De 7 a 18 de Outubro de 2024, acontecerá o III Seminário Internacional Conexão Escola-Mundo, organizado pelo Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC), da Faculdade de Educação, da Universidade Federal da Bahia, com o objetivo de discutir Educação e tecnologias digitais e ativismo digital. O evento será uma forma de comemoração dos 30 anos de existência do GEC.
O evento abrangerá os municípios de Salvador, Teixeira de Freitas, Ilhéus e Itabuna, Itapetinga, Camaçari, localizados na Bahia, e a UFBA terá como parceiras a Universidade do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), o Instituto Federal Baiano (IF Baiano), o Instituto Federal da Bahia (IFBA), o colégio Isaías Alves (Iceia) e o Instituto Oyá.
O Evento foi organizado para ter a participação de professores da Educação Básica e do Ensino Superior, estudantes da Educação Básica, estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, membros de coletivos sociais e representantes de entidades governamentais.
A expectativa dos organizadores do Evento é “consolidar e ampliar tanto a rede nacional como a rede internacional de investigadores, com destaque para o fortalecimento de uma rede latino-americana, criando um momento de interlocução entre academia, escola e movimentos sociais reunidos em torno da temática do commons, ciência e educação livres, abertas e cidadãs, em práticas de investigação e ação que articulem ciência-cultura-educação-criação.”
O III Seminário Internacional Conexão Escola-Mundo dá continuidade ao projeto interinstitucional e internacional de pesquisa e de comunicação científica, Conexão Escola-Mundo: criação de espaços inovadores para a formação cidadã, que teve apoio do CNPq e foi desenvolvido entre 2018 e 2022, mediante as parcerias das UFBA e de Santa Catarina UFSC, em conjunto com a Universidade de Barcelona, Espanha.
Para mais informações sobre o III Seminário, visite o site do Evento ou entre em contato com os organizadores por meio do e-mail do Projeto Escola-mundo.
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de Airton Krenak Boas reflexões!
A questão é estender o debate para além da ideia de direitos humanos: os direitos da natureza. O que está se discutindo agora é o direito da natureza, não porque já se conseguiu atender toda a lista de demandas dos direitos humanos, mas porque é impossível atender aos direitos humanos sem atender ao direito da natureza, da Terra. Não é em outro lugar que vamos tirar esses recursos para a gente continuar vivendo. Airton Krenak, em entrevista a Tainá Aragão, do Instituto Socioambiental (ISA)
Hoje faremos uma breve leitura de Vidas secas, romance de Graciliano Ramos, escritor brasileiro, que viveu no século XX. O livro que tenho em mãos foi lançado pela editora Principis (São Paulo) em 2024.
Vidas secas trata da vida de uma família de camponeses, sem terra, que migra pelas regiões secas nordestinas atrás de comida, moradia, trabalho, dinheiro, lazer, espiritualidade; enfim, todas essas coisas que um grupo familiar deseja.
A história se desenrola por meio da jornada feita pela família de camponeses na tentativa de sobreviver frente às adversidades climáticas e sociais próprias das comunidades nordestinas brasileiras que vivem no campo.
Os capítulos que narram a referida jornada da família de camponeses são intercalados por lapidares momentos que tratam de descrever os personagens que compõem a história, uma feliz opção de organização narrativa feita pelo autor. Não vamos aqui detalhar cada modo de ser dos personagens, para que o leitor não perca o prazer de ler a obra, mas é possível trazer alguns trechos do livro, como estímulo ao acesso direto ao texto original. Vamos aos trechos?
Personagens de Vidas secas por Graciliano Ramos
Fabiano
Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
– Um homem, Fabiano
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente, não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
Vidas secas secas, p. 18-19
Sinha Vitória
Sentou-se na janela baixa da cozinha, desgostosa. Venderia as galinhas e a marrã, deixaria de comprar querosene. Inútil consultar Fabiano, que sempre se entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava logo – e ela franzia a testa, espantada; certa de que o marido se satisfazia com a ideia de possuir uma cama. Sinha Vitória desejava uma cama real, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás Bolandeira.
Vidas Secas, p. 35
O menino mais novo
Retirou-se. A humilhação atenuou-se pouco a pouco e morreu. Precisava entrar em casa, jantar, dormir. E precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cabras a mão de pilão, trazer uma faca de ponta à cintura. Ia crescer, espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar sapatos de couro cru.
Vidas Secas, p. 40-41
O menino mais velho
Ele, o menino mais velho, caíra no chão que lhe torrava os pés. Escurecera de repente, os xiquexiques e os mandacarus haviam desaparecido. Mal sentia as pancadas que Fabiano lhe dava com a bainha da faca de ponta.
Vidas Secas, p. 40-41
Baleia
Baleia queria dormir. Acordaria feliz num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se esponjariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás gordos, enormes.
Vidas Secas, p. 69
O soldado amarelo
De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade.
(…)
O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia.
(…)
O soldado encolhia-se, escondia-se por trás da árvore.
(…)
Por que motivo o governo aproveita gente assim? Só se ele tinha receio de empregar tipos direitos. Aquela cambada só servia para morder as pessoas inofensivas. Ele, Fabiano , seria tão ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dá pancada neles?
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de Karl Marx Boas reflexões!
Os filósofos apenas interpretaram o mundo de maneiras diferentes; o que importa, contudo, é transformá-lo.
Karl Marx e Friedrich Engels, em A ideologia alemã, p. 91
Uma das coisas que mais fazemos na vida é a atividade de leitura. Desde a nossa vivência útero até a velhice estaremos descobrindo alguma coisa do mundo por meio da leitura.
Mas a leitura não se resume apenas à leitura do mundo e à leitura de textos, mas se expande como prática social, alcançando múltiplas formas, como a leitura de imagens, de vídeos e, hoje, a leitura de códigos digitais.
Fui descobrindo a leitura de textos bisbilhotando a pequena biblioteca do meu pai. Ele tinha uns 20 livros de capa dura, a maioria sobre assuntos da área de saúde, que ficavam em uma pequena mesa no canto da sala. Eu ainda não sabia ler, mas fiquei fascinado com aqueles pequenos registros que ocupavam a página e, para mim, ampliavam o mundo, trazendo coisas que eu desconhecia.
Aqueles livros criaram em mim uma vontade de ir para a escola para aprender a ler e escrever. Foi na escola que encontrei dois colegas que me fascinaram pelos hábitos que eles tinham de ler. Um deles vivia durante o intervalo na biblioteca, procurando coisas para ler, enquanto a outra colega ficava lendo a cada semana um novo livro, no intervalo, muitas vezes na sala de aula durante o intervalo.
Se todos iam brincar no intervalo, por que eles tinham aqueles hábitos tão peculiares? Não sabia eu que a leitura também é uma forma de brincadeira.
Lembro que a maioria dos estudantes lia com interesse em obter boas notas, mas só isto, mas os dois colegas tinham prazer em ler tudo o que aparecesse.
Em casa, meu pai e meu tio, sempre que era possível, traziam revistas usadas do trabalho. Meu tio trabalhava em uma empresa de transporte intermunicipal. Lá os passageiros esqueciam várias revistas que depois eram descartadas no lixo. Meu tio, sabendo do meu interesse por leitura, catava a maioria e trazia para mim. Já meu pai era zelador de um prédio em área nobre de Salvador e recebia dos patrões diversas revistas usadas, que as crianças do prédio haviam lido e não se interessavam mais.
No meu primeiro emprego comprei o primeiro número da coleção Literatura Comentada, da editora Abril, e tive oportunidade de ler textos sobre Gilberto Gil e Álvares de Azevedo. A partir daquele primeiro número, busquei novos livros da coleção, o que me ajudou bastante a conhecer um pouco da cultura brasileira letrada. Daí em diante, passei a comprar livros para leitura e consulta até chegar ao acervo que tenho hoje.
Junto com a leitura de textos, fui aprendendo a ouvir músicas nas primeiras rádios FM dos anos 1970, ir ao cinema e teatro, o que ampliou mais minha vontade de ler. A leitura é um processo que leva a vida toda!
Passei por algumas situações bem interessantes sobre o processo de leitura. Certa vez recebi um amigo em casa, e ele pasmado com a quantidade de livros nas estantes, perguntou se eu já havia lido todos aqueles livros. Tive de explicar a ele que alguns livros servem para consulta, mesmo não sendo dicionários, mas que aquilo não tirava a importância de tê-los em casa. Em outro momento, uma colega de trabalho me confidenciou que havia tanta coisa para ler que não haveria tempo suficiente para a leitura durante a vida. Fiquei comovido com aquilo, uma vez que é um tipo de sentimento que também compartilho. Por último encontrei uma colega do tempo da escola no ensino fundamental que me confidenciou que acorda cedo para fazer a leitura diária e que tem o hábito de ler mais de um livro ao mesmo tempo sobre assuntos diferentes. Enquanto ela falava, meus olhos brilharam, pois tenho um hábito bem parecido há anos e como foi bom reconhecer alguém que comunga do mesmo hábito.
Procuro ler por meio dos mais diversos formatos, sejam eles papel, telas eletrônicas de computadores, aparelhos de livros eletrônicos, tablets, smartphones ou TV. Tudo é motivo para a prática da leitura.
Falta tratar de um último tipo de leitura que venho me dedicando nos últimos anos que é o de ler códigos computacionais. fico fascinado como o humano criou linguagens para que nós humanos nos comuniquemos com as máquinas. Pois é, não sei programar como fazem os cientistas da computação, mas busco entender como os algoritmos funcionam e como eles influenciam a vida cotidiana. Este é o meu atual desafio de leitura.
Estas são algumas das vivências que tive e tenho com as leituras que atravessam a vida cotidiana. É assim que vou descobrindo mais e mais coisas sobre o mundo em que vivemos por meio dessa prática tão deliciosa chamada leitura.
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de John Thompson. Boas reflexões!
Nós pressupomos, com outras palavras, que existe uma distinção entre provar uma interpretação e impô-la a outros, ou ser imposta sobre nós. Provar é apresentar razões, fundamentações, evidências, elucidação; impor é afirmar ou reafirmar, forçar outros a aceitar, silenciar os questionamentos ou as discordâncias. Provar é tratar o outro como uma pessoa capaz de ser convencido; impor é tratar o outro como uma pessoa que deve ser submetida. Esta distinção sugere que uma interpretação seria justificada somente se ela pudesse ser provada sem ser imposta.
John Thompson, em Ideologia e cultura moderna, p. 411.
Algumas vezes o capitalismo parece algo distante, difícil de ser compreendido, um tema circunscrito aos círculos de discussões dos sociólogos e economistas, bem distante da vida cotidiana, mas essa forma de relação sociocultural atravessa nosso dia a dia e, de tanto acostumados com a situação, esquecemos de denominar determinados episódios de situações capitalistas e de conhecer melhor essa forma de produzir cultura que tanto afeta nossas vidas.
Vamos acompanhar algumas histórias, com nomes fictícios para os envolvidos, que revelam formas de ordenamento da sociedade, que muitas vezes a gente nem sempre reconhece como de cunho capitalista? *** Primeiro Ato Conheci Alcebíades, um funcionário público que tinha cargo de gerência em uma grande empresa e trocava de carro todo ano. A vaidade do rapaz era tão grande que ele conseguia que a placa do carro fosse sempre a número um da cidade. *** Segundo Ato Dona Adélia era comerciante reconhecida na comunidade. Com o negócio, ela conseguiu formar um dos grandes patrimônios da região. Ela se esforçava muito para manter o patrimônio construído, o que, vez por outra, a deixava distante da realidade pobre do lugar. No final do dia, quando ia fechar o estabelecimento comercial, muita gente pobre da cidade costumava mexer no lixo do mercado para apanhar resto de comida. Irritada com aquilo, a comerciante passou a perseguir os próprios funcionários, para que eles impedissem que os necessitados colhessem o que sobrara e naquele momento era descartado. Como iria aumentar as vendas com aquela situação? Pensava ela. Foi então que a comerciante teve a ideia de pôr água misturada com querosene, detergente e vinagre sobre o que sobrava. A comida ficou sem condições de consumo, e toda aquela gente, no final da tarde, saiu em procissão atrás de um outro lugar à procura de comida que pudesse ser consumida. *** Terceiro Ato Estávamos no mês de janeiro, e o sol nos convidava para ir à praia passar o dia inteiro na beira-mar. Em meio àquele clima gostoso, fomos até uma barraca comprar coco verde. Quando o dono do negócio nos passava o troco, aparecerem cinco homens sem camisa na barraca e deram um ultimato ao vendedor: daquele momento em diante o coco não poderia ser vendido pelo preço estipulado pelo barraqueiro. Havia necessidade de aumento de preço do produto, e se o barraqueiro não se alinhasse aos novos valores, seria expulso do lugar. Olhei para aqueles homens. Na face, havia muita raiva e rancor em relação ao barraqueiro. Interessante era que eles não olhavam para os clientes em momento algum. Os olhos daqueles homens estavam fixados para o novo concorrente que ali instalara. *** Quarto Ato Já era carnaval tarde da noite, cansado de pular igual a pipoca nas ruas de Salvador, procurei um lugar aconchegante para ficar. Percebi que havia um rapaz baixinho do meu lado com um carro de mão cheio de latas de cerveja, água e refrigerante. Ele estava muito animado e começou a falar sobre coisas da vida que ele levava em Salvador. Sensível à situação do vendedor ambulante, resolvi pedir um refrigerante e depois de alguns minutos, devido ao calor excessivo provocado por aquela multidão, comprei também água mineral. Após alguns minutos mais de conversa, ele confessou para mim que na verdade comandava cinco vendedores que circulavam na avenida com uma caixa na cabeça cada um deles, vendendo bebidas diversas para os foliões e que ele exercia um controle para que eles produzissem o máximo que pudessem durante os dias de momo. Depois do carnaval? Ora, eles iriam trabalhar em tudo que fosse festa. Fui para casa pensativo naquele dia, pasmado pelo que tinha experienciado a respeito das relações capitais, que invadem quase tudo que realizamos na vida cotidiana. *** Note o leitor que as histórias trazem alguns hábitos que formam a cultura do capitalismo, como cultivo ao consumo, valorização excessiva dos atos de concorrência, práticas de exploração destrutiva da natureza e descentralizada do humano no processo de convivência aqui na Terra, ou seja, a ordem do capital prima por valorizar a primazia de alguns cidadãos e marginalização do restante da humanidade e é preciso refletir sobre isto. O interessante é que o capitalismo se sustenta por um processo de comunicação via criação do pensamento único, de que só existe uma saída de relacionamento cultural para construção da sociedade, que é o próprio capitalismo. Outro ponto interessante é o que se refere ao destino dos seres que povoam o planeta, com a ideia de que as coisas são assim e que precisam continuar assim: a ideia do “inevitabilismo”. As pessoas estão comendo frutas sem sementes, pois agora o cidadão comum não pode mais plantar. Quer mais? A destruição desenfreada da natureza virou fato comum, e a gente nem reclama mais; todo dia mudam os pesos dos produtos, em embalagens cada vez menores, enquanto os preços das mercadorias só aumentam; não há lugar mais para estacionar carros nos centros das cidades, pois os espaços públicos agora são alugados. Quando criança costumava enganar outras crianças, dizendo a elas que havia uma catraca nas entradas das praias, cobrando das pessoas pela utilização do lugar. Incrível como aquela brincadeira está se tornando realidade! Que podemos fazer diante de tudo isto? Até a próxima!
É sublime ver Bela Gil dançando em um dos shows do documentário Viajando com os Gil. É sublime porque é ancestral. É sublime porque são movimentos que até hoje vivem…
Já imaginou ter uma experiência balanceada de imagens e sons em um mesmo local e hora? É o que promete o Cinesom do Circuito de Cinema Saladearte em Salvador, Bahia.…
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Pier Paolo Pasolini, em uma entrevista a João Lins de Albuquerque, respondeu:
E qual o maior desafio que tem diante de si? O desafio que eu quero realizar ou o desafio que vem ao meu encontro?
O desafio de um cineasta e de um escritor de seu calibre. O desafio maior, como sempre, é o código. O desafio do código é igual, tanto para o cineasta como para o escritor. A coisa mais difícil deste mundo é a luta contra o código, contra os hábitos, contra as convenções – linguísticas, estilísticas… Penso que tanto a vida quanto a obra de arte devem ser orientadas pela infração ao código. De certa forma, esse é o problema básico que tenho enfrentado nos meus filmes com a representação sexual. O desafio foi, portanto, tentar romper todos os códigos que regulavam essa representação.
A rigor, a arte deve ser completamente livre? Sim. Mas não existe um mundo onde tudo é livre. O mundo está fundado sobre o código.
Em Conversações – entrevistas essenciais para entender o mundo, de João Lins Albuquerque, p. 44-45.
Para as pessoas que adoram documentários, estão disponíveis, para assinantes da Netflix Últimas conversas (2015, Jogo de cena (2007), Santo forte (1999) e As canções (2011), de Eduardo Coutinho: que notícia boa, pois um grupo maior de pessoas poderá conhecer um pouco mais da obra de um dos mais representativos documentaristas brasileiros.
Lembrando ao leitor que ainda estão disponíveis na plataforma do Itaú Play os documentários Cabra marcado para morrer (1984), O fio da memória (1991), Santo forte (1999), Edifício Master (2002), Peões (2004), Jogo de cena (2007), também de Eduardo Coutinho. A diferença é que no Itaú Play o acesso é livre de pagamentos de alguma taxa, o que torna possível uma gama bem maior de pessoas acessar a obra desse cineasta singular de nossa cultura. Aproveitei para assistir a As canções e Últimas conversas e ressignificar as impressões dessas obras sobre mim. As canções trazem à minha memória uma diversidade de canções, a maioria de origem brasileira, que estiveram comigo em momentos significativos da vida. Já Últimas conversas consegue fazer eu reviver os momentos da juventude em que eu queria desbravar o mundo e mudar os rumos da vida. O que me impressiona em Coutinho é a maneira como ele consegue se aproximar das pessoas e interagir de tal forma que, em pouco tempo, elas estão se libertando do estranhamento e se abrindo para si e para o mundo. Só o leitor conhecendo a obra de Eduardo Coutinho para compreender melhor o que estou tentando expressar aqui. Últimas canções foi lançado após a morte de Coutinho e teve montagem de Jordana Berg, com organização geral de João Moreira Salles, dois profissionais que conviveram bastante com Eduardo Coutinho. Se você gosta de assistir a uma boa conversa, não deixe de ver os documentários de Eduardo Coutinho, um mestre na arte do diálogo.
Foi lançado em janeiro último o podcast Músicas de Gilberto Gil ajudam a abordar a desigualdade social em sala de aula, no canal na plataforma Spotify. O evento discutiu a utilização…
Para quem se interessa por documentários, a plataforma Itaú Cultural (IOS ou Android) fez uma homenagem aos 90 anos de Eduardo Coutinho, caso ele estivesse vivo. O cineasta nasceu em…
Ir ao cinema mais de uma vez para assistir ao mesmo filme, ficar horas na fila para não perder o filme preferido, envolver-se com a narrativa e deixar os humores…
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O favor, ponto a ponto, pratica a dependência da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração e serviços pessoais.
Por volta dos nove anos de idade, passei por momentos difíceis que afetaram toda a minha vida futura. Ainda na segunda unidade do chamado terceiro ano do antigo primário, recebi o boletim de avaliação e verifiquei que não tinha alcançado as notas mínimas para passar nas duas primeiras unidades e que corria o risco de não ser aprovado no ano letivo.
Duas questões eram impeditivas para eu estudar adequadamente: primeiro, eu adorava jogar figurinhas, e aquele vício me envolvia de tal modo, que não conseguia olhar de forma adequada para os estudos. A rotina era jogar, jogar, jogar… A segunda questão se referia à forma como eu escrevia: as letras eram incompreensíveis e isto impedia que a professora pudesse ler as atividades escolares feitas por mim e fazer de forma efetiva a avaliação. Levei o boletim para casa, e minha mãe ficou alvoroçada. Só falava no assunto. Dias depois ela foi à escola para conversar com a professora e ficou mais preocupada ainda com os comentários da professora, como falta de atenção, atrasos, não cumprimento do horário do intervalo, além da escrita que era incompreensível. Naquele tempo as pessoas achavam que quem tinha letra incompreensível tinha problemas de desenvolvimento cognitivo e, em consequência , dificuldades para estudar. Até hoje a gente ainda encontra pessoas que fazem esse tipo de comentário, considerando as pessoas de letras incompreensíveis como pessoas menos inteligentes. Após a conversa com a professora, minha mãe me matriculou em uma turma de alfabetização de crianças, que estavam atrasadas no desenvolvimento educacional. Fiquei muito chateado com a situação e questionei muito aquela decisão. Eu sabia ler e escrever com fluência, pois ajudava meus pais nos estudos a distância que eles faziam, tinha um desempenho razoável em Matemática e facilidade em estudar assuntos ligados à Geografia e à História. Minha mãe não quis saber: em poucos dias estava eu na escola no meio das crianças e adolescentes que ainda não haviam conseguido se alfabetizar. Como lidar com aquela situação? Após alguns dias nas aulas de reforço, os meninos da turma descobriram que eu já frequentava a terceira séria e começaram a brincar rotineiramente com aquilo me chamando de “burro”. Foram dias de humilhação. Consegui passar de ano, mas tive de estudar com a turma de quarta série considerada a mais fraca em termos de desempenho escolar. Naquele tempo a escola fazia separação entre os estudantes que tinham boas notas dos que tinham notas ruins. Os colegas da quarta série tinham em média 14 anos, e eu acabara de fazer dez. Eles eram muito danados, eram fortes e gostavam de brincar de briga: tempos difíceis aqueles; vivia fugindo de um e de outro o tempo todo. Com o passar das aulas, os colegas perceberam que eu tinha um bom desempenho escolar e diminuíram as ações violentas contra mim. Mas foi um ano muito difícil aquele. No ginásio, voltei para as turmas dos meninos que tinham boas notas e fiquei menos exposto à violência comum que acontecem quando crianças menores ficam com adolescentes que gostam de brincar com coisas violentas, mas desde aquela época já achava que a classificação de estudantes por nível de conhecimento não fosse a saída adequada para a educação de crianças e adolescentes. Os meninos e meninas precisam ficar juntos e misturados, eles precisam ser incentivados a realizarem atividades cooperativas entre si, para que todos possam aprender juntos. Só tive a consciência disto depois que passei um ano longe dos meus colegas porque tinha obtido notas menores. Fui para o segundo grau (ensino médio) e lá passei a escrever em letra de forma, para que a escrita fosse legível e eu não ficasse prejudicado nas notas durante as avaliações. Ao entrar no mundo do trabalho, trabalhei com Contabilidade. Lá fui surpreendido de novo com a questão das letras incompreensíveis (os garranchos). Os colegas de trabalho tinham belas letras cursivas e preenchiam de forma ornamental as fichas de registros contábeis. Quando eu errava um registro, a forma como eu escrevia era muito evidenciada, e eu morria de medo quando chegavam os relatórios contábeis, pois, caso houvesse erro em algum registro, eu ficaria exposto diante de todos. Um dia houve um número expressivo de erros meus por causa da letra incompreensível. O chefe do setor me chamou e conversamos sobre o assunto. Lembro que entre um papo e outro ele disse mais ou menos assim: “você não precisa ter uma letra bonita, basta que ela seja legível”. Aquela sinalização ajudou muito, pois ainda tenho a letra feia, chamada de garrancho, mas procuro escrever de forma legível. Também me ajudou na estima, pois eu me nivelava por baixo diante de outros profissionais por achar as minhas letras fora do padrão. O que aprendi com tudo isto? Quanto aos jogos, aprendi a não me deixar envolver em coisas que me deixam submetido ou dependente em demasia. Ainda jogo, mas só quando é para produzir prazer; quanto às letras, elas continuam as mesmas, rs, com algumas melhorias, é claro. As letras que produzimos expressam um pouco do que somos, e a gente precisa cuidar para pensar em mudar sempre, mas com cuidado para que as referidas mudanças não diminuam a nossa estima. Foi preciso passar por tudo o que aqui foi descrito para me entender melhor, sabendo das minhas fraquezas e reconhecendo as minhas potencialidades. Até a próxima!
Portanto, rejeitamos a hipótese de que IAs são simplesmente ferramentas, a exemplo de calculadoras ou softwares de pesquisa. Vieses dos desenvolvedores e das bases de treinamentos, possibilidades de alucinação, falta de transparência de algoritmos, impossibilidade de replicação de certas respostas e outros critérios envolvidos em tais tecnologias as afastam da possibilidade de serem consideradas apenas instrumentos de pouco impacto sobre as pesquisas.