu morria de medo quando chegavam os relatórios contábeis, pois, caso houvesse erro em algum registro, eu ficaria exposto diante de todos.
Um dia houve um número expressivo de erros meus por causa da letra incompreensível. O chefe do setor me chamou e conversamos sobre o assunto. Lembro que entre um papo e outro ele disse mais ou menos assim: “você não precisa ter uma letra bonita, basta que ela seja legível”. Aquela sinalização ajudou muito, pois ainda tenho a letra feia, chamada de garrancho, mas procuro escrever de forma legível. Também me ajudou na estima, pois eu me nivelava por baixo diante de outros profissionais por achar as minhas letras fora do padrão.
O que aprendi com tudo isto? Quanto aos jogos, aprendi a não me deixar envolver em coisas que me deixam submetido ou dependente em demasia. Ainda jogo, mas só quando é para produzir prazer; quanto às letras, elas continuam as mesmas, rs, com algumas melhorias, é claro.
As letras que produzimos expressam um pouco do que somos, e a gente precisa cuidar para pensar em mudar sempre, mas com cuidado para que as referidas mudanças não diminuam a nossa estima.
Foi preciso passar por tudo o que aqui foi descrito para me entender melhor, sabendo das minhas fraquezas e reconhecendo as minhas potencialidades.
Até a próxima!

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O pensamento faz bem Rafael Sampaio e Outros 2

Pensar faz bem com Rafael Sampaio e outro 2
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EPraxe – 500 publicações

EPraxe - Cultura & Cotidiano
EPraxe – Cultura & Cotidiano

Chegamos à postagem número 500 e isto é fruto de uma longa jornada de escrita iniciada em 2006. De 2006 a 2017 publicamos pouco mais de 60 postagens. Naquele período o EPraxe se chamava Senso Comum e estava localizado em uma plataforma de hospedagem gratuita. As publicações eram muito distantes umas das outras, e houve ano de não haver publicações.

A partir de 2017, o Senso Comum passou a se chamar EPraxe e mudou a forma de publicar. A periodicidade de publicações passou a ser semanal, com três textos autorais e um texto de reflexão, fruto das leituras realizadas a fundamentação da escrita no blog. 
Em 2020 com a entrada de Cleonilton Souza no doutorado em educação, O EPraxe passou a ter dois registros de reflexão e dois registros autorais, pois era um momento difícil de conciliar escrita para blog e escrita para pesquisa. Aos poucos estamos voltando a ter mais publicações autorais. Não que os textos de reflexão prejudiquem a linha editorial do blog, mas a necessidade de construção de escrita própria fala mais alto em relação aos propósitos de criação do EPraxe.
O propósito do EPraxe é discutir questões ligadas à educação, cultura, linguagens, tecnologias e artes, por meio da publicação semanal de artigos, resenhas e crônicas do cotidiano.
A vida continua e vamos nos organizar em busca de mais 500 publicações: haja trabalho para o futuro!

Para comemorar os 500 registros, escolhemos algumas postagens, para que o leitor conheça um pouco mais a história de escrita do EPraxe. Aproveitem!


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Os textos de cabeceira nas pesquisas em educação

Os textos de cabeceira nas pesquisas em educação
Os textos de cabeceira nas pesquisas em educação

O doutorado foi um prazeroso processo de formação como pesquisador e é preciso compartilhar com os internautas as leituras que considerei fundamentais para o processo de formação.


Listo abaixo alguns dos textos que contribuíram para a construção da pesquisa e que serviram, e muito, para a minha vida na totalidade.

A importância do ato de ler, em A importância do ato de ler em três artigos que se completam, p. 19-31 - Paulo Freire
Se temos pouca proximidade com a leitura, o processo da pesquisa se torna um martírio. É bom lembrar que leitura não é aquele ato de memorização que às vezes a gente se acostuma a fazer durante a educação básica, é preciso ir além, e Freire discute muito bem o assunto.

O ato de estudar, em A importância do ato de ler em três artigos que se completam, p. 72-76 - Paulo Freire
No mesmo livro, é possível ler um texto curto e grandioso: pequeno no tamanho, mas grandioso na reflexão sobre como o ato de estudar pode nos ajudar a construir nossa identidade como pesquisadores.

Dialogicidade, em À sombra desta mangueira, p. 74-82, Paulo Freire
Freire aqui não só discute a questão da dialogicidade na educação, como também aborda o tema da curiosidade epistemológica, uma forma mais organizada de a gente atuar tanto em educação quanto em atos de pesquisa.

Um objeto geográfico?, em A natureza do espaço, p. 72-79, Milton Santos
Aqui, Milton Santos discute de maneira sistemática e dialética o que seja pesquisar em Geografia. Fique tranquilo, leitor, a discussão é aberta e ajudará aprendizes de pesquisadores de outras áreas também.

Abordagem Multirreferencial (plural) das situações formativas, Jacques Ardoino, em Multirreferencialidade nas ciências da educação, p. 24-41, org. Joaquim Gonçalves Barbosa
Conheci os fundamentos da Multirreferencialidade por volta de 1999 e ainda hoje sou um aprendiz da ação de leitura plural no ambiente da pesquisa. O texto é um tesouro.

Sobre o artesanato intelectual, p. 21-58, Charles Wright Mills. De forma bem simples, aborda o construto da pesquisa por meio de ilustrações do dia a dia: um bom início de caminhada para quem deseja ser pesquisador.

Conceitos, em Segredos e truques da pesquisa, p. 145-187, Howard Becker
Becker tem um estilo muito leve de discutir coisas complexas, e um dos assuntos mais controvertidos na práxis científica é o da construção de conceitos, e o autor trata do assunto de forma lapidar.

A cultura é algo comum, em Recursos da Esperança, p. 3-28, Raymond Williams
Não imagine o leitor que pesquisadores são essa gente que fica em torres de marfim. Pesquisadores precisam estar no lugar onde os objetos, pessoas, sistemas e ações da pesquisa estão. Então, quando adentrar na Academia, descubra o valor de perceber a cultura como algo comum, como algo que deveria ser de direito de todos.

A ideia de uma cultura comum, em Recursos da Esperança, p. 49-58, Raymond Williams
Este texto complementa o anterior. Não deixe de ler se quiser ampliar os conhecimentos sobre a cultura.

Por que me manifesto?, p. 87-96, em Recursos da Esperança, p. 87-96, Raymond Williams
Aqui Williams discute questões relacionadas ao posicionamento político do intelectual. Serve para nós iniciantes na pesquisa.

O escritor: engajamento e alinhamento, em Recursos da Esperança, p. 115-130, Raymond Williams
Este texto conversa com o anterior: para quem você pesquisa? Com quem você pesquisa? Você é engajado?

A prática da possibilidade, em Recursos da Esperança, p. 463-476, Raymond Williams
Se você decidiu ser pesquisador precisa refletir sobre para que tipo de mundo você imagina o presente e o futuro, e é o que faz Williams neste artigo seminal

Enfrentar a incerteza, em A cabeça bem-feita - repensar a reforma - reformar o pensamento, p. 55-64, Edgar Morin
Ora, ora, somos sempre aprendizes, pois o mundo é incerto, inconcluso e inacabado, e Morin sabe muito sobre isto e pode nos ajudar nesse longo processo de formação.

Inter-poli-transdisciplinaridade, em A cabeça bem-feita - repensar a reforma - reformar o pensamento, p. 105-116, Edgar Morin
Depois de ler o texto de Jacques Ardoino sobre a Multirreferencialidade, leia este ensaio de Morin. Os dois textos, de certa forma, traçam um pequeno diálogo.

Introdução, em A dúvida, p. 21-34, Vilém Flusser
Se você leu o texto de Morin sobre enfrentar as incertezas, algumas coisas ficarão menos complicadas com a leitura de Flusser. A dúvida é um pequeno tratado filosófico.

Sobre a natureza da educação, em Pedagogia Histórico-crítica - primeiras aproximações, p. 15-28, Dermeval Saviani
Como a pesquisa teve como um dos eixos a questão da educação, resolvi trazer esta sugestão de texto de Saviani, um dos mais reconhecidos estudiosos das ciências educacionais no Brasil. Nestes tempos de transversalidades é preciso saber de onde se pesquisa e por qual motivo se pesquisa.
São sugestões, caro leitor. Isto como um estímulo inicial para que os desejantes de atos de pesquisa mergulhem em uma discussão profícua com cada um desses autores e construam a própria formação como pesquisadores.

Boas leituras e até a próxima!

Assim uso cotidianamente um smartphone, para a mobilidade e consultas rápidas, e um tablet para criar rascunhos sobre as coisas que percebo no mundo. Quando desejo criar algo mais elaborado, recorro a um notebook que me ajuda bastante na formalização dos diversos tipos de documentos.


Gil na Academia

Gilberto Gil soube utilizar com maestria a régua e o compasso na construção de uma jornada artística, política e intelectual de tirar o fôlego. Ele produziu célebres canções para o…

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O pensamento faz bem Rafael Sampaio e Outros

Pensar faz bem!
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TVE – o doce lar do futebol baiano

TVE Bahia - doce lar do futebol baiano
TVE Bahia – doce lar do futebol baiano
A TVE Bahia tem mudado a forma de transmissão das partidas de futebol na Bahia, e isto é muito bom para o telespectador baiano.

O futebol baiano há muito foi esquecido pelas emissoras privadas da TV baiana. Presas a contratos de transmissões vinculados a redes de TV localizadas no Sudeste do Brasil, as emissoras de TV baianas amargam uma submissão de décadas e são obrigadas a transmitir somente o que interessa à economia e à comunicação das redes de TV. Isto é um problema que interfere sobremaneira na cultura do futebol da região Nordeste.

Por exemplo, muitos cidadãos do interior do estado da Bahia torcem para times do Sudeste do país, pois, até pouco tempo, o acesso a rádio e TV estava atrelado à hegemonia de grupos de comunicação, com forte poder econômico, que se preocupavam mais em transmitir partidas de futebol de times do Sudeste do país. Resultado: a preferência da população é por times como Vasco da Gama, Flamengo, Botafogo, Corinthians e Palmeiras: uma invasão cultural severa.

Mas a história tem mudado e, aos poucos, a população baiana tem tido acesso a partidas de futebol com times baianos, e a tendência é a formação da torcida baiana ir se modificando, ficando mais plural, com torcidas por times do exterior do estado, como também com torcidas por times nativos.

Um exemplo interessante foi a iniciativa da TVE Bahia de transmitir todos os jogos do campeonato baiano do certame de 2024. O que aconteceu? Houve finais de semana em que a TV pública foi a que teve mais audiência durante a transmissão dos jogos do campeonato local. Isto pode ajudar as emissoras comerciais começarem a refletir sobre o que é importante para o espectador local.

Sou diversa e plural. Sou do esporte e da saúde, da cultura e educação. Eu sou a TV pública da Bahia.

TVE Bahia (Instagram)

E acontecimentos assim têm contribuído para essa transição cultural. No ano de 2024, a TVE transmitiu 51 jogos da competição, com retransmissão das pelejas pela TV Brasil, um feito significativo para uma competição que estava à margem no quadro de transmissão das emissoras comerciais. 

As transmissões também ocorreram pelo Youtube, e na partida final do campeonato, a emissora alcançou 3,186 milhões de visualizações durante as 3 horas e 50 minutos de transmissão da partida, alcançando 61 mil marcações como “gostei”. Ainda no YouTube, ocorreram 26 milhões de visualizações no total e 700 mil visualizações simultâneas por jogo. Que notícia boa!

Quer mais? No mês de abril de 2024 a TVE tem 589 mil seguidores no Youtube, 275 mil no Facebook e 199 mil no Instagram. Nas mídias digitais, a emissora opera com a Hashtag #BaianãoNaTVE, o que gera uma interação bem dinâmica.

Para finalizar com chave de ouro, a TVE transmitiu o evento de premiação para reconhecimento dos profissionais do futebol baiano, no dia 8 de abril de 2024, um momento de celebração da cultura do esporte local.

O slogan da TVE é “A TVE é a casa do futebol baiano!”. E assim a emissora vai cada vez mais se consolidando como o doce lar do futebol dos baianos.

Até a próxima!

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Leia mais sobre futebol em: A simbologia do Esporte Clube Vitória

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Pensar faz bem com Oscar Jara Holliday

Pensar faz bem Oscar Jara Holliday
Pensar faz bem traz quinzenalmente para os leitores pensamentos de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas para o EPraxe. O pensamento da quinzena é de Oscar Jara Holliday
Boas reflexões!
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Cinesom – mistura balanceada de imagens e sons

Imagens e Sons
Imagens e Sons
Já imaginou ter uma experiência balanceada de imagens e sons em um mesmo local e hora? É o que promete o Cinesom do Circuito de Cinema Saladearte em Salvador, Bahia.
O Cinesom é uma iniciativa do Circuito de Cinema Saladearte, que é formado pelas salas de cinema localizadas em Salvador Cine Daten I e II, no Shopping Paseo, no bairro do Itaigara, Cinema da UFBA, ao lado da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, Cinema do Museu, que funciona no Museu Geológico, localizado no bairro da Vitória, e o Cinemam, localizado no ponto histórico Solar do Unhão, composto pela Capela de Nossa Senhora da Conceição, a própria sala de cinema. Lá há um cais privativo, uma fonte, um aqueduto, um chafariz, uma senzala e um alambique com tanques, o local é muito interessante de conhecer.
Às sextas-feiras, há o evento Cinesom, que traz para o público soteropolitano a oportunidade de assistir no mesmo dia a um documentário sobre a vida de um determinado músico, seguido de um espetáculo com músicas do referido cantor, geralmente, interpretadas por um músico local. É uma atividade muito prazerosa.
No evento já foram homenageados cantores/bandas como Cartola, Alcione, Raul Seixas, Pink Floyd, Moraes Moreira, Milton Nascimento e Zé Ramalho.
O local é aconchegante, e o espectador poderá tomar um café de final de tarde antes do início dos eventos.
Quem é de Salvador poderá aproveitar muito bem o final da tarde e o início da noite da sexta-feira, curtinho uma experiência cultural diferenciada. Se você não é de Salvador, quando nos visitar, não deixe de curtir os eventos organizados pelo pessoal do Circuito Saladearte.
Até a próxima!
Dados da obra
O que é? Cinesom: uma experiência de cinema e música
Quem organiza? Circuito de Cinema Saladearte
Onde obtenho mais informações? no site da Saladearte
Quando acontece? todas as sextas-feiras

O pensamento faz bem com Antonio Candido

Pensar faz bem com Antonio Candido
Pensar faz bem com Antonio Candido
Pensar faz bem traz quinzenalmente para os leitores pensamentos de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas para o EPraxe.
Boas reflexões!

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A construção da identidade negra segundo Neusa Santos Souza

Tornar-se-negro
Tornar-se-negro
Em uma foto em preto e branco aparece Neusa Santos Souza, com sorriso largo, sobrancelhas bem delineadas e cabelos no estilo black power estadunidense. Nas orelhas, longas argolas, formando uma comunicação precisa com a capa do livro Tornar-se negro.
A capa reluzente, na cor preta, vem ornamentada com letras brancas, tendo no centro uma imagem de uma mulher negra, em uma tonalidade mais escura da cor preta: um luxo.
Mas Tornar-se negro vai muito além da questão estética da capa do livro e elabora uma análise psíquica e da ideologia contida na realidade das pessoas entrevistadas, demonstrando o quão são próximas as questões sociais de pessoas tão distintas quanto às implicações do racismo na vida de toda a gente brasileira.
Tornar-se negro traz os resultados da pesquisa em nível de dissertação feita por Neusa Santos. Além do texto oriundo da dissertação, a obra ainda traz os textos do acervo pessoal da autora: Loucart: a quem serve a arte, E agora, José?, O que pode um analista aprender com os pacientes psicóticos?, O corpo em psicanálise. Traz também o artigo Contra o racismo: com muito orgulho e amor, publicado em jornal, A casa, que foi utilizado em uma apresentação, e O estrangeiro: nossa condição, originalmente publicado em uma coletânea de livro, com a participação de outros autores.
Neusa foi psiquiatra e psicanalista. Nascida em Cachoeira, Bahia, trabalhou na formação de profissionais de saúde. Na face da escritora, há em Neusa leveza na escrita sem perda do compromisso de luta cotidiana contra o racismo no Brasil.
Disto resulta um livro relevante para entender as questões raciais no Brasil, tanto nos aspectos do psíquico, no que diz respeito à formação dos indivíduos negros, quanto nos aspectos relacionados às relações sociais entre as diversas etnias que compõem a civilização brasileira.
Na tarefa de discutir os mitos que recaem sobre os negros no Brasil, utilizando da dialética e da psicanálise, Neusa Santos argumenta sobre a construção do imaginário sobre o negro no país, ao qual ela denomina de “O ideal do ego”, em que a autora esmiúça muitas das questões que dizem respeito às relações inter-raciais no Brasil.
No livro há dois prefácios, um de Maria Lúcia da Silva e outro de Jurandir Freire Costa, que trazem visões distintas e complementares sobre o pensamento da autora.
O livro Tornar-se negro é de relevância para a discussão da formação da cultura brasileira, por discutir a questão da identidade negra em um país cuja formação étnica é constituída historicamente por diversas matrizes civilizatórias.
Até a próxima!
Dados da obra
O que é? Tornar-se negro {livro}
Quem escreveu? Neusa Santos Souza
Quem editou? Zarah
Quando foi lançado? 2021

Pensar faz bem com Neusa Santos Souza

Pensar faz bem!

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Pensar faz bem traz quinzenalmente para os leitores pensamentos de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas para o EPraxe.
Boas reflexões!

O mito é uma fala, um discurso – verbal ou visual -, uma forma de comunicação sobre qualquer objeto: coisa, comunicação ou pessoa. Mas o mito não é uma fala qualquer. É uma fala que objetiva escamotear o real, produzir o ilusório, negar a história, transformá-la em “natureza”. Instrumento formal da ideologia, o mito é um efeito social que se pode entender como resultante da convergência de determinações econômico-político-ideológicas e psíquicas.

Neusa Santos Souza
Tornar-se negro, p. 54

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Uma transa de 50 anos

Uma transa de 50 anos
Uma transa de 50 anos

Fiz um pacto comigo mesmo desde o final da adolescência: quando o sono vem, desligo a televisão e vou dormir independente do nível de interesse do programa que está passando na TV.

Mas fui desafiado a desistir do pacto, pois Caetano Veloso, em janeiro último, iria fazer um show nos 25 anos do Festival Verão, em Salvador, Bahia, no meio de  uma turma descolada de um público cheio de agitação por novidades.

Chegou o dia do show e lá estou eu em frente à TV, conectado em um serviço de streaming, esperando a apresentação começar. O show demorou tanto que desliguei a TV e fui cumprir meu acordo de décadas. Confesso: tive um sono gostoso e acordei no outro dia com receio de não encontrar gravação daquela live disponível no canal da TV patrocinadora do evento.

Depois de alguns momentos de busca, finalmente achei a apresentação em homenagem ao disco Transa, que completou 50 anos de produzido no ano passado.

Você conhece Caetano? Se não conhece vai se deliciar com You don’t know me, música de abertura do show, que nos conduz ao silêncio, à quietude do que virá depois.

No show, em meio à agitação própria desses festivais midiáticos, as pessoas ao ouvirem Caetano param; param não, elas ficam atentas ao que está sendo cantado, pois as canções silenciosas nos convidam a ouvir e contemplar. As canções, ora as canções, fazem o pensamento dançar, e os ouvidos se educam, enquanto o corpo transmuta Irene, uma homenagem à irmã mais velha do cantor, ou Maria Bethânia, uma ode à irmã mais nova.

Daí em diante Caetano passeia por, Asa Branca, London London e The empty boat, criando uma tensão que leva o espectador a cada vez mais mergulhar nas mensagens que o compositor baiano exala pela voz, pelos gestos e pelo suor que se espalha pelo corpo.

Segue Caetano na jornada transcendental, parecida com a ideia de cinema advinda do imaginário do cantor. O cenário expõe uma mistura de vermelho e preto, adequada à forma sussurrante do filho de dona Canô. No meio da paisagem rubro-negra, Caetano realça a cena por meio de uma indumentária marcada por uma calça escura e uma camisa avermelhada. O visual e o sonoro se encontram para a elaboração de uma espécie de exercício para os ouvidos, em que o santo-amarense conta as vivências no exílio durante o período da ditadura no Brasil.

É daquele sussurrar que surgem Araçá Azul, Triste Bahia, Neolithic Man, It’s long way. Estamos no meio do mar, e as forças da natureza não estão revoltas. Revolta é a forma de cantar do músico santo-amarense.

Aí Caetano revisita You don’t know me, agora acompanhado de Jards Macalé, Tutty Moreno e Áureo de Sousa, os menestréis que estiveram com ele no princípio de tudo. Logo após, Jards Macalé por meio de Mal Secreto assume as rédeas da navegação e provoca Caetano com Sem samba não dá. Caetano retoma os rumos da jornada com Mora na Filosofia e Nostalgia, apontando que já estava na hora de terminar a caminhada musical. Meu coração entristeceu. Eles não tocarão Nine out of ten? Mas não é que Caetano e banda abrem alas para a música que hoje é passado, presente e futuro da cultura brasileira?

Até a próxima!

***
Sobre o evento
Que aconteceu? Show Transa
Onde aconteceu? Festival de Verão, Salvador, Bahia
Quem transmitiu? Globoplay
Quem participou? Caetano Veloso, Lucas Nunes, Alberto Continentino, Rodrigo Tavares, Pretinho da Serrinha, Thiaguinho da Serrinha, Tainã do Gege, Jards Macalé, Tutty Moreno, Áureo de Sousa e Moacir Albuquerque
Quanto tempo? 1:17 min
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