Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. Para mim o poeta não é uma espécie saltitante que chamam de Relações Públicas. O poeta é Relações Íntimas. Dele com o leitor. E não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta que descobre o leitor, que o revela a si mesmo.
Não sei se tive infância. Fui um menino doente. Atrás de uma janela.
Só nunca sai de moda quem está nu.
Há uma época de ler e uma época de reler, como diria o Eclesiastes. Agora, para descanso, estou na época de desler. E, como continuo insone (uma vez escrevi que não tenho medo do sono eterno, mas da insônia eterna), agora leio principalmente para adormecer. É uma leitura de fora para dentro, como quem olha distraidamente a televisão. As outras leituras são de dentro para fora, excitam e não são recomendáveis no meu caso.
Quando a gente fala de si é para se gabar ou para se queixar.
Antes ser poeta era um agravante. Depois, passou a ser uma atenuante. Vejo agora que ser poeta é uma credencial.
Um engano em bronze é um engano eterno.
As academias são uma espécie de sociedade recreativa e funerária.
Se eu fosse introvertido, não faria poemas.
Mário Quintana Viver e escrever I, Edla Van Steen, p. 11-24
Toda manhã um pássaro vem me visitar. Para sobre as grades da janela e me observa enquanto estou lendo ou escrevendo na varanda. Depois ele começa a cantar lindamente me deixando tão emotivo com aquele som.
Dias desses gravei o canto do passarinho e pus-me a ouvir de vez em quando aquele som harmonioso. Depois tive a ousadia de reproduzir a gravação quando o passarinho estava na janela me visitando. O bicho se assustou e saiu desesperadamente para outro lugar. Eu pensava que ele iria se encantar em ouvir o próprio som, mas o bichinho estranhou aquele tipo de manifestação. Pois é, a gente está aprendendo sempre! Por falar em pássaros e relação com a natureza, Dira Paes estreou como diretora no filme Pasárgada, uma narrativa muito bela e triste ao mesmo tempo. Assisti ao filme pela manhã e fui muito influenciado pela trilha sonora da narrativa cinematográfica. Engraçado, eu tive um sentimento parecido com o do passarinho nos momentos do filme em que havia sons dos pássaros. De repente apareceu um mal-estar, uma vontade de não ouvir mais nada. Acho que estou ficando tão acostumado com os sons dos carros, da geladeira e da retroescavadeira com esses ruídos estridentes, invadindo minha cabeça, que os sons da natureza estão interferindo na forma de eu existir no mundo, como se eu estivesse em reflexão profunda sobre o destino de nós humanos em meio a essa face de destruição da natureza a que estamos expostos. Ao sair do cinema percebi o quanto nos acostumamos tanto com os sons artificiais e o quanto precisamos nos reeducar para compreender os sons da natureza. Pasárgada conta a história de uma pesquisadora da área biológica que vive dividida entre contemplar a natureza e servir ao Capital, e o leitor bem sabe que evito falar do conteúdo do que assisto, pois o que interessa aqui são as formas como a história me tocou. Os sons que me incomodaram no filme vinham de todos os lados: desde a labareda formada na fogueira, passando pelos cantos dos pássaros, indo até os movimentos dos rios e dos sons que atravessavam o ar e rasgavam em golpes certeiros as barreiras das águas, uma verdadeira sinfonia, formada por sons que não nos acostumamos mais a ouvir. Pasárgada foi uma viagem especial e me fez olhar novamente para as formas como hoje me relaciono com as coisas do mundo natural e do mundo artificial. Será que ainda há mundo natural? Até a próxima!
O que é? Pasárgada (filme)
Quem dirigiu? Dira Paes
Quem atuou? Entre outros, Dira Paes e Humberto Carrão
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A história é comandada pelos grandes atores desse tempo real, que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. Os homens não são igualmente atores desse tempo real. Fisicamente, isto é, potencialmente, ele existe para todos. Mas efetivamente, isto é, socialmente, ele é excludente e assegura exclusividades, ou, pelo menos, privilégios de uso.
Milton Santos Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal, p. 28
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de Milton Santos Boas reflexões!
Depois de mais de 45 anos, voltei à Escola Reitor Miguel Calmon, do Sesi Retiro, Salvador, Bahia.
Até a próxima!
Os sentimentos afloraram quando entrei no prédio, todo transformado, a cada passo tentava identificar onde era a biblioteca, como era o salão do recreio, o tamanho do auditório e o formato das salas de aula. Eu era um todo de nostalgia, pois estudar na Reitor Miguel Calmon mudou a minha vida, a forma de eu pensar o presente na época e os rumos que eu planejei para o futuro.
O Sesi Retiro era um tipo de complexo socioeducacional onde era possível as crianças estudarem e ainda cuidarem da saúde e do lazer. Imaginem os leitores que em pleno 1970, havia uma escola na periferia de Salvador onde os filhos dos trabalhadores da indústria e uns poucos pequenos cidadãos da periferia podiam se educar sob uma proteção social pungente?
Pois é, o Sesi Retiro era assim. Além das tradicionais aulas de Língua Portuguesa, Matemática, Estudos Sociais (História e Geografia), Educação Moral e Cívica, nós tínhamos contato com áreas do saber como Educação Física, com prática cotidiana de esportes como futebol, volibol, handbol e basquetebol. Era tudo muito intenso. Em Artes, nós tíanhamos acesso a um laboratório de artes plásticas, onde podíamos experimentar a transformação de diversos objetos, dando-lhes formas estéticas variadas. Tínhamos também aulas de teatro, com vivências significativas, como a construção da peça Os Saltimbancos, de Chico Buarque, e uma peça criada a partir do zero sobre a Guerra de Secessão, ocorrida nos Estados Unidos. No Sesi Retiro, os professores sabiam transitar entre uma área do saber e outra e estavam sempre trocando experiências uns com os outros, contribuindo assim para a nossa formação.
Havia no Sesi um laboratório para uma disciplina chamada Educação para o lar, onde aprendíamos a decifrar a complexidade do trabalho doméstico. Com aquelas experimentações domésticas fui diminuindo minhas atitudes machistas e compreendo o quanto era necessário aprender e ajudar nas tarefas de casa. Foi em Educação para o lar que aprendi a cozinhar um pouco, o que era reforçado em casa com as interações com a minha mãe, que sempre defendeu que homem tem de ir para a cozinha e banheiro: homem tem de estar em casa ajudando na construção da família. Realizei atividades estéticas de cuidar do cabelo das pessoas e higienizar e ornamentar unhas, uma verdadeira revolução de meus valores como pessoa.
Outra experiência significativa foi com Técnicas Industriais, uma disciplina em que os estudantes aprendiam noções sobre atividades relacionadas ao setor industrial. Em Técnicas Industriais fomos desafiados a encadernar várias revistas que estavam na biblioteca. Passamos uns seis meses trabalhando e depois que a atividade foi concluída, passei a visitar mais a biblioteca para me deliciar com aqueles livros construídos a partir de revistas. Nas visitas à biblioteca me sentia um artesão, um criador daqueles livros: eita tempo bom!
Além de Educação para o lar e Técnicas Industriais, tive aulas de Técnicas Comerciais, onde aprendíamos os fundamentos da administração, da contabilidade e das técnicas de comércio. A vivência em Técnicas Comerciais me levou a fazer o curso, em nível do ensino médio, de Técnico em Contabilidade, que me levou a trabalhar na área por um ano, passar em concurso público em uma empresa estatal federal da área financeira e ainda aprender a cuidar das minhas finanças: uma aprendizagem para a vida toda.
A Reitor Calmon realizou festivais de músicas com a presença da comunidade e concursos literários, que revelaram muitas pessoas com veias artísticas dentro da escola.
Pensa que terminou? No Sesi fiz tratamento dentário, tomei vacinas e tive atendimento médico básico de saúde, fui conhecer o ambiente de empresas e participei de simpósios e seminário sobre profissões.
Havia no Sesi um sistema de alimentação robusto, que as crianças adoravam e era muito gostoso provar dos quitutes feitos pelas cozinheiras daquele lugar.
Por fim, havia um sistema de auxílio socioemocional ao estudante, com participação de pedagogos e psicólogos, que acompanhava a criançada, tanto com reflexões sobre o nosso processo de existir, quanto com atividades para que pudéssemos planejar os rumos que iríamos tomar em relação ao nosso futuro.
Entrei na Escola Reitor Miguel Calmon em 1971 e saí em 1978: oito anos de vivências significativas, com os colegas, com os professores e com todos os entes (cozinheiros, vigilantes, pessoal de limpeza, pessoal da administração, profissionais de saúde) que compunham aquele sistema com S maiúsculo.
Nas quatro horas que ali fiquei no último dia 23 de agosto de 2023, todas essas memórias vieram ao meu encontro, todas elas em forma de afetos, afetos de alegrias, afetos de agradecimentos.
De volta para o futuro, ao olhar para aquele menino pobre, preto e periférico de 1971, e para o que me tornei hoje, 2024, percebo o quanto a educação no Sesi Retiro transformou a minha vida.
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de Evgeny Morozov Boas reflexões!
No artigo fiz um breviário do processo histórico da construção da inteligência brasileira, tendo como centro a questão tecnológica, além de tecer alguns comentários sobre o Projeto Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em julho de 2024.
Discutir a questão da inteligência brasileira é fundamental, ainda mais em um tempo em que os processos de discussão sobre o desenvolvimento técnico e social das nações ficam cada vez mais circunscritos ao pensamento único de algumas nações localizadas no Ocidente.
A leitura de Por um projeto de tecnologia brasileira será bem-vinda, inclusive com os comentários, caso os leitores assim ache pertinente, pois não é mais possível interagirmos com as tecnologias na função de simples consumidores.
Até a próxima!
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Outras informações
O que é? Artigo Por um projeto de tecnologia brasileira
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De 7 a 18 de Outubro de 2024, acontecerá o III Seminário Internacional Conexão Escola-Mundo, organizado pelo Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC), da Faculdade de Educação, da Universidade Federal da Bahia, com o objetivo de discutir Educação e tecnologias digitais e ativismo digital. O evento será uma forma de comemoração dos 30 anos de existência do GEC.
O evento abrangerá os municípios de Salvador, Teixeira de Freitas, Ilhéus e Itabuna, Itapetinga, Camaçari, localizados na Bahia, e a UFBA terá como parceiras a Universidade do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), o Instituto Federal Baiano (IF Baiano), o Instituto Federal da Bahia (IFBA), o colégio Isaías Alves (Iceia) e o Instituto Oyá.
O Evento foi organizado para ter a participação de professores da Educação Básica e do Ensino Superior, estudantes da Educação Básica, estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, membros de coletivos sociais e representantes de entidades governamentais.
A expectativa dos organizadores do Evento é “consolidar e ampliar tanto a rede nacional como a rede internacional de investigadores, com destaque para o fortalecimento de uma rede latino-americana, criando um momento de interlocução entre academia, escola e movimentos sociais reunidos em torno da temática do commons, ciência e educação livres, abertas e cidadãs, em práticas de investigação e ação que articulem ciência-cultura-educação-criação.”
O III Seminário Internacional Conexão Escola-Mundo dá continuidade ao projeto interinstitucional e internacional de pesquisa e de comunicação científica, Conexão Escola-Mundo: criação de espaços inovadores para a formação cidadã, que teve apoio do CNPq e foi desenvolvido entre 2018 e 2022, mediante as parcerias das UFBA e de Santa Catarina UFSC, em conjunto com a Universidade de Barcelona, Espanha.
Para mais informações sobre o III Seminário, visite o site do Evento ou entre em contato com os organizadores por meio do e-mail do Projeto Escola-mundo.
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de Airton Krenak Boas reflexões!
A questão é estender o debate para além da ideia de direitos humanos: os direitos da natureza. O que está se discutindo agora é o direito da natureza, não porque já se conseguiu atender toda a lista de demandas dos direitos humanos, mas porque é impossível atender aos direitos humanos sem atender ao direito da natureza, da Terra. Não é em outro lugar que vamos tirar esses recursos para a gente continuar vivendo. Airton Krenak, em entrevista a Tainá Aragão, do Instituto Socioambiental (ISA)
Hoje faremos uma breve leitura de Vidas secas, romance de Graciliano Ramos, escritor brasileiro, que viveu no século XX. O livro que tenho em mãos foi lançado pela editora Principis (São Paulo) em 2024.
Vidas secas trata da vida de uma família de camponeses, sem terra, que migra pelas regiões secas nordestinas atrás de comida, moradia, trabalho, dinheiro, lazer, espiritualidade; enfim, todas essas coisas que um grupo familiar deseja.
A história se desenrola por meio da jornada feita pela família de camponeses na tentativa de sobreviver frente às adversidades climáticas e sociais próprias das comunidades nordestinas brasileiras que vivem no campo.
Os capítulos que narram a referida jornada da família de camponeses são intercalados por lapidares momentos que tratam de descrever os personagens que compõem a história, uma feliz opção de organização narrativa feita pelo autor. Não vamos aqui detalhar cada modo de ser dos personagens, para que o leitor não perca o prazer de ler a obra, mas é possível trazer alguns trechos do livro, como estímulo ao acesso direto ao texto original. Vamos aos trechos?
Personagens de Vidas secas por Graciliano Ramos
Fabiano
Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
– Um homem, Fabiano
Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente, não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia.
Vidas secas secas, p. 18-19
Sinha Vitória
Sentou-se na janela baixa da cozinha, desgostosa. Venderia as galinhas e a marrã, deixaria de comprar querosene. Inútil consultar Fabiano, que sempre se entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava logo – e ela franzia a testa, espantada; certa de que o marido se satisfazia com a ideia de possuir uma cama. Sinha Vitória desejava uma cama real, de couro e sucupira, igual à de seu Tomás Bolandeira.
Vidas Secas, p. 35
O menino mais novo
Retirou-se. A humilhação atenuou-se pouco a pouco e morreu. Precisava entrar em casa, jantar, dormir. E precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cabras a mão de pilão, trazer uma faca de ponta à cintura. Ia crescer, espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar sapatos de couro cru.
Vidas Secas, p. 40-41
O menino mais velho
Ele, o menino mais velho, caíra no chão que lhe torrava os pés. Escurecera de repente, os xiquexiques e os mandacarus haviam desaparecido. Mal sentia as pancadas que Fabiano lhe dava com a bainha da faca de ponta.
Vidas Secas, p. 40-41
Baleia
Baleia queria dormir. Acordaria feliz num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se esponjariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás gordos, enormes.
Vidas Secas, p. 69
O soldado amarelo
De repente notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade.
(…)
O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia.
(…)
O soldado encolhia-se, escondia-se por trás da árvore.
(…)
Por que motivo o governo aproveita gente assim? Só se ele tinha receio de empregar tipos direitos. Aquela cambada só servia para morder as pessoas inofensivas. Ele, Fabiano , seria tão ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dá pancada neles?
A seção Pensar faz bem! traz para os leitores reflexões de diversas áreas do saber, vinculados à cultura e ao cotidiano. Uma parte significativa dos textos Pensar faz bem! é fruto das leituras que fazemos para construção dos artigos, crônicas e resenhas aqui publicados. O pensamento da quinzena é de Karl Marx Boas reflexões!
Os filósofos apenas interpretaram o mundo de maneiras diferentes; o que importa, contudo, é transformá-lo.
Karl Marx e Friedrich Engels, em A ideologia alemã, p. 91
Uma das coisas que mais fazemos na vida é a atividade de leitura. Desde a nossa vivência útero até a velhice estaremos descobrindo alguma coisa do mundo por meio da leitura.
Mas a leitura não se resume apenas à leitura do mundo e à leitura de textos, mas se expande como prática social, alcançando múltiplas formas, como a leitura de imagens, de vídeos e, hoje, a leitura de códigos digitais.
Fui descobrindo a leitura de textos bisbilhotando a pequena biblioteca do meu pai. Ele tinha uns 20 livros de capa dura, a maioria sobre assuntos da área de saúde, que ficavam em uma pequena mesa no canto da sala. Eu ainda não sabia ler, mas fiquei fascinado com aqueles pequenos registros que ocupavam a página e, para mim, ampliavam o mundo, trazendo coisas que eu desconhecia.
Aqueles livros criaram em mim uma vontade de ir para a escola para aprender a ler e escrever. Foi na escola que encontrei dois colegas que me fascinaram pelos hábitos que eles tinham de ler. Um deles vivia durante o intervalo na biblioteca, procurando coisas para ler, enquanto a outra colega ficava lendo a cada semana um novo livro, no intervalo, muitas vezes na sala de aula durante o intervalo.
Se todos iam brincar no intervalo, por que eles tinham aqueles hábitos tão peculiares? Não sabia eu que a leitura também é uma forma de brincadeira.
Lembro que a maioria dos estudantes lia com interesse em obter boas notas, mas só isto, mas os dois colegas tinham prazer em ler tudo o que aparecesse.
Em casa, meu pai e meu tio, sempre que era possível, traziam revistas usadas do trabalho. Meu tio trabalhava em uma empresa de transporte intermunicipal. Lá os passageiros esqueciam várias revistas que depois eram descartadas no lixo. Meu tio, sabendo do meu interesse por leitura, catava a maioria e trazia para mim. Já meu pai era zelador de um prédio em área nobre de Salvador e recebia dos patrões diversas revistas usadas, que as crianças do prédio haviam lido e não se interessavam mais.
No meu primeiro emprego comprei o primeiro número da coleção Literatura Comentada, da editora Abril, e tive oportunidade de ler textos sobre Gilberto Gil e Álvares de Azevedo. A partir daquele primeiro número, busquei novos livros da coleção, o que me ajudou bastante a conhecer um pouco da cultura brasileira letrada. Daí em diante, passei a comprar livros para leitura e consulta até chegar ao acervo que tenho hoje.
Junto com a leitura de textos, fui aprendendo a ouvir músicas nas primeiras rádios FM dos anos 1970, ir ao cinema e teatro, o que ampliou mais minha vontade de ler. A leitura é um processo que leva a vida toda!
Passei por algumas situações bem interessantes sobre o processo de leitura. Certa vez recebi um amigo em casa, e ele pasmado com a quantidade de livros nas estantes, perguntou se eu já havia lido todos aqueles livros. Tive de explicar a ele que alguns livros servem para consulta, mesmo não sendo dicionários, mas que aquilo não tirava a importância de tê-los em casa. Em outro momento, uma colega de trabalho me confidenciou que havia tanta coisa para ler que não haveria tempo suficiente para a leitura durante a vida. Fiquei comovido com aquilo, uma vez que é um tipo de sentimento que também compartilho. Por último encontrei uma colega do tempo da escola no ensino fundamental que me confidenciou que acorda cedo para fazer a leitura diária e que tem o hábito de ler mais de um livro ao mesmo tempo sobre assuntos diferentes. Enquanto ela falava, meus olhos brilharam, pois tenho um hábito bem parecido há anos e como foi bom reconhecer alguém que comunga do mesmo hábito.
Procuro ler por meio dos mais diversos formatos, sejam eles papel, telas eletrônicas de computadores, aparelhos de livros eletrônicos, tablets, smartphones ou TV. Tudo é motivo para a prática da leitura.
Falta tratar de um último tipo de leitura que venho me dedicando nos últimos anos que é o de ler códigos computacionais. fico fascinado como o humano criou linguagens para que nós humanos nos comuniquemos com as máquinas. Pois é, não sei programar como fazem os cientistas da computação, mas busco entender como os algoritmos funcionam e como eles influenciam a vida cotidiana. Este é o meu atual desafio de leitura.
Estas são algumas das vivências que tive e tenho com as leituras que atravessam a vida cotidiana. É assim que vou descobrindo mais e mais coisas sobre o mundo em que vivemos por meio dessa prática tão deliciosa chamada leitura.