O que torna a cultura universitária tão difícil de ser comunicada às pessoas simples é o fato de que ela, não se nutrindo do concreto, tornou-se pobre e abstrata. A vulgarização a rebaixa ainda mais. Como podem os intelectuais pretender ensinar às camadas subalternas se eles já perderam a sabedoria para lidar com as coisas do mundo? Uma classe poupada desde a infância da fome e da fadiga poderia compreender as grandes perguntas da literatura?
Ecléa Bosi, em Cultura e desenraizamento, em Cultura brasileira – temas e situações, organização de Alfredo Bosi, p. 28
O largo do Campo Grande (também conhecido como praça Dois de Julho), em Salvador, estava lotado de gente esperando para ver os desfiles do Afro Fashion Day Estilistas e Modelos!. O evento completou dez anos de existência e, a cada ano, a audiência só aumenta. Só de ver aquela multidão desejosa de assistir ao Evento já me senti feliz.
Mas eu estava muito dividido porque naquela mesma noite de primeiro de novembro de 2024, a Concha Acústica, espaço de entretenimento em Salvador, também estava lotada de gente para celebrar os 50 anos de existência do Ilê Aiyê, uma instituição multicultural, que trabalha cotidianamente para a inserção dos afrodescendentes na economia, educação, lazer, artes e tudo que possa aproximar os descendentes de africanos da cidadania brasileira. Ao me dirigir do Campo Grande para a Concha Acústica, vi passar um jovem negro, cabelos encaracolados, de óculos, com uma camisa multicolorida. Alguém tocou no braço do rapaz e disse que o pessoal da filmagem já havia chegado, pensando que ele estava ali para trabalhar. O rapaz é jornalista e trabalha em uma emissora de televisão local. No meio da escadaria que leva à Concha, notei que o jornalista se encontrou com umas cinco pessoas e ao olhar com mais cuidado para o grupo, percebi que eram todos jornalistas da emissora. Eles estavam muito radiantes em ir ao show de 50 anos do Ilê e mais radiante estava eu por ver a juventude negra ocupando espaços no jornalismo baiano. O motivo da felicidade não foi à toa, pois há 50 anos quando o Ilê se organizou e foi para as ruas do carnaval da Bahia, a recepção dos meios de comunicação não foi tão afetuosa, pois a instituição recém-criada inaugurava uma forma diferenciada de fazer política no carnaval da Bahia, chamando a atenção para os processos de racismo e discriminação existentes em relação aos negros ou como diriam Caetano Veloso e Gilberto Gil, os quase brancos e os quase pretos. Pois é, só em ver aqueles jovens no momento de folga irem assistir ao show do Ilê demonstra uma significativa mudança nas relações sociais dentro da Bahia, como a de termos afrodescendentes trabalhando na imprensa local e ainda valorizando as produções culturais afrocentradas. O show de 50 anos fez uma retrospectiva musical da história da Instituição e contou com a participação especial de Daniela Mercury, BaianaSystem, Carlinhos Brown, Beto Jamaica, Aloísio Menezes, Orquestra Afrosinfônica, Amanda Maria e Matilde Charles: como é diversa a produção artística deste povo? Cantei, dancei e refleti sobre os últimos 50 anos de minha vida, atravessados pela existência de entidades como o Ilê Aiyê, que por meio da arte, da educação e do trabalho estimulam o desenvolvimento da estima coletiva dos descendentes dos povos africanos. Durante a festa meu corpo virou linguagem e minha alma resplandeceu. “Valeu, Zumbi!” - “Ah, se não fosse o Ilê Aiyê”. Até a próxima!
Gilberto Gil soube utilizar com maestria a régua e o compasso na construção de uma jornada artística, política e intelectual de tirar o fôlego. Ele produziu célebres canções para o…
Foi lançado em janeiro último o podcast Músicas de Gilberto Gil ajudam a abordar a desigualdade social em sala de aula, no canal na plataforma Spotify. O evento discutiu a utilização…
É sublime ver Bela Gil dançando em um dos shows do documentário Viajando com os Gil. É sublime porque é ancestral. É sublime porque são movimentos que até hoje vivem…
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculadas à cultura e ao cotidiano. Os textos Pensar faz bem! são frutos das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de John Thompson. Boas reflexões!
A ideia de que os receptores de mensagens são espectadores passivos, esponjas, inertes que simplesmente absorvem o material jogado sobre eles, é um mito enganador que não condiz com o caráter real da apropriação, como um processo contínuo de interpretação e comparação. O mito do receptor passivo anda junto com a falácia do internalismo, é o equivalente metodológico, do lado da recepção/apropriação, da tentativa falaciosa de inferir as consequências das mensagens apenas da estrutura e conteúdo das mensagens. Se os receptores de mensagens estão envolvidos no processo contínuo de entender, eles estão também envoltos no processo contínuo de entendimento e re-entendimento de si mesmos, através das mensagens que recebem. Este processo de auto-entendimento e auto-reflexão não é um acontecimento repentino, único; é um processo gradual, que acontece lentamente, imperceptivelmente, dia após dia, ano após ano.
John Thompson, em Ideologia e cultura moderna, p. 409
O G20 Brasil foi um evento organizado pelo G20 e teve por finalidade alinhar interesses econômicos, sociais, políticos e culturais das entidades que fazem parte da referida Entidade internacional, que é composta pelas 19 maiores economias do mundo, além de ter a participação da União Africana e União Europeia.
Entre as pautas de discussão para o Encontro, o G20 Brasil criou o Grupo de Trabalho de Cultura: Entrelaçamentos entre Cultura e Mudança do Clima, para discutir questões políticas relacionadas à promoção da estabilidade financeira internacional, tendo em conta as inter-relações entre a cultura e a questão da gestão do clima no mundo. Para isto foi também criado o Seminário Internacional Cultura e Mudança do Clima, que se realizou nos dias 4 e 5 de novembro, o qual convocou a comunidade que pensa e faz cultura entre as entidades-membro visando aprofundar as discussões sobre a gestão da cultura em âmbitos nacionais e transnacionais. Segundos os organizadores, o “Seminário Internacional sobre Cultura e Mudança do Clima” é uma realização do Ministério da Cultura em parceria com a Unesco e a Organização de Estados Ibero- Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura no Brasil (OEI), com apoio do Governo da Bahia, da prefeitura de Salvador, do BYD, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e patrocínio do Youtube. O seminário se pautou nas seguintes questões: Qual o papel das ações culturais na mitigação de consequências da mudança do clima? Como fazer arte alinhada à sustentabilidade? Como pensar economia criativa neste cenário de urgência por soluções a dilemas socioambientais? São questões que suscitam muitos debates sobre nosso futuro como humanidade. No encerramento do Evento houve um concerto musical, que abrangeu as múltiplas faces da cultura artística brasileira. O concerto, liderado pela Orquestra Sinfônica da Bahia, e regido pelo maestro Carlos Prazeres, teve a participação de Daniela Mercury, que fez a abertura do evento, Gaby Amarantos, representando a região Norte do Brasil, Kleiton e Kledir, região Sul, Mart'nália, Sudeste, Ellen Oléria, Centro-Oeste, e Baianasystem como representante do Nordeste. O encerramento do G20 Brasil 2024 na Bahia foi bastante festivo e esperamos que o espírito da alegria daquele momento afete positivamente as proposições construídas durante a realização do Evento em favor de mais paz entre as nações e desenvolvimento econômico, político, educacional, social e cultural de todas as nações que compõem a Terra. Até a próxima!
Gilberto Gil soube utilizar com maestria a régua e o compasso na construção de uma jornada artística, política e intelectual de tirar o fôlego. Ele produziu célebres canções para o…
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A globalização, que, aliás, seria inconcebível sem as novas tecnologias, levou o processo a penetrar todos os espaços do planeta e a interferir ou a poder interferir no modo de vida de todos, inclusive das populações mais isoladas e refratárias, como os povos indígenas. Ninguém fica de fora, nem mesmo quem é excluído do processo por não querer ou não poder participar. E, no entanto, em nossas relações com a tecnologia parece ainda prevalecer uma grande ingenuidade: como se ainda fosse possível considerá-la apenas quando ela nos “serve”!
Laymert Santos, Politizar as novas tecnologias – o impacto sociotécnico da informação digital e genética, p. 10
Dizem que o Brasil está atrasado nos estudos relacionados à inteligência artificial, mas às vezes esquecemos de observar o que está acontecendo nos nossos bastidores de produção científica e de dar o crédito às cidadãs e cidadãos que labutam cotidianamente para o Brasil estar entre os protagonistas da produção de ciência aplicada no cenário global.
Um exemplo de experiência que necessitamos trazer para conhecimento de setores mais amplos da sociedade brasileira é a iniciativa Brasileiras em Processamento de Linguagem Natural, um coletivo formado por mais de 200 cidadãs brasileiras, entre linguistas e cientistas da computação, preocupadas em difundir conhecimentos sobre processamento de linguagem natural (PLN), tendo como centro a língua portuguesa. O coletivo Brasileiras em PLN busca organizar atividades no âmbito científico aplicado e ajudar mulheres em trabalhos que envolvam interações com tecnologias relacionadas ao processamento de linguagem natural, como reconhecimento e síntese de fala, clonagem de voz, detecção de palavras-chave, identificação de falantes, diarização da fala (detecção da alternância de vozes), análise de sentimento, classificação de texto, tradução automática, resumo automático de texto, reconhecimento de entidades nomeadas, ou seja, tudo que se relacione à interação mediada pela linguagem verbal, seja em forma de áudio, impresso, vídeo, imagem etc. A construção de conhecimento sobre PLN no grupo é intensa e dinâmica. No segundo semestre de 2023, foi lançada a primeira edição do e-book Processamento de Linguagem Natural: Conceitos, Técnicas e Aplicações em Português, com organização das professoras Maria das Graças Nunes e Helena Caseli, mas com as novas informações que estão circulando no campo da inteligência artificial, o grupo se mobilizou e lançou a segunda edição da obra, no primeiro semestre de 2024, e já está em fase de lançamento a terceira edição, prevista para a segunda quinzena de novembro de 2024. Haja fôlego e dedicação para a organização da ciência brasileira. Aqui no EPraxe estamos ansiosos para acessar a terceira edição e aprender mais com essas mulheres tão criativas dentro da cultura brasileira. Até a próxima!
A literatura, para mim, sempre foi uma forma de aprendizagem sobre a língua e sobre o mundo, uma forma de prazer, uma possibilidade de viver uma suprarrealidade, de sonhar… A literatura sempre teve para mim o caráter subversivo: ao falar não somente daquilo que existe, mas também daquilo que poderia existir, mostra-me que a realidade em que vivemos não é única, não é destino, mas é uma entre outras. Essa subversão estende-se sobre a linguagem, sobre a textualização. Para mim, a literatura é alguma coisa indispensável. Poderia parafrasear o poeta Emmanuel Marinho, dizendo: Literatura não compra sapatos. Mas como andar sem literatura?
José Luiz Fiorin, em Minha relação com a literatura, em Literatura e outras linguagens, de Beth Brait, p. 160
O texto da semana é um poema bem delirante, para aflorar a sensibilidade…
Ele não tem asas para voos ultrassônicos Muito menos tem olhos biônicos Ele não consegue nadar várias horas sem parar Muito menos tem lança de aço para alguém atacar Ele não tem olhar especial Muito menos conheceu o espaço sideral
Ele está sempre entre os loucos e os desvairados E sabe usar o humor para deixar você desconcertado
Ele tem sonhos dissonantes E te convida para fazer uma egotrip desnorteante
Ele é o pior de seu ego bem-comportado E o melhor de sua sombra aprisionada
Ele te desequilibra quando você busca manter a calma Para deixar sua alma desenganada
Ele é sua sombra desgovernada Que te convida para o coletivo delírio desta vida indeterminada
Ele é o palhaço delirante Com a sanidade aprisionada Em soluços e gargalhadas alucinantes Deixa fluir a loucura libertada
Ao Coringa que nos acompanha cotidianamente
Cleonilton Souza, em delírio solitário Um dia de um outubro qualquer
Gilberto Gil soube utilizar com maestria a régua e o compasso na construção de uma jornada artística, política e intelectual de tirar o fôlego. Ele produziu célebres canções para o…
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Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. Para mim o poeta não é uma espécie saltitante que chamam de Relações Públicas. O poeta é Relações Íntimas. Dele com o leitor. E não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta que descobre o leitor, que o revela a si mesmo.
Não sei se tive infância. Fui um menino doente. Atrás de uma janela.
Só nunca sai de moda quem está nu.
Há uma época de ler e uma época de reler, como diria o Eclesiastes. Agora, para descanso, estou na época de desler. E, como continuo insone (uma vez escrevi que não tenho medo do sono eterno, mas da insônia eterna), agora leio principalmente para adormecer. É uma leitura de fora para dentro, como quem olha distraidamente a televisão. As outras leituras são de dentro para fora, excitam e não são recomendáveis no meu caso.
Quando a gente fala de si é para se gabar ou para se queixar.
Antes ser poeta era um agravante. Depois, passou a ser uma atenuante. Vejo agora que ser poeta é uma credencial.
Um engano em bronze é um engano eterno.
As academias são uma espécie de sociedade recreativa e funerária.
Se eu fosse introvertido, não faria poemas.
Mário Quintana Viver e escrever I, Edla Van Steen, p. 11-24
Toda manhã um pássaro vem me visitar. Para sobre as grades da janela e me observa enquanto estou lendo ou escrevendo na varanda. Depois ele começa a cantar lindamente me deixando tão emotivo com aquele som.
Dias desses gravei o canto do passarinho e pus-me a ouvir de vez em quando aquele som harmonioso. Depois tive a ousadia de reproduzir a gravação quando o passarinho estava na janela me visitando. O bicho se assustou e saiu desesperadamente para outro lugar. Eu pensava que ele iria se encantar em ouvir o próprio som, mas o bichinho estranhou aquele tipo de manifestação. Pois é, a gente está aprendendo sempre! Por falar em pássaros e relação com a natureza, Dira Paes estreou como diretora no filme Pasárgada, uma narrativa muito bela e triste ao mesmo tempo. Assisti ao filme pela manhã e fui muito influenciado pela trilha sonora da narrativa cinematográfica. Engraçado, eu tive um sentimento parecido com o do passarinho nos momentos do filme em que havia sons dos pássaros. De repente apareceu um mal-estar, uma vontade de não ouvir mais nada. Acho que estou ficando tão acostumado com os sons dos carros, da geladeira e da retroescavadeira com esses ruídos estridentes, invadindo minha cabeça, que os sons da natureza estão interferindo na forma de eu existir no mundo, como se eu estivesse em reflexão profunda sobre o destino de nós humanos em meio a essa face de destruição da natureza a que estamos expostos. Ao sair do cinema percebi o quanto nos acostumamos tanto com os sons artificiais e o quanto precisamos nos reeducar para compreender os sons da natureza. Pasárgada conta a história de uma pesquisadora da área biológica que vive dividida entre contemplar a natureza e servir ao Capital, e o leitor bem sabe que evito falar do conteúdo do que assisto, pois o que interessa aqui são as formas como a história me tocou. Os sons que me incomodaram no filme vinham de todos os lados: desde a labareda formada na fogueira, passando pelos cantos dos pássaros, indo até os movimentos dos rios e dos sons que atravessavam o ar e rasgavam em golpes certeiros as barreiras das águas, uma verdadeira sinfonia, formada por sons que não nos acostumamos mais a ouvir. Pasárgada foi uma viagem especial e me fez olhar novamente para as formas como hoje me relaciono com as coisas do mundo natural e do mundo artificial. Será que ainda há mundo natural? Até a próxima!
O que é? Pasárgada (filme)
Quem dirigiu? Dira Paes
Quem atuou? Entre outros, Dira Paes e Humberto Carrão
Gilberto Gil soube utilizar com maestria a régua e o compasso na construção de uma jornada artística, política e intelectual de tirar o fôlego. Ele produziu célebres canções para o…
Foi lançado em janeiro último o podcast Músicas de Gilberto Gil ajudam a abordar a desigualdade social em sala de aula, no canal na plataforma Spotify. O evento discutiu a utilização…
É sublime ver Bela Gil dançando em um dos shows do documentário Viajando com os Gil. É sublime porque é ancestral. É sublime porque são movimentos que até hoje vivem…
A história é comandada pelos grandes atores desse tempo real, que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. Os homens não são igualmente atores desse tempo real. Fisicamente, isto é, potencialmente, ele existe para todos. Mas efetivamente, isto é, socialmente, ele é excludente e assegura exclusividades, ou, pelo menos, privilégios de uso.
Milton Santos Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal, p. 28
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de Milton Santos Boas reflexões!
Depois de mais de 45 anos, voltei à Escola Reitor Miguel Calmon, do Sesi Retiro, Salvador, Bahia.
Até a próxima!
Os sentimentos afloraram quando entrei no prédio, todo transformado, a cada passo tentava identificar onde era a biblioteca, como era o salão do recreio, o tamanho do auditório e o formato das salas de aula. Eu era um todo de nostalgia, pois estudar na Reitor Miguel Calmon mudou a minha vida, a forma de eu pensar o presente na época e os rumos que eu planejei para o futuro.
O Sesi Retiro era um tipo de complexo socioeducacional onde era possível as crianças estudarem e ainda cuidarem da saúde e do lazer. Imaginem os leitores que em pleno 1970, havia uma escola na periferia de Salvador onde os filhos dos trabalhadores da indústria e uns poucos pequenos cidadãos da periferia podiam se educar sob uma proteção social pungente?
Pois é, o Sesi Retiro era assim. Além das tradicionais aulas de Língua Portuguesa, Matemática, Estudos Sociais (História e Geografia), Educação Moral e Cívica, nós tínhamos contato com áreas do saber como Educação Física, com prática cotidiana de esportes como futebol, volibol, handbol e basquetebol. Era tudo muito intenso. Em Artes, nós tíanhamos acesso a um laboratório de artes plásticas, onde podíamos experimentar a transformação de diversos objetos, dando-lhes formas estéticas variadas. Tínhamos também aulas de teatro, com vivências significativas, como a construção da peça Os Saltimbancos, de Chico Buarque, e uma peça criada a partir do zero sobre a Guerra de Secessão, ocorrida nos Estados Unidos. No Sesi Retiro, os professores sabiam transitar entre uma área do saber e outra e estavam sempre trocando experiências uns com os outros, contribuindo assim para a nossa formação.
Havia no Sesi um laboratório para uma disciplina chamada Educação para o lar, onde aprendíamos a decifrar a complexidade do trabalho doméstico. Com aquelas experimentações domésticas fui diminuindo minhas atitudes machistas e compreendo o quanto era necessário aprender e ajudar nas tarefas de casa. Foi em Educação para o lar que aprendi a cozinhar um pouco, o que era reforçado em casa com as interações com a minha mãe, que sempre defendeu que homem tem de ir para a cozinha e banheiro: homem tem de estar em casa ajudando na construção da família. Realizei atividades estéticas de cuidar do cabelo das pessoas e higienizar e ornamentar unhas, uma verdadeira revolução de meus valores como pessoa.
Outra experiência significativa foi com Técnicas Industriais, uma disciplina em que os estudantes aprendiam noções sobre atividades relacionadas ao setor industrial. Em Técnicas Industriais fomos desafiados a encadernar várias revistas que estavam na biblioteca. Passamos uns seis meses trabalhando e depois que a atividade foi concluída, passei a visitar mais a biblioteca para me deliciar com aqueles livros construídos a partir de revistas. Nas visitas à biblioteca me sentia um artesão, um criador daqueles livros: eita tempo bom!
Além de Educação para o lar e Técnicas Industriais, tive aulas de Técnicas Comerciais, onde aprendíamos os fundamentos da administração, da contabilidade e das técnicas de comércio. A vivência em Técnicas Comerciais me levou a fazer o curso, em nível do ensino médio, de Técnico em Contabilidade, que me levou a trabalhar na área por um ano, passar em concurso público em uma empresa estatal federal da área financeira e ainda aprender a cuidar das minhas finanças: uma aprendizagem para a vida toda.
A Reitor Calmon realizou festivais de músicas com a presença da comunidade e concursos literários, que revelaram muitas pessoas com veias artísticas dentro da escola.
Pensa que terminou? No Sesi fiz tratamento dentário, tomei vacinas e tive atendimento médico básico de saúde, fui conhecer o ambiente de empresas e participei de simpósios e seminário sobre profissões.
Havia no Sesi um sistema de alimentação robusto, que as crianças adoravam e era muito gostoso provar dos quitutes feitos pelas cozinheiras daquele lugar.
Por fim, havia um sistema de auxílio socioemocional ao estudante, com participação de pedagogos e psicólogos, que acompanhava a criançada, tanto com reflexões sobre o nosso processo de existir, quanto com atividades para que pudéssemos planejar os rumos que iríamos tomar em relação ao nosso futuro.
Entrei na Escola Reitor Miguel Calmon em 1971 e saí em 1978: oito anos de vivências significativas, com os colegas, com os professores e com todos os entes (cozinheiros, vigilantes, pessoal de limpeza, pessoal da administração, profissionais de saúde) que compunham aquele sistema com S maiúsculo.
Nas quatro horas que ali fiquei no último dia 23 de agosto de 2023, todas essas memórias vieram ao meu encontro, todas elas em forma de afetos, afetos de alegrias, afetos de agradecimentos.
De volta para o futuro, ao olhar para aquele menino pobre, preto e periférico de 1971, e para o que me tornei hoje, 2024, percebo o quanto a educação no Sesi Retiro transformou a minha vida.